A Ficção Científica do Século XIX
O gênero de ficção científica tem sido o centro de debates e estudos desde a metade do século XX e ainda hoje nas primeiras duas décadas do XXI. No entanto, há uma produção literária no século XIX que contribuiu muito para o estabelecimento e a consolidação do gênero nos dois séculos seguintes. Neste artigo, mostraremos dezesseis obras do século XIX que são consideradas como pertencentes ao gênero ficção científica.
Paulo Bocca Nunes
Quando se fala nas primeiras obras de ficção científica, muitos especialistas em literatura apontam para o século XIX e as obras mais conhecidas de Mary Shelley (Frankenstein, 1818), Júlio Verne (Da Terra à Lua, 1865 e Vinte Mil Léguas Submarinas, 1870) e H. G. Wells (A Máquina do Tempo, 1895, e A Guerra dos Mundos, 1898). Esses autores e essas obras são consideradas como essenciais para o surgimento do gênero de ficção científica.
A ciência daquele período poderia não ter os avanços que temos atualmente, no entanto possuía mais do que em épocas anteriores em que algumas ficções foram reconhecidas como “proto ficção científica”. Sendo assim, podemos entender que as obras ficcionais do século XIX, que tenham fundo científico em seu enredo, pertençam a uma fase de transição, que se antecipa às produções pulp fiction do começo do século XX. Essas, sim, foram fundamentais para a consolidação do novo gênero literário.
Ao longo do século XIX foram publicadas outras obras que trazem elementos comuns a outras obras de ficção científica que conhecemos atualmente, tais como viagens espaciais, contatos com seres extraterrestres e sociedades distópicas. Algumas dessas obras, de certa forma, também inspiraram um subgênero da ficção científica que se consagrou entre as décadas de 1980 e 1990, o Steampunk.
IMPORTANTE SALIENTAR QUE…
Antes de existir um nome oficial, aquilo que hoje chamamos de ficção científica era conhecido por outros rótulos — quando recebia algum.
No final do século XIX, por volta de 1850, e início do século XX, especialmente na Inglaterra, as histórias com base científica, tecnológica ou especulativa eram chamadas de “romances científicos” (scientific romances). Esse termo se consolidou principalmente a partir da década de 1880 e foi associado a autores como Jules Verne e H. G. Wells.
O termo também se refere a uma coleção de ensaios do britânico Charles Howard Hinton (1853-1907), que cunhou a palavra “tesseract”, publicada em 1886 e que explora conceitos como a quarta dimensão. Atualmente, “scientific romance” pode se referir a obras que imitam o estilo dessas primeiras histórias.
Essas narrativas misturavam ciência com aventura e questionamentos sociais e filosóficos, antecipando muitos temas que hoje associamos ao gênero sci-fi. No entanto, o conceito de um gênero literário autônomo com esse nome só surgiria décadas depois, nos Estados Unidos.
Em abril de 1926, Hugo Gernsback, ao lançar a revista Amazing Stories, classificou esse tipo de literatura como “scientifiction”, um neologismo criado por ele para designar histórias que combinassem “romance cativante, ensinamentos científicos e visão profética”.
Poucos anos mais tarde, Gernsback abandonaria esse termo. Em fevereiro de 1930, em um artigo publicado na revista Writer’s Digest, ele usaria pela primeira vez a expressão “science fiction” — que em português se tornaria o termo definitivo: ficção científica.
Desde então, esse nome passou a designar um vasto campo de histórias que investigam o impacto da ciência, da tecnologia e do futuro sobre o ser humano e a sociedade.
O século XIX foi, portanto, um período de fermentação criativa — um terreno fértil em que a imaginação começou a se alimentar da ciência e da tecnologia emergentes. Nesse contexto, diversos autores, alguns hoje quase esquecidos, experimentaram ideias que anteciparam conceitos fundamentais da ficção científica moderna: viagens espaciais, civilizações alienígenas, futuros distantes e sociedades alternativas.
Essas narrativas, escritas em inglês, francês, alemão e outras línguas, formam o que podemos chamar de ficção científica de transição — obras que, embora ainda não pertencentes ao gênero formalizado por Gernsback, já apontavam para ele. A seguir, destacamos algumas dessas criações pioneiras que pavimentaram o caminho entre a imaginação romântica e a ficção científica moderna.
AUTORES E OBRAS DA FICÇÃO CIENTÍFICA DE TRANSIÇÃO
A seguir, apresentamos algumas das narrativas mais significativas do século XIX que ilustram o processo de transformação da ficção especulativa em ficção científica. A maioria dessas obras estão disponíveis digitalmente e estão em domínio público.
1. O Último Homem (The Last Man, 1805), Jean-Baptiste Cousin de Granville (1746-1805)
Considerado o primeiro romance moderno a retratar o fim do mundo, O Último Homem é um poema em prosa de fantasia científica. A obra acompanha Omegarus, último descendente da humanidade na Europa, e Syderia, a última mulher fértil, em uma viagem que os leva do Velho Mundo ao Brasil. Guiados por espíritos e forças sobrenaturais, eles enfrentam dilemas sobre a continuação da espécie humana, culminando na destruição predestinada da Terra, inspirada no Apocalipse e em ideias malthusianas sobre população e recursos.
Publicado postumamente, o romance foi mal traduzido para o inglês em 1806 e só recebeu uma nova tradução em 2003. Apesar da recepção inicial discreta, tornou-se uma obra seminal da ficção científica e influenciou trabalhos posteriores sobre temas escatológicos, incluindo Darkness de Byron e The Last Man de Mary Shelley.
2. Breve história de uma notável viagem aérea e descoberta de um novo planeta (Kort verhaal van eene aanmerkelijke luchtreis en nieuwe planetontdekking, 1813), Willem Bilderdijk (1756–1831)
Nesse romance, o protagonista se gaba de ser capaz de construir um balão capaz de levantar pessoas e deixá-las voar com o ar. No entanto, os gases utilizados revelam-se mais potentes do que o esperado e passado algum tempo o balão chega a um planeta entre a Terra e a Lua. Willem Bilderdijk usa sua história para apresentar uma visão geral do conhecimento científico sobre a Lua. Vinte anos depois, algumas semelhanças com esse romance são encontradas no conto de Edgar Allan Poe “A aventura inigualável de um certo Hans Pfaall”. Bilderdijk foi um influente e prolífico poeta, historiador, advogado e linguista holandês, embora também fosse conhecido por sua natureza excêntrica e controversa. Seu romance de 1813 foi sua única obra de ficção.
3. Symzonia: Voyage of Discovery (1820) — Capitão Adam Seaborn (pseudônimo de Nathaniel Ames)
O romance é um dos primeiros de ficção científica norte-americanos e está entre as obras inaugurais do subgênero utópico-distópico. O livro combina o espírito de aventura das viagens imaginárias do século XVIII com as novas ideias científicas do início do XIX — em especial a teoria da Terra oca, proposta por John Cleves Symmes.
O narrador, o Capitão Adam Seaborn, organiza uma expedição marítima “de caça às focas” que, na verdade, busca comprovar a existência de uma abertura no Polo Sul que levaria ao interior da Terra. Após superar um motim e alcançar terras desconhecidas, Seaborn e sua tripulação descobrem um mundo interior habitado por uma civilização avançada e pacífica: os Symzonians.
