16 Séries De Ficção Científica Para Assistir No Apple Tv+
A mais nova plataforma de streaming tem se destacado como A Casa da Ficção Científica nos últimos anos.
Paulo Bocca Nunes
A ficção científica moderna nunca esteve tão em evidência como em produções seriadas nas plataformas de streaming. Nos últimos anos, por exemplo, o Apple TV+ tem surpreendido o público e a crítica com produções originais de altíssima qualidade. Embora o catálogo seja menor que o de outras plataformas, há algo que o diferencia: a consistência e a ousadia criativa. Enquanto algumas plataformas apostam em blockbusters previsíveis e narrativas aceleradas, a Apple TV+ segue por outro caminho — mais silencioso, mais visual e, de certo modo, mais filosófico.
Entre dramas filosóficos, distopias sombrias e aventuras espaciais, o serviço da Apple tem se consolidado como um verdadeiro polo criativo da ficção científica moderna. Lá, o futuro não é apenas um espetáculo de efeitos, mas uma experiência de reflexão. As histórias buscam seguir um rumo e ritmo que não pede nem exige pressa.
Neste artigo, vamos conhecer quinze séries que representam essa diversidade — explorando subgêneros, tendências e temas que vão muito além do entretenimento.
NÚCLEO 1 — O ESPAÇO COMO DESTINO
Se há um território que a ficção científica sempre dominou, é o espaço — a fronteira a ser vencida pela humanidade — e a Apple TV+ tem investido pesado nesse campo. FOR ALL MANKIND é um dos grandes épicos modernos do gênero. Criada por Ronald D. Moore, a série imagina um mundo em que a União Soviética chegou à Lua antes dos Estados Unidos — prolongando a corrida espacial por décadas. Cada temporada salta dez anos no tempo, acompanhando as mudanças tecnológicas, sociais e culturais.
O resultado é um retrato vívido da humanidade diante do progresso — um espelho alternativo da nossa própria história. A série estreou em 2019 e a 5ª temporada já foi confirmada pela Apple TV+ em abril de 2024, mas ainda não tem data de lançamento oficial. As filmagens começaram, mas a previsão é que a estreia possa acontecer em 2026, devido a possíveis adiamentos. Novos atores foram adicionados ao elenco principal e a trama deve continuar com o foco na exploração do Happy Valley e na mineração de asteroides.
Já FUNDAÇÃO, inspirada na obra monumental de Isaac Asimov, leva o espectador a um futuro em que a galáxia é governada por um império à beira do colapso. A série traduz com ambição o conceito da psico-história de Hari Seldon — ciência capaz de prever o destino coletivo da humanidade por meio de cálculos baseados em fórmulas matemáticas complexas.
Visualmente impressionante e filosoficamente densa, Fundação é uma homenagem à era de ouro da ficção científica, agora com estética cinematográfica de ponta.
A série estreou em 2019 e em 2025 completou a sua terceira temporada e a plataforma já confirmou a quarta, com início de produção previsto para o começo de 2026. A renovação foi anunciada logo antes do fim da terceira temporada, sinalizando a continuidade da série de ficção científica baseada na obra de Isaac Asimov.
NÚCLEO 2 – INVASÃO ALIENÍGENA
Um dos subgêneros mais apreciados pelo público é sobre invasão alienígena. Desde a obra de H.G. Wells, A Guerra dos Mundos, livro publicado em 1898, e de várias adaptações para cinema e séries de TV, o tema tem público garantido. Não podia ser diferente com INVASÃO — a série INVASION — um retrato global de uma crise alienígena.
Longe dos clichês do gênero, a série adota uma narrativa lenta e humana, mostrando diferentes perspectivas de uma invasão extraterrestre. O foco não está apenas nos alienígenas, mas em como as pessoas reagem ao desconhecido, o que faz dela uma das abordagens mais realistas e emocionais sobre o tema.
