A Guerra dos Mundos 2025: Os Marcianos temeram Um Pendrive
Se alguma coisa tem que dar errado, esse filme é a prova disso.
A obra prima de H.G. Wells já teve muitas adaptações em diversas mídias. Em 2025, a Prime Video trouxe mais uma, que é o seu cartão de visitas.
Depoimento de H.G. Wells (ou o que restou dele) por meio de um pesadelo para Paulo Bocca Nunes
Esse é um site que traz muitos artigos e reviews de filmes e séries de ficção científica. Nosso objetivo é dar o nosso ponto de vista sobre as obras — sejam elas clássicos consagrados ou novas tentativas de reinterpretar o gênero.
Há filmes, por exemplo, que são adaptações ou releituras de histórias marcantes. Mas nem sempre isso é sinônimo de qualidade. Foi o caso de Guerra dos Mundos 2025, disponível no Prime Vídeo, que traz em seu título uma clara referência à obra clássica de H. G. Wells, publicada em 1898.
Dirigido por Rich Lee, com roteiro de Kenneth Golde e Marc Hyman, o filme conta ainda com um elenco de nomes conhecidos, como Ice Cube, Eva Longoria e Michael O’Neill. O resultado, no entanto, ficou muito longe do que se esperava — e passou distante de qualquer coisa que possa ser chamada de altamente recomendável.
Então eu fiquei imaginando: o que diria o próprio Wells sobre esse filme… se estivesse vivo, é claro!!
Peguei um cristal que mantenho sobre a minha mesa, dei alguns giros nele (como se fosse o meu Primeiro Radiante), e imaginei um facho de luz saindo por um dos lados até que… surge H. G. Wells em pessoa, pronto para dar a sua opinião sobre o filme.
Portanto, a partir daqui, deixo que ele mesmo fale.
A GUERRA DOS MUNDOS 2025, POR H.G. WELLS (SE ESTIVESSE VIVO, É CLARO)
Quando escrevi A Guerra dos Mundos em 1898, meu objetivo era explorar as fragilidades humanas diante de uma força superior, refletir sobre colonialismo e ciência, e causar calafrios sutis no leitor. Não imaginei que, 127 anos depois, minha história se tornaria um infomercial de 90 minutos para a Amazon, com direito a entrega expressa de pen drives e fuga de tripods em Teslas.
Por falar na Amazon, a plataforma descreve o filme como uma “nova versão do lendário romance de mesmo nome” e uma “emocionante aventura sobrenatural repleta de temas atuais de tecnologia, vigilância e privacidade”. Pra vender essa coisa, eu sou lendário.
A versão do filme de 1954, o teatrão radiofônico do Orson Wells, de 1938, e o filme do Stephen Spielberg de 2005 até que foram bem bons. Como eu sei? Eu posso estar em outro mundo, mas eu vejo as coisas muito bem.
Li que meu glorioso invasor marciano foi derrotado não por bactérias, mas por um vírus de computador. Não que eu seja contra a inovação, mas confesso que sinto falta do tempo em que o clímax de uma obra não dependia do prazo de entrega do “Compre agora com um clique”.
E essa ideia de narrar a invasão inteira pela tela de um computador… Eu tentei imaginar Júlio Verne contando Vinte Mil Léguas Submarinas pela perspectiva do sonar de um submarino, mas parei, por respeito aos mortos.
Entendo que a arte evolui. Porém, há evolução e há mutação radioativa. Esta adaptação me parece a segunda opção. Fui informado que o ator principal, Ice Cube, reage à destruição de cidades inteiras com a mesma intensidade com que um mordomo vitoriano reagiria a uma xícara de chá levemente morna. Eis uma nova forma de terror marciano: o terror da indiferença.
Pra começo de conversa, essa coisa de 2025 não começa com um cientista olhando os mistérios do céu, mas com um sujeito vasculhando as câmeras das ruas atrás da filha, ou seja, por telas de um computador que eu nunca vi na minha vida. Mas, o personagem Will Radford, do Ice Cube, trabalha como vigilante no Departamento de Segurança Interna. Ele espiona sua filha grávida, Faith, dando-lhe conselhos sobre o que não comer, ou melhor, que deve comer um ovo! Óbvio… proteína animal é algo importante num filme de ficção científica sobre uma invasão alienígena.
Imagine alienígenas marcianos ouvindo isso nas suas naves. Mas, o tal sujeito tem um filho, Will, que adora videogames ao invés de ser funcionário público. Enquanto isso, esse Will rastreia um hacker notório quando uma invasão alienígena vem do céu através de meteoritos. Percebam a quantidade de abobrinhas até o momento em que finalmente os alienígenas chegam.
Sei que o filme não pretende ser uma comédia, mas, pelo visto, falhou tão gloriosamente que encontrou sua verdadeira vocação: ser visto em festas regadas a vinho barato e piadas ruins, enquanto as pessoas perguntam “isso é sério?” a cada cena.
Os marcianos chegam não com imponentes tripods dignos de pesadelos industriais, mas com o carisma visual de uma tela de economizador de energia. Um grupo de humanos, em vez de enfrentar a ameaça com coragem ou desespero, prefere a abordagem “reunião de Zoom” — observando a destruição mundial a partir de janelas de vídeo e chamadas intermitentes. Até imagino que, se esta fosse a minha versão de 1898, o narrador teria descrito a invasão inteira olhando pela janela de um trem, tomando chá, comentando o clima e tendo o The Times em mãos.
Enquanto cidades caem, porque o orçamento desse filme foi medido com fita métrica para os efeitos visuais baratos, nosso protagonista — interpretado pelo senhor Ice Cube, que aqui oferece uma atuação tão contida que poderia ser confundida com alguém esperando o micro-ondas terminar — decide que a solução para o fim da humanidade está… em um pen drive. Sim, um pen drive. Nele, um vírus (informático, não biológico) capaz de desativar toda a frota marciana.
Convenhamos!
Se eu soubesse que um simples vírus de computador resolvia, teria incluído no meu romance um personagem chamado Norton.
O clímax? Uma corrida contra o tempo para plugar esse pen drive no “computador central” dos invasores, convenientemente posicionado de forma que qualquer humano com habilidades mínimas de parkour possa acessá-lo.
Mas… acalme-se! Tudo pode ser entregue dentro do prazo, cronometrado por segundos, independente do clima e do trânsito repleto de tripods… pela Amazon. Sem falar que a filha grávida (aquela do ovo) é casada com um motorista entregador da… Amazon.
Não é à toa que o filme está no Prime Video.
No desfecho, não há reflexão, não há catarse. Apenas a constatação de que vencemos os marcianos com a mesma estratégia que usamos para desinstalar barras de ferramentas indesejadas no navegador.
Se essa foi a intenção dos realizadores, devo admitir que conseguiram algo que nem eu previ: transformar uma história de horror e sobrevivência em um épico de comédia não-intencional. Eu, por minha parte, voltarei para o além, não sem antes recomendar que este filme seja assistido apenas em maratonas etílicas ou para estudos de como não adaptar um clássico.
Agora, por favor, me deixem em paz aqui na eternidade… antes que algum produtor decida me chamar de volta para comentar A Máquina do Tempo 2099.
CONCLUSÃO
E assim, encerramos a nossa resenha e nos despedimos do nosso personagem H.G. Wells, que veio do Além para falar sobre o filme A Guerra dos Mundos 2025, que está disponível no Prime Vídeo.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