Esses seres são descritos como pequenos, translúcidos, fisicamente frágeis, mas incrivelmente fortes, dotados de grande virtude moral e de conhecimento científico avançado, embora desconheçam as armas e as doenças. Vivem em harmonia, sem guerras nem vícios, e banem de seu convívio qualquer indivíduo que manifeste comportamentos considerados corruptos — o que levanta a sugestão de que os “banidos” foram os antepassados dos humanos da superfície.
A convivência entre Seaborn e os Symzonians evidencia o contraste entre a pureza moral utópica e a corrupção do mundo civilizado ocidental. Quando o capitão tenta ocultar os defeitos da humanidade, os Symzonians percebem seu engano e o expulsam, temendo a contaminação moral e física que o contato com os humanos poderia causar. Ele retorna à Terra prometendo organizar uma nova expedição — uma ironia que reforça o tom satírico da obra.
A obra mistura ficção científica, romance de exploração e sátira social. Seu núcleo conceitual é o de uma utopia moral e científica, representada pela sociedade perfeita dos Symzonians, em oposição à civilização humana, marcada por doenças, armas e ganância.
A narrativa antecipa elementos que se tornariam comuns em autores como Jules Verne, H. G. Wells e, mais tarde, nas distopias do século XX: o encontro entre o homem civilizado e uma sociedade alternativa que expõe suas contradições.
Críticos modernos a classificam como o primeiro romance de ficção científica dos Estados Unidos, e uma das primeiras explorações literárias do tema da Terra oca.
Há também uma leitura sociopolítica, pois o livro ironiza a mentalidade colonialista e missionária da época — a ideia de que povos “inferiores” deveriam ser civilizados segundo padrões europeus.
Na época de seu lançamento, Symzonia recebeu pouca atenção. Uma resenha de Edward Everett, na North American Review, sugeria que o livro era uma “sátira swiftiana” (em referência a Jonathan Swift e As Viagens de Gulliver), zombando do colonialismo e da hipocrisia moral das nações cristãs. Outra crítica, publicada em 1821 no The Literary Gazette, chamou a obra de “enfadonha e pouco interessante”, embora reconhecesse o bom humor do autor.
Apesar da recepção morna, o romance foi redescoberto no século XX e hoje é considerado uma peça fundamental do proto–ficção científica americana, com ecos filosóficos e satíricos que antecipam a ficção especulativa moderna. Em 1976, Symzonia inspirou uma adaptação radiofônica de oito episódios pela rádio comunitária KRAB de Seattle, reforçando seu status como curiosidade literária e precursora do gênero.
4. The Mummy! A Tale Of The Twenty-Second Century (1827) — Jane Webb Loudon (1800-1858)
Publicado em três volumes, A Múmia! é uma das obras mais originais e ousadas do início do século XIX. Escrito quando Jane Webb tinha apenas 17 anos, o romance se passa no ano de 2126, descrevendo um futuro de grande avanço tecnológico e explorando temas de ciência, religião e moralidade. A narrativa gira em torno da ressurreição da múmia do faraó Quéops, trazida de volta à vida não por experimentos científicos, mas por intervenção divina — um contraste direto com o cientificismo de Frankenstein (1818), de Mary Shelley, obra que claramente influenciou Webb.
Ao contrário da criatura monstruosa de Shelley, Quéops não é um símbolo do terror humano, mas uma figura sábia e racional, que oferece conselhos políticos e filosóficos à sociedade do futuro. Essa inversão de perspectiva transforma o romance em uma reflexão moral e social, mais do que uma narrativa de horror.
Jane Webb teria se inspirado na “egiptomania” da época — o fascínio europeu pelo Egito Antigo após as campanhas napoleônicas e os eventos públicos de desembrulhamento de múmias realizados em Londres. Essa ambientação exótica somada à especulação científica coloca A Múmia! como a primeira obra em língua inglesa a apresentar uma múmia reanimada, antecedendo em muitas décadas as populares histórias de terror egípcio do século XX.
A Múmia! é considerada uma precursora da ficção científica vitoriana, unindo utopia futurista, sátira política e especulação científica. O romance antecipa invenções e ideias que se tornariam comuns no gênero — máquinas voadoras, comunicação instantânea e até debates éticos sobre o uso da ciência.
5. O Mundo Como Ele Será (1846) de Émile Souvestre (1806-1854)
Romance francês de ficção científica e distopia, O Mundo como Ele Será acompanha o casal parisiense Marthe e Maurice, que deseja vislumbrar o futuro da humanidade. Guiados por John Progrès, um homem misterioso, eles viajam ao ano 3000 a bordo de uma locomotiva a vapor que também funciona como máquina do tempo.
No futuro, descobrem um mundo tecnologicamente avançado: metrôs a vapor, submarinos, materiais sintéticos, telefonia, ar-condicionado e frutas e vegetais gigantes cultivados por engenharia genética. Porém, o progresso é acompanhado de desequilíbrios sociais e éticos: a paternidade desapareceu, a educação e a genética são manipuladas para produzir seres adaptados a funções específicas, corporações controlam decisões políticas e práticas médicas experimentais são comuns. Enquanto algumas nações declinam ou se tornam autoritárias, outras mantêm liberdade aparente, mas exploram sua população.
A obra antecipa debates sobre tecnologia, eugenia e organização social, tornando-se um exemplo precoce de distopia e ficção científica de transição no século XIX. Émile Souvestre foi professor, jornalista e romancista bretão natural de Morlaix, na Bretanha, França.
6. Les Exilés De La Terre (1848) — Paschal Grousset (1844-1909)
Um consórcio que pretende explorar os recursos minerais da Lua decide que, como nosso satélite está muito longe para ser alcançado, ele deve ser trazido para mais perto da Terra. Uma montanha sudanesa composta de minério de ferro puro se torna a sede da recém-criada Selene Company. Refletores solares são usados para fornecer a energia necessária para converter a montanha em um enorme eletroímã , com quilômetros de cabos enrolados em torno dele. Uma nave espacial-observatório é então construída no topo da montanha. Quando o experimento começa, a montanha é arrancada da Terra e catapultada para a Lua. Lá, os protagonistas têm várias aventuras e eventualmente retornam à Terra reenergizando a montanha.
Grousset mistura ciência e sátira política, criticando a ambição e o colonialismo europeu. É curioso como ele antecipa o mesmo tema que Verne exploraria anos depois em Da Terra à Lua.
7. Star ou Psi de Cassiopeia (1854), de Charlemagne Ischir Defontenay (1819–1856).
Defontenay foi um escritor francês de ficção científica. A história é vista por alguns como um exemplo de proto-ópera espacial. Na obra, o narrador conta que descobriu no Himalaia uma pedra que caiu do céu. Ao abri-la, ele vê que contém uma caixa de metal onde havia alguns manuscritos em papel. Após dois anos de estudo, ele conseguiu decifrá-los e descobriu que eles descreviam as sociedades alienígenas de várias raças humanóides que vivem na constelação de Cassiopeia. Um conjunto de criaturas eram humanóides imortais de cabelos azuis de 2,7 metros de altura.