A série estreou em 2021, teve a segunda temporada em 2024 e a terceira em 2025. A plataforma não confirmou uma quarta temporada. Em entrevistas, o co-criador Simon Kinberg já deixou claro que a série foi planejada para ter uma narrativa de longo prazo. Mas, há dúvidas sobre a continuação da série.
NÚCLEO 3 — O CAOS NA TERRA: DISTOPIAS E SOCIEDADES EM COLAPSO
As distopias formam um subgênero da ficção científica bastante explorado tanto pela literatura quanto pelo cinema e séries, mostrando aquelas visões de futuros corrompidos, onde a humanidade sobrevive entre ruínas e sistemas de controle. A série SILO talvez seja o maior símbolo dessa vertente da plataforma.
Baseada na série de livros de Hugh Howey, a trama apresenta uma sociedade que vive confinada em um gigantesco silo subterrâneo. O que começa como uma história sobre regras e confinamento se transforma numa poderosa metáfora sobre verdade, poder e memória coletiva.
A produção impressiona pela direção e pela atuação de Rebecca Ferguson — e prova que ainda há espaço para distopias inteligentes e bem construídas.
A série estreou em 2023 e a segunda temporada chegou em 2024. Em dezembro daquele ano, a plataforma confirmou a terceira temporada e a quarta temporada, que será a última da série. As gravações da terceira temporada foram concluídas em maio de 2025, e a estreia é aguardada para o início de 2026.
Em seguida, SEE, estrelada por Jason Momoa, leva a ideia de colapso para outro extremo.
Séculos depois de um vírus dizimar a humanidade, os sobreviventes vivem sem o sentido da visão. Nesse cenário, a cegueira deixa de ser apenas limitação — torna-se o próprio eixo de uma nova civilização.
Visualmente deslumbrante e com batalhas coreografadas com precisão, See é um lembrete de que o futuro também pode ser selvagem e ritualístico. As duas primeiras temporadas vieram em 2019 e 2021. A terceira e última temporada foi ao ar em outubro de 2022.
Entre as distopias que imaginam sociedades subterrâneas ou cegas, há uma série que prefere olhar para o nosso próprio planeta — e enxergar nele o campo mais assustador da ficção científica: o real. EXTRAPOLATIONS, lançada pela Apple TV+ em 2023, é uma antologia que projeta o impacto das mudanças climáticas ao longo das próximas décadas. Oito histórias interconectadas e contadas ao longo de 33 anos, que exploram como as mudanças climáticas do nosso planeta afetarão a família, o trabalho, a fé e a sobrevivência.
Cada episódio se passa em um momento diferente do futuro, mostrando como o avanço tecnológico, a desigualdade e as decisões éticas da humanidade moldam um planeta em colapso. A série é um raro exemplo de eco-sci-fi, um subgênero que transforma o meio ambiente em protagonista e nos força a confrontar a ficção mais incômoda de todas: aquela que já começou.
NÚCLEO 4 — REALIDADES PARALELAS E MANIPULAÇÃO DA MENTE
Da decadência social, passamos às dobras da realidade e da consciência. A Apple TV+ tem se destacado em explorar o que há de mais filosófico na ficção científica: a identidade e a percepção. Em MATÉRIA ESCURA, baseada no livro de Blake Crouch, Dark Matter, de 2016, acompanhamos um físico sequestrado e lançado em universos paralelos — cada um representando uma versão possível de sua vida.
É uma viagem pelo multiverso, mas também uma reflexão sobre as escolhas que nos definem.
Com Joel Edgerton e Jennifer Connelly em atuações precisas, a série combina ação, suspense e um drama existencial poderoso. A série estreou em 2024 a primeira temporada.
A plataforma confirmou a segunda em agosto do mesmo ano e foi anunciada pelo autor Blake Crouch, que também é produtor da série. Ele também disse que há muito mais história para contar sobre os personagens e suas lutas no multiverso. Não há previsão de lançamento para a 2ª temporada, mas as gravações foram concluídas em 2025.
