Valíria: A Civilização Perdida dos Dragões
O universo criado por George Martin é rico em detalhes históricos e míticos. Um dos mais impressionantes é Valiria, o mundo originário da família Tragaryen e de seus dragões.
Paulo Bocca Nunes
O universo criado por George R. R. Martin é vasto, detalhado e repleto de civilizações cuja história se torna tão envolvente quanto os personagens que habitam suas narrativas. Entre todas as culturas que moldaram o mundo de As Crônicas de Gelo e Fogo e Fogo & Sangue, nenhuma é tão enigmática e fascinante quanto a antiga Valíria — a lendária civilização dos dragões que permanece na lembrança mesmo em ruínas fumegantes. Lar ancestral da Casa Targaryen, Valíria ergueu-se como o maior império de Essos para, repentinamente, desaparecer em um cataclismo que ecoa até os dias de hoje. Vamos descobrir tudo sobre sua origem, ascensão, cultura, domínio dos dragões, duração do império e a catástrofe que o encerrou: a Perdição. — História, Glória, Dragões e a Perdição
Valíria, frequentemente chamada de Velha Valíria, permanece — mesmo em ruínas fumegantes — como a lembrança mais poderosa de uma era em que dragões governavam céus e homens. Este texto reúne o que se sabe (e o que se conjectura) sobre sua origem, ascensão, cultura, domínio dos dragões, duração do império e a catástrofe que o encerrou: a Perdição. O objetivo é oferecer uma narrativa contínua, informativa e com leve tom analítico, sem a rigidez acadêmica.
INFLUÊNCIAS E PARALELOS NA FANTASIA E NA MITOLOGIA
A concepção de Valíria dialoga com mitos antigos e referências presentes em diversas tradições culturais. A associação mais direta é com Atlântida, a ilha poderosa e avançada descrita por Platão, cuja queda repentina teria sido provocada pela própria arrogância de seu povo. A ideia de uma civilização extremamente desenvolvida, destruída quase da noite para o dia, encontra reflexo claro no destino dos valirianos.
Outra possível inspiração é Lemúria, um continente hipotético surgido em teorias científicas do século XIX e posteriormente absorvido pela literatura esotérica. Lemúria teria abrigado povos antigos dotados de saberes perdidos, um paralelo plausível com o domínio mágico e tecnológico de Valíria.
Na ficção moderna, vale lembrar civilizações poderosas que também desapareceram, deixando apenas ruínas e lendas. Exemplos incluem Numenor, de J.R.R. Tolkien, cuja destruição também ecoa temas de arrogância, magia e castigo divino; e a Era Hiboriana de Robert E. Howard, onde antigas culturas ruíram antes do surgimento de outras. Essas referências ajudam a situar Valíria dentro de uma longa tradição literária que explora continentes perdidos, impérios arrasados por sua própria hybris e memórias que sobrevivem em fragmentos.
UMA CIDADE-IMPÉRIO: ONDE E QUANDO
Valíria se erguia no coração da Península Valiriana, estendendo-se por uma formação de terras que apontava para o Mar de Verão. No auge do seu poder, a Cidade Franca de Valíria foi o centro de um Império que controlava grande parte de Essos — de Pentos a Meereen — e exercia influência cultural, militar e mágica sobre vastas regiões.
A cronologia interna das obras contém algumas variações nos números exatos; ainda assim, o consenso narrativo é claro: a Perdição aconteceu séculos antes dos acontecimentos centrais de As Crônicas de Gelo e Fogo e provocou o colapso imediato do poder valiriano. Em termos relativamente consolidados dentro das fontes canônicas, a Perdição ocorre aproximadamente quatrocentos anos antes dos eventos da série — datas citadas das fontes literárias oscilam entre meados do século II a.C. e outras versões, mas a linha temporal que importa para a história é esta: os Targaryen já haviam partido para Pedra do Dragão uma dúzia de anos antes do cataclismo, levando consigo alguns dragões, e assim sobreviveram como a única casa valiriana conhecida a escapar da aniquilação.

AS RAÍZES DO DOMÍNIO: ORGANIZAÇÃO POLÍTICA E EXPANSÃO
Ao contrário de um império centralizado como a antiga Roma, o Domínio Valiriano era composto por uma rede de famílias nobres — os chamados senhores de dragões — que compartilhavam o poder. Entre essas quarenta famílias havia rivalidades, alianças e uma cultura política que elegia arcontes dentre a nobreza para cargos executivos. Essa estrutura permitia flexibilidade e também fomentava ambição: muitas casas buscavam ampliar sua riqueza por meio de conquistas, colônias e comércio.