8. The Steam Man Of The Prairies (1868) — Edward Sylvester Ellis (1840-1916)
Publicado em 1868, The Steam Man of the Prairies é considerado o primeiro romance de ficção científica dos Estados Unidos e um dos primeiros exemplos do subgênero “Edisonade” — histórias protagonizadas por jovens inventores que usam suas criações tecnológicas para viver grandes aventuras.
A trama começa quando Ethan Hopkins, um típico “ianque”, e Mickey McSquizzle, um “irlandês” caricatural, encontram uma máquina humanóide gigantesca movida a vapor nas vastas pradarias americanas. Essa invenção extraordinária foi construída por Johnny Brainerd, um adolescente prodígio da mecânica, que utiliza o “Homem a Vapor” para impulsionar uma carruagem e embarcar em diversas aventuras cheias de ação e descoberta.
O personagem de Johnny Brainerd — jovem, engenhoso e patriótico — se tornaria o arquétipo do herói científico norte-americano, inspirando posteriormente a popular série Frank Reade, e consolidando o padrão de narrativas tecnológicas que exaltavam o espírito inventivo e o otimismo industrial da época.
A obra reflete o entusiasmo do século XIX pelo progresso tecnológico e pela máquina a vapor, símbolo do domínio humano sobre a natureza. Inspirada provavelmente na invenção real do “Homem a Vapor” de Zadoc Dederick, patenteada em 1868, a história mescla aventura, ficção mecânica e otimismo científico, características que definiriam boa parte da ficção popular americana do período. O romance teve seis reedições entre 1868 e 1904, o que demonstra sua grande popularidade na virada do século.
O “Homem a Vapor” teve influência em outras obras. Reaparece na minissérie em quadrinhos The Steam Man (2015), escrita por Mark Alan Miller e Joe R. Lansdale, ilustrada por Piotr Kowalski. É citado e reinterpretado em obras de Alan Moore (A Liga Extraordinária e Nemo: Coração de Gelo) e Warren Ellis (Planetary).
O texto original em inglês está disponível no Projeto Gutemberg e pode ser acessado AQUI.
9. O Poder da Raça Futura (The Coming Race, 1871), de Edward Bulwer-Lytton (1803-1873)
A história acompanha um jovem viajante que, explorando um abismo em uma mina, descobre uma raça humanoide subterrânea altamente avançada, os Vril-ya, descendentes da antiga civilização Ana. Essa sociedade vive em cidades subterrâneas interligadas por túneis e possui habilidades extraordinárias, como telepatia, cura e manipulação da matéria, derivadas de um fluido chamado Vril, que pode ser canalizado por bastões especiais. Homens e mulheres têm direitos iguais, e a ordem social é cuidadosamente planejada para preservar a raça. O narrador desenvolve um vínculo com Zee, filha de seu anfitrião, que se apaixona por ele; contudo, seus sentimentos poderiam comprometer a estabilidade da sociedade. Ele consegue escapar e retorna à superfície sem revelar a existência dos Vril-ya, alertando que, se ficarem sem espaço, essa raça poderia reivindicar a Terra.
O romance foi popular no final do século XIX, e o conceito de Vril passou a ser associado a “elixires vivificantes”, como no nome Bovril. A obra influenciou autores de ficção científica como H.G. Wells e foi incorporada ao esoterismo e à teosofia por Helena Blavatsky e outros, inspirando ideias de sociedades subterrâneas, energias místicas e até relatos sobre OVNIs. A influência cultural se estendeu à música, com a canção “Oh! You Pretty Things” de David Bowie, e à literatura, como no romance de 1910 de Jules Lermina, que incluía máquinas voadoras movidas a Vril.
10. Erewhon (1872), Samuel Butler (1835-1902)
Com ironia afiada, Butler cria uma sociedade invertida: um mundo onde máquinas são proibidas porque estão se tornando conscientes. Um conceito que parece de hoje, mas é de 1872!
Erewhon é tanto uma sátira social quanto uma reflexão sobre a evolução da tecnologia. Um alerta precoce de que a inteligência das máquinas poderia um dia ultrapassar a nossa.
O autor satiriza a sociedade vitoriana ao descrever uma nação fictícia, Erewhon (um anagrama de “nowhere”), onde a doença é crime, o crime é doença, e máquinas e tecnologias são proibidas. O livro é notável por sua visão pioneira sobre inteligência artificial, sugerindo que as máquinas poderiam evoluir e se tornar autoconscientes.
Butler usa a sociedade de Erewhon para criticar as hipocrisias e instituições da Inglaterra vitoriana, invertendo valores sociais como dinheiro, aparência e educação. Na cultura de Erewhon, doenças físicas são tratadas como crimes e crimes são vistos como doenças morais. Os “endireitadores” (psicólogos) tratam criminosos, enquanto médicos tratam doentes como se fossem criminosos.
Os capítulos “O Livro das Máquinas” exploram o tema da evolução das máquinas e especulam que elas poderiam se desenvolver até o ponto de se tornarem autoconscientes e se comunicarem entre si. A proibição das máquinas é uma crítica à crença cega na tecnologia. O romance questiona se o progresso tecnológico é sempre benéfico e até onde ele pode ir.
11. Lumen (1872), de Camille Flammarion (1842 – 1925)
É uma obra pioneira na ficção científica, explorando temas como vida extraterrestre, reencarnação, viagem no tempo e percepção da luz. Escrito como um diálogo filosófico, o romance apresenta Quaerens, um jovem em busca de conhecimento, que conversa com Lumen, o espírito de um astrônomo falecido. Juntos, eles discutem a natureza do universo, a continuidade da alma e as possibilidades além da morte. A obra antecipa conceitos científicos modernos, como a relatividade e a percepção da luz, décadas antes de serem formalmente estabelecidos. Flammarion combina observações empíricas com especulações sobre ecossistemas alienígenas e a reversibilidade da história, estabelecendo Lumen como um dos primeiros romances a descrever formas de vida alienígenas.
A relevância de Lumen reside em sua fusão de ciência e filosofia, influenciando gerações subsequentes de escritores e pensadores. A obra reflete o interesse de Flammarion pela astronomia, espiritualismo e especulação científica. Sua abordagem visionária e poética do cosmos e da alma humana contribuiu para o desenvolvimento da ficção científica como gênero literário.
Na cultura pop, Lumen deixou um legado duradouro. O nome “Lumen” foi adotado para designar o asteroide 141 Lumen, reconhecendo a contribuição do romance à imaginação científica. Além disso, a famosa ilustração conhecida como “Flammarion engraving”, que retrata um viajante observando o além do firmamento, é frequentemente associada ao espírito explorador e místico presente na obra de Flammarion.
Em resumo, Lumen é uma obra fundamental que combina elementos científicos e filosóficos, antecipando conceitos modernos e deixando uma marca indelével na ficção científica e na cultura popular.
Flammarion foi um astrônomo, pesquisador psíquico e divulgador científico francês. Importante pesquisador e popularizador da astronomia, recebeu notórios prêmios científicos e foi homenageado com a nomenclatura oficial de alguns corpos celestes.