Já RUPTURA (Severance), de Dan Erickson e Ben Stiller, é uma das obras mais elogiadas dos últimos tempos. Uma mistura de thriller psicológico, drama, mistério, humor ácido e ficção científica. Na trama, funcionários de uma empresa têm suas memórias divididas entre o “eu do trabalho” e o “eu da vida pessoal”.
O resultado é uma crítica brilhante ao capitalismo corporativo e à fragmentação da identidade moderna — tudo envolto em uma atmosfera minimalista e inquietante. Ruptura é, literalmente, um experimento de consciência disfarçado de série de mistério.
A série estreou no serviço de streaming Apple TV+ em 2022. Além de muitos elogios pela crítica especializada e pelo público, a série recebeu várias indicações de prêmios de Melhor Série de Drama. A segunda temporada estreou em janeiro de 2025. A Apple TV+ confirmou a terceira temporada da série Ruptura em março de 2025. Porém, houve uma mudança na equipe criativa: Ben Stiller, que dirigiu muitos episódios das duas temporadas, não vai retornar como diretor, pois pretende focar em outros projetos.
CONSTELAÇÃO, estrelada por Noomi Rapace, traz essa mesma inquietação para o espaço. Após um acidente na Estação Espacial Internacional, uma astronauta retorna à Terra com lapsos de memória e fragmentos de realidade que não se encaixam. Com clima tenso e visual hipnótico, a série une o suspense psicológico à estética do isolamento cósmico — um tipo de ficção científica que provoca mais do que explica.
A plataforma decidiu não seguir com uma segunda temporada logo após o final da primeira temporada em 2024. É uma série intrigante, com reviravoltas impressionantes que quase confundem o espectador.Mas, tudo faz sentido.
E para fechar este bloco, ILUMINADAS, protagonizada por Elisabeth Moss e Wagner Moura, traz um suspense psicológico que mistura trauma e viagem no tempo. Adaptada do livro de Lauren Beukes (Shining Girls), a série coloca o espectador dentro da mente de uma mulher cuja percepção da realidade está em colapso — e com isso, flerta com a ideia de que o verdadeiro horror talvez não venha do futuro, mas da própria mente humana.
Embora a série tenha sido bem recebida e a produtora executiva tenha expressado interesse em continuar a história, a série teve apenas uma temporada, em 2022, e não há confirmação de uma segunda.
DR. BRAIN, uma das experiências mais ousadas da plataforma. Produção sul-coreana inspirada em um webtoon, mistura neurociência, suspense e melancolia. Um cientista cria um dispositivo capaz de sincronizar cérebros — uma ponte entre mentes e memórias.
Visualmente sombria, ela flerta com o horror psicológico e a ficção científica cerebral, explorando a mente como território de assombração.
Nesse bloco, a Apple reafirma sua assinatura: a ficção científica como reflexão sobre o que significa “pensar”. Uma série que se parece mais um experimento da plataforma, CALLS é uma experiência auditiva em uma tela de TV. Contada apenas por conversas por meio de ligações telefônicas e formas sonoras abstratas, interconectadas. Elas narram a misteriosa história de um grupo de estranhos cujas vidas são jogadas em desordem no período que antecedeu um evento apocalíptico.
É uma experiência auditiva — uma ficção científica que existe mais na imaginação do espectador do que na tela. É também um manifesto da própria Apple TV+: o som, o silêncio e a forma minimalista como linguagem narrativa. Mais que uma série, Calls é uma prova de que a plataforma se permite experimentar o invisível.
A série foi lançada em 2021 e, embora a Apple não tenha anunciado oficialmente o cancelamento, a falta de notícias sobre uma continuação três anos após a estreia sugere que a série foi concebida para ser uma minissérie de apenas uma temporada.
NUCLEO 5 — HUMANIDADE E TECNOLOGIA
Encerrando nossa jornada, chegamos ao ponto onde a ficção científica volta o olhar para nós mesmos — a relação entre humanidade e tecnologia. SUNNY, filmada no Japão, combina drama, humor e melancolia.