A expansão valiriana foi tanto militar quanto colonizadora. Os valirianos conquistaram o antigo Império Ghiscari a oeste da Baía dos Escravos e estabeleceram colônias em ilhas e costas, como as Ilhas Basilisco, e estenderam sua influência para oeste e norte. Com o tempo, a Cidade Franca transformou-se em um império que dominou vastas regiões. Suas fronteiras incluíam também as Terras do Longo Verão, o território roinar, as futuras Cidades Livres e a ilha-fortaleza de Pedra do Dragão, seu posto mais ocidental. A busca por escravos para as minas — que alimentavam o aparato produtivo e mágico do império — é uma constante nas narrativas sobre a manutenção do poder valiriano.
A SOCIEDADE VALIRIANA: APARÊNCIA, COSTUMES E MAGIA
Culturalmente, os valirianos eram marcantes: descendentes geralmente exibiam olhos violeta e cabelos prateados, dourados-claros ou platinados — traços que mais tarde seriam reconhecidos nas casas Targaryen, Velaryon e Celtigar. A endogamia e casamentos entre parentes próximos eram prática comum entre a nobreza, tanto por tradição quanto por desejo de preservar sangue e, segundo rumores da época, laços com a magia dos dragões.
A magia não era uma curiosidade marginal: era um pilar da sociedade valiriana. Seus magos exploravam conhecimentos ocultos, artes de sangue e técnicas que hoje as fontes descrevem com misto de admiração e horror. Experimentações que ‘torciam’ carne e criatura, criação de quimeras e extração de segredos das profundezas vulcânicas fazem parte do imaginário—e são citadas pelos cronistas como um possível peso sobre o destino valiriano.
Entre os bens materiais lendários que se associam a Valíria estão o aço valiriano (arma forjada com métodos mágicos perdidos), balas — objetos cerimoniais e artefatos mágicos — e as chamadas velas de vidro de Vilavelha, itens que o folclore atribui à antiga tecnologia valiriana.
OS SENHORES DE DRAGÕES: O FUNDAMENTO DO PODER
O que verdadeiramente colocou Valíria acima das demais civilizações conhecidas foram os dragões. Cerca de quarenta famílias detinham dragões: montá-los, criá-los e guerreá-los. Esses monstros alados não eram apenas armas; eram símbolos vivos de soberania, ferramentas de conquista e reporte social.
A dominação dos dragões envolvia conhecimento prático e místico: ovos eram chocados, filhotes treinados, vínculos forjados entre dracares e dragões — uma relação que combinava manejo, tradição e ritos obscuros. A posse de dragões permitia subjugar cidades, extinguir revoltas, mover exércitos e intimidar potências inteiras. Assim, a suprema vantagem valiriana era tanto tecnológica (no sentido fantástico) quanto psicológica.
A Casa Targaryen, embora entre as quarenta famílias de senhores de dragões, não figurava no topo do poder durante a maior parte do Domínio. Foi, porém, uma das casas que levou dragões consigo quando partiram para Pedra do Dragão — um gesto providencial que permitiria, depois, a conquista de Westeros.
A EXTENSÃO E A DURAÇÃO DO DOMÍNIO VALIRIANO
As fontes internas falam de um império que durou por milênios em alguma forma; há referências que posicionam a supremacia valiriana em quase cinco mil anos de influência cultural e política (considerando o florescer e declínios parciais ao longo de eras). Mais importantemente para o que nos interessa: durante séculos o Domínio Valiriano foi a potência dominante em Essos, controlando colônias, rotas de comércio e a hegemonia militar sustentada pelos dragões.
A queda, quando veio, não foi o término gradual de um período curto: foi um colapso imediato que desfez o eixo de poder e lançou Essos num período prolongado de fragmentação, guerras e rearranjos geopolíticos — o chamado Século de Sangue.
A PERDIÇÃO: DESCRIÇÃO DO CATACLISMO
O evento que encerrou tudo é conhecido simplesmente como a Perdição de Valíria. Narrativas repetem a imagem apocalíptica: em um único dia, a rede de vulcões conhecida como as Quatorze Chamas entrou em erupção simultânea e massiva. A terra se abriu em fendas, lagos ferveram, plumas de cinzas cobriram o céu, colossais rajadas de fogo arrasaram cidades e, segundo relatos, até mesmo dragões foram consumidos pelas chamas e pelo vidro de dragão que chovia das nuvens.