12. By and By: An Historical Romance of the Future (1873), de Edward Maitland (1824-1897).
É uma narrativa utópica que se destaca por sua abordagem filosófica e especulativa da sociedade futura. Ambientada vários séculos à frente, a história explora uma sociedade idealizada onde os indivíduos vivem em harmonia com a natureza e entre si, guiados por princípios espirituais e científicos. A trama segue a jornada de Edith Lavery, uma jovem que, após uma série de eventos transformadores, se envolve em projetos que visam a regeneração social e ambiental, como a irrigação do deserto do Saara.
Maitland, influenciado por ideias teosóficas, utiliza a narrativa para discutir a evolução moral e espiritual da humanidade. Ele imagina uma sociedade onde as instituições religiosas são reformadas para promover a verdadeira espiritualidade, livre de dogmas e práticas clericais. O autor enfatiza a importância da intuição e da razão na formação de uma moralidade universal, propondo uma visão otimista do futuro humano.
Embora By and By não tenha alcançado ampla notoriedade, sua proposta inovadora e a fusão de elementos espirituais com especulações sociais e científicas o colocam ao lado de outras obras pioneiras do gênero, como Annals of the Twenty-Ninth Century de Edward Bellamy e Across the Zodiac de Percy Greg. Essas obras compartilham o interesse por cenários futuros e ideais sociais, contribuindo para o desenvolvimento da ficção científica utópica no século XIX.
Para quem se interessa por literatura utópica e especulativa do século XIX, By and By oferece uma perspectiva única e enriquecedora sobre as possibilidades de evolução humana e social.
13. Annals of the Twenty-Ninth Century (1874)
Esta obra de ficção científica, publicada anonimamente em 1874, é apresentada como a autobiografia do décimo presidente da República Mundo-Lunar, uma união global cristã que transcende as fronteiras terrestres. A narrativa descreve uma sociedade futura altamente avançada, na qual a ciência e a religião coexistem harmoniosamente, e viagens interplanetárias são uma realidade. Através de uma série de invenções científicas e maravilhas tecnológicas, os habitantes da Terra estabeleceram contato com nativos de outros planetas do sistema solar, ampliando o horizonte humano e explorando novas formas de vida e civilizações.
O romance é notável por sua abordagem utópica, combinando elementos de positivismo, deísmo e socialismo utópico, enquanto especula sobre o futuro da humanidade em um cenário de progresso científico e espiritual. Embora algumas das ideias apresentadas possam parecer fantasiosas ou inconsistentes com o conhecimento científico atual, a obra reflete as preocupações e esperanças de sua época em relação ao avanço da ciência e à evolução da sociedade.
Annals of the Twenty-Ninth Century é uma das primeiras obras a explorar o conceito de um governo mundial unido e a interação com seres de outros planetas, influenciando o desenvolvimento da ficção científica e da literatura utópica.
14. Across the Zodiac: The Story of a Wrecked Record (1880), de Percy Greg (1836-1889).
A obra do escritor inglês é considerada uma das precursoras do subgênero Espada e Planeta da ficção científica. A narrativa detalha a construção e o uso da apergia, uma forma de energia antigravitacional, que permite ao narrador realizar uma viagem a Marte já no ano de 1830. No planeta vermelho, ele encontra seres diminutos que acreditam ser os únicos habitantes do universo, recusando-se a acreditar que o narrador seja de outro mundo, supostamente da Terra.
O livro apresenta diversas inovações notáveis para a época. O narrador chama sua espaçonave de Astronauta, possivelmente a primeira ocorrência da palavra em literatura de ficção científica. Greg também introduz uma língua alienígena, considerada a primeira construída em qualquer obra de ficção, mostrando preocupação com a comunicação interplanetária. O design da nave inclui ainda um pequeno jardim, antecipando conceitos de hidroponia e ecossistemas fechados em espaçonaves, ideias que só se tornariam relevantes muito mais tarde.
O romance influenciou autores posteriores e estabeleceu muitas convenções do subgênero Espada e Planeta, como o herói humano viajando a mundos exóticos, encontrando civilizações alienígenas, explorando culturas e enfrentando perigos desconhecidos. Uma curiosidade é que Edwin Pallander publicou um livro de título semelhante (Across the Zodiac: A Story of Adventure, 1896), no qual incorporou elementos da trama de Greg, reforçando o impacto duradouro da obra no imaginário de autores de ficção científica.
15. The Great Romance (1881), Anônimo
A história segue o protagonista, John Hope, que desperta de um sono de 193 anos. Hope havia sido um cientista proeminente de meados do século XX, responsável pelo desenvolvimento de novas fontes de energia que tornaram possíveis as viagens aéreas e a exploração espacial. Ao acordar no ano de 2143, ele é recebido por Alfred e Edith Weir, descendentes de John Malcolm Weir — o químico que preparou a substância responsável por seu longo adormecimento iniciado em 1950.
Nesse novo mundo, Hope descobre que a humanidade evoluiu significativamente, desenvolvendo poderosas habilidades mentais e uma forma avançada de espiritualidade científica. Ele se junta a Alfred Weir e a outro cientista, Charles Moxton, em um ousado plano para viajar até Vênus, o que o leva a refletir sobre o destino da humanidade e os limites da ciência.
A obra é notável por antecipar temas clássicos da ficção científica moderna, como a hibernação criogênica, a telepatia, e as viagens interplanetárias. Foi publicada anonimamente na Nova Zelândia e é considerada uma das primeiras ficções científicas escritas no hemisfério sul, o que a torna um marco histórico no gênero. The Great Romance tem uma continuação em segundo volume, descoberta apenas em 2010, que aprofunda as reflexões filosóficas e políticas do primeiro livro, embora o autor permaneça desconhecido.
Além disso, o romance dialoga com ideias que mais tarde seriam desenvolvidas por escritores como H. G. Wells e Olaf Stapledon, especialmente quanto à relação entre progresso científico e evolução mental da humanidade.
16. The Fixed Period (1882) — Anthony Trollope (1815-1882)
Publicado originalmente em Blackwood’s Magazine (1881–1882) e em livro no mesmo ano, The Fixed Period é uma distopia satírica e filosófica escrita por Anthony Trollope, um autor mais conhecido por seus romances realistas sobre a sociedade vitoriana. Trata-se de sua única incursão na ficção científica, e uma das primeiras narrativas literárias a tratar do tema da eutanásia institucionalizada dentro de um contexto político e social.
A história se passa em 1980, na República da Britannula, uma ilha fictícia próxima à Nova Zelândia que conquistou independência do Império Britânico e vive sob um governo republicano. A sociedade, de inspiração britânica, é próspera, ordeira e rigidamente moralista — e, em nome da racionalidade e da eficiência, institui uma lei segundo a qual todo cidadão deve ser “deposto” aos 67 anos e cremado aos 68, num processo chamado “Período Fixo”. A ideia é eliminar o sofrimento da velhice e reduzir gastos públicos com os “improdutivos”, em nome do progresso coletivo.