Baseada no livro The Dark Manual ( ), do escritor irlandês Colin O’Sullivan, a trama segue uma mulher que perde o marido e o filho, e passa a conviver com um robô doméstico, que se transforma numa parábola sobre solidão e afeto. É a ficção científica mais intimista do catálogo da Apple — delicada e com um toque de poesia tecnológica.
A série estreou em julho de 2024, mas em novembro a plataforma cancelou uma sequência.
Em HELLO, TOMORROW!, o futuro retrofuturista é pura ironia visual. Billy Crudup interpreta um vendedor carismático que promete imóveis na Lua. A série brinca com o sonho americano e a promessa do progresso, com estética inspirada nos anos 1950.
É uma crítica elegante à ilusão de que a tecnologia, sozinha, pode salvar a humanidade. A série estreou em fevereiro de 2023 e não houve confirmação para uma segunda temporada. O que significa que a série provavelmente foi cancelada. Fontes indicam que a série não foi bem recebida e todos os adereços e cenários da produção foram vendidos, o que sugere o fim da série.
NÚCLEO 6 — FICÇÃO CIENTÍFICA E MITOLOGIA BIOLÓGICA
A Apple TV amplia o horizonte de produções ao entrar no universo dos kaijus com MONARCH: LEGADO DE MONSTROS. Aqui, a ficção científica se mistura à mitologia dos monstros gigantes como Godzilla e King Kong. A série aprofunda o lore da organização Monarch e oferece uma abordagem humana dentro desse universo colossal — provando que o sci-fi pode ser grandioso sem perder o foco emocional.
A trama está centrada na descoberta do legado de uma família ligada à organização secreta Monarch após os eventos de “Godzilla”, de 2014. A série intercala a história de Cate e seus irmãos, que buscam seu pai, com a da criação da Monarch na década de 1950. Kurt Russell e seu filho Wyatt Russell interpretam o mesmo personagem em diferentes épocas. A primeira temporada estreou em novembro de 2023 e foi renovada para uma segunda temporada. As filmagens foram finalizadas em março de 2025.
NÚCLEO 7 — INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E O DILEMA DAS MÁQUINAS
Se há um tema inevitável no século XXI, é a inteligência artificial. A Apple TV+ o aborda com sutileza e ironia. Baseada nos livros de Martha Wells, a série DIÁRIO DE UM ROBÔ ASSASSINO dá voz a um robô autoconsciente que prefere maratonar uma série de ficção científica a obedecer humanos.
O engraçado é que ele usa essa mesma série para fazer julgamentos sobre os humanos. O humor ácido contrasta com reflexões sobre autonomia, tédio e autodefinição. É o anti-Asimov — uma ficção robótica em que o robô não busca servir, mas existir.
A primeira temporada estreou em maio de 2025 e a segunda temporada foi confirmada pela Apple TV+ em julho. A ideia dos produtores é de adaptar os demais livros da saga de Martha Wells.
Como um bônus, e sem ser uma série, FINCH é um filme que vale a pena assistir. A trama gira em torno de um homem, um inventor moribundo que constroi um androide para acompanhar ele e seu cachorro em uma jornada por um mundo devastado por uma atividade solar que destruiu a camada de ozônio.
A ficção científica se torna uma fábula sobre solidão e legado. A inteligência artificial é a empatia programada — a tentativa de perpetuar o humano no não-humano. O filme foi lançado nos cinemas em 2021 tendo Tom Hanks interpretando o protagonista.
Entre Finch e Murderbot, há um diálogo direto com os dilemas que Asimov imaginou nas suas obras sobre robôs — mas agora com um verniz contemporâneo e uma dose de sarcasmo pós-humano.
CONCLUSÃO
A Apple TV+ pode não competir em quantidade, mas construiu algo mais valioso: um catálogo de ficção científica com personalidade. Entre distopias claustrofóbicas, aventuras espaciais, dramas psicológicos e experimentações estéticas, a plataforma demonstra que o gênero continua sendo uma das melhores formas de pensar o mundo — e de imaginar o que ainda está por vir.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