As consequências geográficas foram drásticas: a península valiriana se partiu, transformando-se num arquipélago de ilhas fumegantes e criando o que viria a ser chamado de Mar Fumegante. Lagos e planícies tornaram-se tóxicos; rasgos abriram-se na terra engolindo palácios, templos e milhões de vidas.
O que se descreve nas crônicas é uma cena tão violenta que as imagens fixaram-se na memória coletiva: muralhas de água, ondas gigantescas, chuva de vidro e ar incendiaram o mundo próximo. A devastação foi tão completa que o próprio tecido cultural e científico — bibliotecas, ritos, técnicas — foi perdido em grande parte.
Valíria caiu aproximadamente 114 anos antes da Conquista de Aegon, e 400 anos da Guerra dos Cinco Reis.
CAUSAS: NATUREZA, MAGIA OU ARROGÂNCIA?
A natureza exata da Perdição permanece envolta em mistério e interpretações. Três linhas de explicação se destacam:
- Cataclismo natural: a hipótese mais direta aponta para uma erupção vulcânica em escala extraordinária nas Quatorze Chamas, acompanhada de terremotos e tsunamis — um desastre geofísico capaz de produzir exatamente os efeitos descritos.
- Magia instável e experimentação: muitos cronistas e personagens sugerem que os próprios valirianos, por meio de magia de sangue e experimentações profundas com as entranhas da terra, teriam desestabilizado forças locais. Nessa versão, o uso imprudente de artes perigosas teria detonando (ou amplificado) o cataclismo.
- Punição ou maldição: nas tradições religiosas e nas lendas, há quem veja a Perdição como uma retribuição divina — um castigo pelos “pecados” valirianos (exploração, escravidão, manipulação da vida). O elemento moral funciona na narrativa como explicação simbólica para o fim da arrogância humana.
Não é necessário escolher uma única causa: as fontes frequentemente multiplicam explicações porque Valíria, em vida, era uma mistura de ciência (na forma de engenho e técnica fantástica) e magia. O próprio efeito dramático dessa combinação alimenta a ideia de que a queda foi tanto natural quanto, ao menos em parte, auto-infligida.
O DIA DEPOIS: SOBREVIVENTES E O RASTRO DA DISPERSÃO
Surpreendentemente, houve sobreviventes. Entre as casas poderosas, a mais importante delas foi a Casa Targaryen: Aenar Targaryen, alertado pelos sonhos proféticos de sua filha (Daenys, a Sonhadora), mudou-se para Pedra do Dragão doze anos antes da Perdição, levando cinco dragões — os únicos dragões do mundo conhecido que sobreviveram ao desastre. Esse fato foi decisivo: a linhagem targaryen salvou não apenas sangue e títulos, mas também a arma viva que garantiria a Conquista de Westeros mais adiante.
Muitos outros fugiram para colônias e cidades que, ao longo do tempo, se tornaram independentes: as Cidades Livres do oeste reafirmaram-se; Braavos, fundada por escravos fugitivos que escaparam da mão valiriana, tornou-se uma potência por sua independência física e política; as cidades da Baía dos Escravos voltaram a prosperar sem o jugo central.
Relatos posteriores reforçaram a aura de terror ao redor das ruínas. O mais impactante ocorreu em 56 d.C., quando a princesa Aerea Targaryen desapareceu montada em Balerion, o Terror Negro. No entanto, ela retornou mais de um ano depois, agonizando e infestada por criaturas monstruosas — “vermes com rostos” e “serpentes com mãos”, segundo o registro dos meistres. Por sua vez, Balerion apresentava ferimentos profundos e marcas de batalha.
A Perdição também abriu espaço para povos não valirianos: as hordas dothraki cresceram em importância, varrendo áreas antes controladas e aproveitando o vácuo de poder.
O LEGADO MATERIAL E CULTURAL: O QUE FOI PERDIDO E O QUE RESTOU
Grande parte do conhecimento valiriano desapareceu: o processo de forjar aço valiriano foi esquecido (daí a raridade e o misticismo que envolve lâminas originais), e muitos rituais e capacidades arcanas foram extintos. Ainda assim, fragmentos sobreviveram:
- Armas e tesouros: espadas de aço valiriano (muitas vezes reforjadas de lâminas antigas) e outros objetos que chegaram a Westeros com famílias como os Lannister.