O romance é narrado pelo Presidente John Neverbend, idealizador da lei, que vê na medida um avanço civilizatório. Quando chega o momento de aplicar o “Período Fixo” pela primeira vez — sobre seu melhor amigo, Gabriel Crasweller, um homem saudável e lúcido — Neverbend se depara com um dilema moral devastador. Crasweller tenta escapar da execução da lei, mentindo sobre a idade, enquanto o presidente tenta conciliar sua fé no progresso racional com os laços de amizade e a resistência popular.
A situação culmina com a chegada de um navio de guerra britânico, armado com poderosas “armas giratórias de 250 libras”, que impõe a rendição de Britannula e a reintegração ao Império Britânico, encerrando de forma irônica o experimento utópico. Derrotado e deposto, Neverbend retorna à Inglaterra, escrevendo seu relato como uma espécie de defesa e confissão — convencido, ainda assim, de que sua ideia representava o futuro da humanidade.
The Fixed Period é uma sátira moral e política que critica o utilitarismo extremo e o culto ao progresso racional que dominavam o pensamento vitoriano. Publicado quando Trollope tinha 67 anos — exatamente a idade limite da “deposição” — o livro também reflete suas próprias ansiedades sobre a velhice e o valor social do idoso. Inspirado em The Old Law (tragicomédia de Middleton, Rowley e Massinger), o romance combina humor sombrio, filosofia social e ficção especulativa.
Embora não seja uma obra de “máquinas futuristas” no estilo de H. G. Wells, The Fixed Period inclui várias antecipações tecnológicas e sociais, como os “Triciclos a vapor”, “lançadores mecânicos de críquete” e “telefones de cabelo” usados por oficiais — dispositivos equivalentes a telefones móveis; “Telegramas aquáticos” e um “aparelho telefônico de reportagem” que permite transmissão imediata de notícias, uma clara previsão dos meios de comunicação instantâneos; Discussão sobre ética médica, biopolítica e controle estatal da vida e da morte, temas que influenciariam mais tarde distopias como Admirável Mundo Novo e 1984.
The Fixed Period dialoga com outras duas obras clássicas da ficção científica. A temática de controle do Estado faz do romance de Trollope uma espécie de antepassado moral de Admirável Mundo Novo. Também se observa em um dos romances de Isaac Asimov. Em Pedra no Céu, os terráqueos vivem em isolamento, numa Terra envelhecida e decadente, onde os anciãos são eliminados quando atingem uma idade considerada “inútil”. É um retrato sombrio de uma civilização que perdeu o sentido de humanidade em nome da ordem e da funcionalidade.
Ambos os autores — ainda que separados por mais de meio século — tocam em uma mesma ferida da modernidade: a tendência de transformar o ser humano em variável de cálculo social.
Enquanto Jane aborda isso de forma quase satírica e alegórica, Asimov o faz com tom trágico e filosófico, já dentro de uma estrutura madura de ficção científica, mais próxima da especulação científica e moral.
17. Diothas, ou Um Olhar Distante (1883), de John Macnie (1844 – 1909)
É um romance utópico narrado em primeira pessoa e considerado uma das obras precursoras das narrativas sobre o futuro e da ficção científica de transição do século XIX. O narrador é submetido a uma sessão de hipnotismo e desperta em um futuro longínquo — ele afirma ter sido transportado “do século XIX para o século nonagésimo sexto”.
Guiado por um homem chamado Utis Estai, ele começa a explorar a estrutura e os valores dessa sociedade futura. A gigantesca metrópole de “Nuiorc”, uma versão altamente desenvolvida da Nova York moderna, é descrita como um centro urbano de arquitetura avançada, tecnologias automatizadas e uma organização social regida pela razão, igualdade e bem-estar coletivo. A viagem até a residência de Utis, nos subúrbios, serve como pretexto para o autor apresentar as instituições, costumes e inovações científicas do período.
A obra do escocês Macnie descreve uma civilização altamente racional, com avanços científicos notáveis, onde a educação e a moralidade ocupam papel central. Essa sociedade futura aboliu as guerras e as desigualdades econômicas, e o progresso técnico é guiado por princípios éticos.
Diothas antecipa temas que se tornariam comuns nas utopias literárias e na ficção científica posterior — como a projeção de futuros idealizados, o contraste entre presente e futuro, e a confiança no potencial transformador da ciência e da educação. Alguns estudiosos consideram a obra uma precursora direta de A Look Backward (Olhando para Trás, 1888), de Edward Bellamy, com a qual compartilha várias ideias sobre a reorganização social e econômica da humanidade.
18. After London (1885), Richard Jefferies (1848-1887)
É o primeiro romance pós-apocalíptico moderno — uma mistura de nostalgia rural e melancolia ecológica. Um precursor direto de obras como A Estrada e Mad Max, só que em versão vitoriana.
After London (1885), de Richard Jefferies, é um romance pós-apocalíptico inicial em que uma catástrofe misteriosa destrói Londres e a civilização moderna, fazendo com que a Inglaterra retorne a um estado selvagem e primitivo. O livro é dividido em duas partes: “A Recaída na Barbárie”, um relato histórico da queda da civilização, e “Inglaterra Selvagem”, uma história de aventura que acompanha a jornada do protagonista Félix Áquila pela paisagem transformada. É considerada uma obra pioneira de ficção científica que explora temas como colapso ambiental, regressão social e o retorno da natureza.
Cenário: Inglaterra um século após uma grande “mudança” que causou a queda da civilização moderna. Londres se tornou um pântano venenoso, e o interior está coberto de florestas e pântanos.
A Queda da Civilização: Um historiador relata como a tecnologia falhou e a sociedade se degenerou em um estado tribal, semelhante ao medieval. O livro retrata a natureza recuperando a terra, com animais domesticados à solta e estradas e cidades desaparecendo sob o mato.
“Inglaterra Selvagem”: A segunda parte do romance acompanha o protagonista, Félix Áquila, enquanto ele constrói uma canoa e explora este novo mundo, navegando pela paisagem selvagem e pela nova sociedade.
Temas: O romance aborda temas como desastres ecológicos, a relação entre humanidade e natureza, a sobrevivência do mais apto e um comentário sobre o desenvolvimento industrial e a urbanização.
Impacto: After London é reconhecido como um dos primeiros exemplos dos gêneros pós-apocalíptico e ficção científica, influenciando obras posteriores na área.
19. Looking Backward: 2000–1887 (Olhando para Trás: 2000–1887, 1888), de Edward Bellamy (1850-1898)
Uma das obras mais influentes e debatidas do século XIX, tanto na literatura utópica quanto na ficção especulativa. O romance de viagem no tempo apresenta a história de Julian West, um jovem da Boston de 1887 que, após ser hipnotizado, cai em um sono profundo e desperta 113 anos depois, no ano 2000.
Ao acordar, West descobre um mundo radicalmente transformado: a antiga sociedade capitalista foi substituída por uma utopia socialista, baseada na igualdade econômica, no trabalho coletivo e na eliminação da competição. A nova sociedade é organizada como um vasto “exército industrial”, no qual todos os cidadãos contribuem para o bem comum e recebem de acordo com suas necessidades.
Embora a narrativa não se concentre em avanços tecnológicos — o foco é essencialmente social e político —, Bellamy introduz algumas ideias notavelmente visionárias. Entre elas, o conceito de um cartão de crédito universal, que antecipa de forma impressionante a noção moderna de dinheiro eletrônico e consumo automatizado.
O impacto de Looking Backward foi extraordinário: o livro vendeu centenas de milhares de cópias e inspirou a criação de clubes “bellamistas” nos Estados Unidos e na Europa, dedicados à discussão de reformas sociais e à propagação das ideias socialistas utópicas de Bellamy. Sua influência pode ser percebida em obras posteriores de autores como William Morris (News from Nowhere, 1890) e H. G. Wells (A Modern Utopia, 1905), além de ter sido um marco na consolidação da ficção utópica moderna.
Combinando crítica social, filosofia e imaginação futurista, Olhando para Trás permanece um dos textos fundadores da tradição literária que busca projetar um futuro idealizado a partir das contradições do presente.
20. A Plunge into Space (1890), de Robert Comie (1855-1907).
Nessa obra, o jornalista e escritor irlandês antecipa elementos que seriam amplamente explorados nas décadas seguintes. A história acompanha um grupo de aventureiros científicos que constrói uma nave espacial com o objetivo de explorar Marte. O veículo é movido por um dispositivo antigravitacional — um escudo que neutraliza a atração da Terra e, simultaneamente, é atraído pelo planeta vermelho.
Durante a jornada, Cromie combina especulação científica e drama humano. Na viagem de volta, os tripulantes descobrem a presença inesperada de uma clandestina: uma jovem marciana que se infiltrou na nave. Os sistemas de suporte de vida não foram projetados para um passageiro extra, e cada membro da tripulação possui uma função vital para garantir o retorno seguro à Terra. O destino da garota torna-se, então, o ponto de tensão moral e emocional da narrativa — ela é, paradoxalmente, tanto o perigo quanto a salvação dos viajantes espaciais.
O romance se destaca por antecipar várias ideias que mais tarde se tornariam centrais na ficção científica: viagens interplanetárias realizadas por propulsão antigravitacional, o encontro com civilizações extraterrestres e a reflexão ética sobre o contato entre espécies. É possível identificar ecos de A Plunge into Space em obras de H. G. Wells, especialmente em The First Men in the Moon (1901), e até mesmo em The War of the Worlds (1898), ambas publicadas anos depois.
A obra teve boa recepção à época de seu lançamento, embora tenha caído no esquecimento com o tempo. Hoje, é reconhecida como uma contribuição importante para o desenvolvimento do imaginário científico do final do século XIX e para a consolidação da viagem espacial como tema literário.
21. On The Moon (1893), de Konstantin Eduardovich Tsiolkovski (1857-1935)
É um pequeno conto científico que foi originalmente publicado na revista de Moscou Vokrug Sveta, um ano antes. O autor mais tarde seria reconhecido como o pai da cosmonáutica moderna. Embora Tsiolkovski fosse um cientista e engenheiro, esse texto tem caráter claramente ficcional e especulativo, o que o coloca entre os primeiros exemplos de ficção científica russa com base científica realista.
A história descreve uma viagem imaginária à Lua de um jovem entusiasta de astronomia e seu amigo. Eles exploram a paisagem lunar, e percebem suas condições físicas — gravidade, ausência de atmosfera, iluminação e temperatura extrema — com notável precisão para a época. O autor utiliza uma estrutura narrativa leve, quase pedagógica, para explicar fenômenos físicos a partir da experiência do narrador no ambiente lunar.
O autor imagina como seria mover-se com gravidade reduzida, como variariam o peso e o salto humano, e até descreve as sombras nítidas e o céu negro permanente, antecipando muitos detalhes que os astronautas efetivamente confirmariam décadas depois.
Apesar de ser um texto curto, On the Moon é extraordinariamente visionário. Ele antecipa não só os conceitos de viagem espacial, mas também a forma como a ficção científica poderia servir como ponte entre a ciência e a imaginação — um traço que mais tarde marcaria autores como Jules Verne, H. G. Wells e, especialmente, os escritores soviéticos do início do século XX, como Alexander Bogdanov e Yakov Perelman.
Tsiolkovski também publicou ensaios técnicos fundamentais, como “Exploration of Outer Space by Means of Rocket Devices” (1903), que inspiraram diretamente o desenvolvimento da astronáutica soviética.
22. The Angel of the Revolution: A Tale of the Coming Terror (O Anjo da Revolução: Um Conto do Terror Vindouro, 1893), de George Griffith (1857 – 1906)
A obra do britânico Grifftih é uma das mais notáveis do final do século XIX a unir ficção científica, aventura e crítica social. A história acompanha um grupo de autodenominados terroristas que planejam e executam a conquista do mundo por meio de uma frota de aeronaves revolucionárias. Liderados por um misterioso homem e sua filha, a carismática Natasha, conhecida como “o anjo da revolução”, os membros da organização secreta chamada Irmandade da Liberdade utilizam o poder aéreo para impor uma “paz aeronáutica” sobre a Terra, após uma série de conflitos que abalam as grandes potências mundiais.
O enredo tem início quando Richard Arnold, um jovem inventor, descobre os segredos do voo mecânico — um feito que, dentro da cronologia da história, ocorre em 1903 (coincidentemente, o mesmo ano em que os irmãos Wright realizariam seu primeiro voo real). Ao conhecer Natasha, Arnold é seduzido tanto por sua beleza quanto por seu idealismo, juntando-se à Irmandade e à sua luta contra as injustiças sociais e, em especial, contra o império czarista russo.
Apesar de ser impregnado por um tom romântico e político — refletindo as tensões anarquistas e socialistas da época —, o romance traz elementos visionários da ficção científica, como o uso de aeronaves motorizadas, armadas e autônomas, antecipando o conceito dos modernos aviões de guerra e drones. Griffith combina aventura aérea, utopia social e especulação tecnológica em uma narrativa que mistura o espírito revolucionário do século XIX com as ansiedades do futuro.
Publicado originalmente como folhetim, The Angel of the Revolution foi um enorme sucesso comercial na Inglaterra e consolidou George Griffith como um dos autores mais populares da chamada “era do romance científico”, ao lado de H. G. Wells. O livro gerou uma sequência direta intitulada Olga Romanoff; or, The Syren of the Skies (1894), na qual o autor amplia o universo e as consequências da revolução aérea.
23. Journey to Mars (The Wonderful World: Its Beauty and Splendor; Its Mighty Races and Kingdoms; Its Final Doom, 1894), de Gustavus W. Pope (1828–1902).
A história segue o tenente Frederick Hamilton em uma viagem à Antártida. Ele resgata um homem de aparência estranha, mas de repente ele mesmo perde a consciência. Hamilton acorda três semanas depois, a bordo de uma nave espacial viajando para Marte.
No Planeta Vermelho, Hamilton conhece três raças humanas: marcianos vermelhos, amarelos e azuis, que alcançaram uma tecnologia sofisticada enquanto preservavam uma sociedade feudal. Hamilton envolve-se em diversas situações, inclusive em um caso amoroso com a princesa Suhlamia, de pele amarelada. Depois de enfrentar uma tempestade de meteoros, Hamilton retorna para a Terra.