- Velas de vidro: contadas entre os artefatos que teriam origem valiriana.
- Histórias e lendas: canções, poemas e lembranças — tanto em Volantis quanto entre as Cidades Livres — mantiveram a memória de Valíria viva.
Por outro lado, a região de Valíria passou a ser tida como amaldiçoada. Navegadores evitam o Mar Fumegante; a península tornou-se berço de estranhas doenças e criaturas — os chamados “Homens de Pedra” e a escamagris que os aflige são parte do folclore sombrio que rodeia as ruínas.
CITAÇÕES E TESTEMUNHOS: VOZES QUE LEMBRAM VALÍRIA
Ao longo das obras, personagens e crônicas repetem imagens e frases que ajudam a compor nossa visão de Valíria. Entre as citações mais evocativas estão:
- “A Perdição ainda reina em Valíria.” — frase recitada por personagens como Quaithe e evocada por Tyrion Lannister quando observa as ruínas.
- “Ninguém forjou uma nova espada de aço valiriano desde a Perdição de Valíria.” — Jaime Lannister, ao comentar a raridade do aço valiriano.
- Trechos de poemas recitados por personagens diversos sobre o dia da Perdição descrevem: “as chamas que jorraram tão altas e quentes que até dragões se queimaram… a Perdição consumiu tudo igualmente”. (citada por Tyrion Lannister e Jorah Mormont durante sua travessia do Mar Fumegante).
- “Dizem que a Perdição consumiu a cidade milenar, e tudo o que os homens haviam aprendido.” — versos e relatos presentes nos cânones, que expressam o peso cultural do evento.
Essas vozes funcionam tanto como lembrete histórico quanto como aviso: Valíria é um exemplo extremo do que ocorre quando saber e poder são concentrados sem limites morais.
VALÍRIA E OS DRAGÕES: DESTAQUE FINAL
Os dragões são, talvez, o elemento mais definidor na história valiriana. Eles foram responsáveis pela ascensão militar, pela manutenção do império e, paradoxalmente, pelo senso de invencibilidade que pode ter contribuído para a queda. Na Perdição, muitos dragões morreram queimados no céu ou enterrados nas cinzas; apenas os daqueles que já haviam deixado a península — os Targaryen em Pedra do Dragão — sobreviveram. Entre os dragões que partiram estavam Balerion, que viveu mais tempo e teve papel na memória oral do continente; ovos deixados e chocados posteriormente deram origem a outros dragões como Vhagar e Meraxes, que desempenhariam papéis históricos intensos.
A perda de dragões significou, para Essos, o fim de uma era de supremacia aérea e mágica. Sem eles, cidades e povos reorganizaram-se; guerras e disputas deixaram de ter aquela arma totalizante e o equilíbrio de poder mudou para sempre.
CONSEQUÊNCIAS GEOPOLÍTICAS: O SÉCULO DE SANGUE E O NOVO MAPA DE ESSOS
A Perdição fragmentou o mapa político de Essos: o Império Valiriano ruiu, colônias tornaram-se independentes, Volantis tentou afirmar-se como herdeira sem sucesso definitivo, e as Cidades Livres e as cidades da Baía dos Escravos seguiram caminhos próprios. Surge Braavos, crescem os dothraki, e as antigas rotas de poder e comércio se redesenham. Esse período conturbado é conhecido como o Século de Sangue: décadas — talvez séculos — de guerras, tentativas de restauração e rearranjos.
VALÍRIA COMO MITO E ADVERTÊNCIA
Valíria funciona, nas crônicas, em dois níveis: como lugar histórico (ou internamente histórico) e como mito. Historicamente, foi a capital de um império que dominou Essos e cuja tecnologia — seja ela rústica, seja ela mágica — o colocava acima dos rivais. Miticamente, Valíria tornou-se o exemplo das consequências da arrogância coletiva e do uso imprudente do saber. A Perdição é a imagem que mantém esse dilema vivo na imaginação dos povos do continente: poder e sabedoria concentrados, queimados num único dia.
Se hoje Valíria é apenas ruína fumegante, sua sombra permanece viva nas lâminas de aço valiriano, nas genealogias das casas como os Targaryen e nos poemas que lembram as chamas. E nos lembretes — literais e verbais — de personagens que, ao passar diante das ruínas, repetem: “A Perdição ainda reina em Valíria.”
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