A narrativa mistura exploração científica com elementos de romance e aventura, incluindo confrontos com habitantes locais, descobertas de culturas exóticas e encontros com formas de vida inteligentes que desafiam a compreensão terrestre.
O livro antecipa conceitos importantes da ficção científica espacial, como a viagem interplanetária, tecnologias de propulsão imaginárias e a interação com civilizações alienígenas. Além disso, Pope introduz ideias sobre a geografia e ecologia de Marte que, embora não cientificamente precisas, mostram uma tentativa de criar um mundo coerente e detalhado.
Journey to Mars também se destaca por seu caráter de romance de imaginação científica, típico da era vitoriana tardia, em que aventuras espaciais eram usadas como veículo para discutir temas sociais e culturais da Terra, incluindo heroísmo, moralidade e o papel da ciência no progresso humano. A obra influenciou posteriormente autores do subgênero “Espada e Planeta” e contribuiu para a popularização de narrativas ambientadas em Marte na literatura anglófona.
Embora não tenha tradução conhecida para o português, o livro está em domínio público e pode ser encontrado em arquivos digitalizados de literatura de ficção científica do século XIX.
24. A Journey in Other Worlds: A Romance of the Future (1894, Uma Jornada por Outros Mundos: Um Romance do Futuro), de John Jacob Astor IV (1864–1912).
O livro descreve uma sociedade futurista avançada, incluindo uma rede telefônica mundial, fontes de energia solar, viagens aéreas comerciais e viagens espaciais para os planetas Saturno e Júpiter. Astor também antecipa conceitos de terraformação e engenharia planetária, detalhando tentativas de modificar ambientes extraterrestres para torná-los habitáveis.
A narrativa reflete a fascinação da época pelo progresso científico e pela capacidade humana de transformar o mundo, misturando aventura, exploração espacial e especulação social. Embora seja menos conhecido que outros romances utópicos da mesma era, a obra de Astor antecipa muitas ideias que seriam retomadas por autores de ficção científica do século XX, especialmente no subgênero de exploração interplanetária e romances de “Espada e Planeta”.
25. The Conquest Of The Moon: A Story Of The Bayouda, (1894), André Laurie (pseudônimo de Jean-François Paschal Grousset) e Jules Verne.
Na história, um grupo de financistas tenta explorar os recursos da Lua, puxando-a para a órbita da Terra usando eletroímãs gigantes instalados no deserto do Saara. Um erro de cálculo, no entanto, acaba lançando a tripulação ao satélite, onde eles precisam encontrar uma maneira de voltar.
26. Journey to Venus (1895, Jornada a Vênus), de Gustavus W. Pope (1828–1909)
É a sequência direta de Journey to Mars e continua explorando a ficção científica planetária e as aventuras interplanetárias típicas do final do século XIX. O romance narra a viagem de cientistas e exploradores ao planeta Vênus, detalhando não apenas a viagem em si, mas também as civilizações imaginárias e as paisagens do planeta.
A obra mistura aventura científica, especulação tecnológica e exploração de sociedades extraterrestres, descrevendo estruturas sociais, políticas e culturais de maneira semelhante ao que Pope fez em Journey to Mars. Elementos como máquinas voadoras, armas futuristas e interações com seres venusianos inteligentes são centrais para a trama.
O romance reflete o interesse da época pelo espaço e pelo progresso científico, antecipando conceitos que seriam retomados em histórias de ficção científica mais modernas sobre exploração de planetas e civilizações alienígenas. Tal como Journey to Mars, Journey to Venus não possui tradução conhecida para o português, mas está em domínio público.
27. A Prophetic Romance: Mars to Earth (1896, Um Romance Profético: Marte para a Terra), de John McCoy (1857-1924).
É um romance utópico e parte da grande onda de literatura utópica e distópica que caracterizou as últimas décadas do século XIX. A narrativa é apresentada como uma série de relatórios de um funcionário do governo marciano, o Lorde Comissário, enviado à Terra pelo “Chanceler Comandante” de Marte, líder de um governo unificado do planeta.
O romance descreve os marcianos como seres tecnologicamente e socialmente superiores aos humanos, tendo explorado e dominado todo o sistema solar. Através dos relatórios do Comissário, o leitor conhece as condições da Terra e a comparação com a sociedade marciana, oferecendo uma crítica implícita aos problemas humanos e às falhas sociais da época. Embora o período em que a história se passa não seja explicitamente indicado, o texto sugere que seria o final do século XX, projetando a visão do autor de como a humanidade poderia evoluir.
A obra do escritor norte-americano é relevante dentro da literatura científica e utópica do século XIX, mostrando o interesse do período por civilizações avançadas e relatos de exploração planetária, algo que influenciaria posteriormente a ficção científica clássica sobre Marte e outros planetas.
28. Através do Zodíaco: Uma História de Aventura (Across the Zodiac: A Story of Adventure, 1896), de Edwin Pallander (1869-1952)
É um romance de aventura científica fortemente influenciado pelas obras de Júlio Verne e pelo espírito exploratório característico da ficção científica do final do século XIX. A narrativa acompanha uma expedição espacial a bordo da nave The Astrolabe, construída e pilotada por um excêntrico cientista britânico com uma curiosa aversão por tudo o que é russo. A viagem, que parte da Terra e passa pela Lua, culmina na chegada a Vênus, onde os exploradores descobrem uma antiga civilização alienígena.
A obra mistura elementos de aventura e sátira, com um estilo que ecoa a tradição verneana de detalhar invenções e explorações científicas de modo verossímil, ainda que imaginativo. O título e parte da estrutura narrativa remetem diretamente ao romance Across the Zodiac: The Story of a Wrecked Record (1880), de Percy Greg, que muitos estudiosos acreditam ter servido de inspiração para Pallander. As semelhanças não se limitam ao nome: há paralelos nas descrições de viagem interplanetária, na criação de sociedades extraterrestres e na crítica sutil à civilização humana.
Embora menos conhecido, o livro de Pallander é um exemplo importante do período de transição entre a ficção científica especulativa e a ficção científica científica, marcada pelo interesse em viagens espaciais e pela tentativa de conciliar ciência, moralidade e aventura. O autor britânico foi também biólogo e botânico.
29. Dois Planetas (Zwei Planeten, 1897), de Kurd Lasswitz (1848-1910)
É considerado um marco da ficção científica alemã e uma das primeiras obras a tratar de contato com civilizações extraterrestres de forma detalhada e plausível. A história começa com um grupo de exploradores do Ártico que encontra uma base marciana escondida na região. Os marcianos se assemelham aos humanos em quase todos os aspectos, exceto por olhos desproporcionalmente grandes, que lhes permitem expressar emoções de maneira intensa. Eles chamam os habitantes da Terra de “os de olhos pequenos”.
Os visitantes são inicialmente altamente avançados e pacíficos, e levam alguns dos exploradores de volta a Marte para conhecer sua sociedade. O planeta vermelho é descrito como um mundo esclarecido, tecnológico e ordenado, com uma civilização que valorizava ciência, educação e harmonia social. Entretanto, os exploradores descobrem que os marcianos planejam eventualmente colonizar a Terra, mostrando que a utopia marciana também esconde intenções expansionistas, o que adiciona tensão à narrativa.
A obra é notável por sua atenção à plausibilidade científica, incluindo descrições de engenharia, física e astronomia, e teve grande influência sobre escritores posteriores de ficção científica, incluindo H. G. Wells e Stanislaw Lem. Além disso, “Dois Planetas” antecipou muitos temas clássicos do gênero, como o choque cultural interplanetário e a ética do contato com outras civilizações inteligentes.
30. To Venus in Five Seconds: An Account of the Strange Disappearance of Thomas Plummer, Pillmaker (Para Vênus em Cinco Segundos: Um Relato do Estranho Desaparecimento de Thomas Plummer, Pillmaker, 1897), Fred T. Jane (1865-1916).
A obra é uma sátira de ficção científica escrita por Fred T. Jane, publicada em 1897. Jane, conhecido por criar o Jane’s Fighting Ships, aqui parodia os subgêneros populares do final do século XIX, como os scientific romances e os romances de guerra futura. O título faz referência, de forma humorística, a obras de viagens como as de Jules Verne.
A história acompanha Thomas Plummer, um jovem inglês de ótimo físico, mas pouco brilhante, enviado pelo pai — fabricante de pílulas — para estudar medicina. Na escola, ele conhece Miss Zumeena, uma jovem de pele escura, que o convida para um chá em sua casa de verão, cheia de máquinas. Poucos segundos depois, Plummer descobre que foi transportado para Vênus por um transmissor de matéria, antecipando um dos primeiros usos desse conceito para viagens interplanetárias na ficção científica.
Vênus, mais próximo do Sol que a Terra, é quente e coberto por selvas, habitado por duas espécies: os humanos Sutenraa, descendentes de antigos egípcios e centro-americanos, e os não-humanos Thotheen, criaturas bizarras descritas como uma mistura de elefante pequeno com mosca gigante. Zumeena pertence aos Sutenraa e revela que Plummer foi trazido para servir de cobaia em experiências de vivissecção devido ao seu físico impecável.
No planeta, Plummer encontra outros dois ingleses, incluindo Phyllis Alson, com quem se apaixona e se casa com a ajuda de um clérigo. Conflitos entre Thotheen e Sutenraa e guerras civis e interespécies surgem, mas Plummer e Phyllis conseguem escapar para a Terra com Zumeena através do transmissor de matéria, pousando no topo da Grande Pirâmide de Gizé. Lá, Plummer vê um agente de seu pai pintando um anúncio, enquanto Zumeena segue para o sul para se tornar uma “deusa” de uma população primitiva, evocando o subgênero de mundos ou raças perdidas típico da ficção vitoriana.
A obra é considerada uma das mais legíveis e divertidas de Jane, que também escreveu outras histórias de ficção especulativa, como The Incubated Girl (1896) e The Violet Flame (1899).
31. A Quem Isso Pode Chegar (To Whom This May Come, 1898), de Edward Bellamy (1850-1898)
O conto é narrado em primeira pessoa por um homem que sobrevive a um naufrágio e acaba em uma ilha isolada, onde descobre uma civilização composta por seres humanos telepatas. Esses habitantes desenvolveram a capacidade de ler mentes e compartilhar pensamentos, o que transformou completamente sua sociedade.
Sem a possibilidade de mentir ou ocultar sentimentos, as pessoas dessa ilha vivem em perfeita harmonia e honestidade. A telepatia eliminou crimes, desconfianças, desigualdades e conflitos pessoais, pois todos compreendem profundamente uns aos outros. Essa transparência total levou a um tipo de sociedade utópica, baseada na empatia, na verdade e na paz interior.
O narrador, inicialmente espantado, acaba fascinado pela forma como esses indivíduos alcançaram um nível de civilização superior sem o uso de tecnologia — apenas através da evolução moral e mental. No entanto, quando ele é resgatado e retorna à civilização, percebe o abismo entre o mundo telepático e o seu próprio, dominado pela falsidade, pelo egoísmo e pelo isolamento emocional.
A história foi publicada em 1898, um ano antes da morte de Bellamy, sendo um de seus últimos trabalhos. O conto reflete a visão utópica e espiritual do autor, mais voltada à transformação moral do ser humano do que ao avanço tecnológico — o que o diferencia da maioria dos textos científicos da época. O uso da telepatia como símbolo de evolução ética e empática é notável e pioneiro, antecipando debates sobre comunicação universal e consciência coletiva que apareceriam em autores posteriores como Olaf Stapledon, Clarke e Le Guin. A narrativa tem um tom melancólico e reflexivo, especialmente no retorno do protagonista ao mundo “real”, onde percebe que a humanidade ainda está distante dessa elevação mental e moral.
32. A Conquista de Marte por Edison (The Conquest of Mars, 1899), de Garret Serviss (1851-1929)
É uma continuação de Fighters from Mars, uma versão não autorizada e adaptada da obra de H. G. Wells, A Guerra dos Mundos, publicada originalmente na Persons’ Magazine em 1897. A narrativa se passa após o devastador ataque marciano da obra anterior.
Nesta sequência, Thomas Edison lidera um grupo de cientistas que desenvolvem naves espaciais e armas inovadoras, incluindo um raio de desintegração, com o objetivo de proteger a Terra e contra-atacar os invasores marcianos. A história descreve detalhadamente batalhas espaciais, podendo ser enquadrada no subgênero de ópera espacial da ficção científica.
O astrônomo e escritor norte-americano Serviss combina tecnologia especulativa e ação heroica, criando uma narrativa que reflete o entusiasmo da época por invenções futuristas e pela exploração espacial, além de consolidar Edison como um arquétipo de cientista-inventor heroico na literatura popular de fim de século XIX.
CONCLUSÃO
O século XIX consolidou-se como o grande ponto de partida da ficção científica. Nesse período, o avanço da ciência e da tecnologia transformou não apenas a sociedade, mas também a literatura, que passou a refletir o entusiasmo e o temor diante do progresso. Escritores visionários — de Mary Shelley a H. G. Wells, de Verne a Bellamy — criaram narrativas que combinaram o rigor científico emergente com a especulação filosófica e social, imaginando futuros possíveis e questionando o papel da humanidade diante das descobertas que moldariam o mundo moderno.
As obras desse século não apenas anteciparam invenções e ideias que se tornariam realidade, mas também deram forma à imaginação científica e ao debate ético sobre o uso do conhecimento. Nelas estão as sementes dos subgêneros que floresceriam no século XX — da distopia ao cyberpunk, da exploração espacial à inteligência artificial —, revelando que a ficção científica, antes de ser uma literatura sobre o futuro, é uma reflexão profunda sobre o presente e seus limites.
O século XIX, portanto, não foi apenas o início de uma nova forma de contar histórias: foi o nascimento de uma nova maneira de pensar o mundo — uma literatura que uniu ciência, arte e filosofia em um mesmo impulso criador, projetando o ser humano para o infinito.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
