Demerzel e a Conexão Pela Brazen Head
A terceira temporada de Foundation, na Apple TV, reservou uma grande surpresa para o último episódio: demerzel está viva?
Paulo Bocca Nunes
Poucos elementos da ficção científica são tão capazes de tocar nossos corações quanto os robôs. Quem não se lembra do clássico B9, de Perdidos no Espaço? Quando eu era criança, cheguei a ter uma réplica de plástico desse robô — ele era fascinante. Décadas depois, o pequeno Wall-E conquistou plateias no mundo inteiro com sua doçura e inocência. São personagens que, mesmo sendo máquinas, despertaram sentimentos muito humanos.
E agora, em Foundation, tivemos talvez uma das mais marcantes representações: Demerzel. Sua presença, sua dor e até mesmo sua aparente morte no final da terceira temporada causaram uma verdadeira comoção entre os fãs da série. A atuação de Laura Birn foi simplesmente brilhante, dando vida a uma personagem que é, ao mesmo tempo, máquina e profundamente humana.
Mas será que essa foi mesmo a última vez que vimos Demerzel?
Existem algumas pistas e teorias que podem nos dar a esperança de que ela volte na quarta temporada.
A CENA FINAL DA 3ª TEMPORADA
Assistir à cena final foi brutal. Crepúsculo, agora irmão Escuridão, liberou o feixe de desintegração na câmara de ascensão. O bebê Cleon estava indefeso sobre o Deis, e Demerzel, o último robô, ou pelo menos assim acreditávamos, fez o que sempre fez: obedeceu ao seu coração, ou melhor, ao seu código.
Ela protegeu a criança com seu próprio corpo. O feixe atravessou sua pele, revelando o esqueleto dourado por baixo. Dia, impotente, observava a única presença constante em sua vida desaparecer. Em uma série marcada por batalhas intelectuais frias, aquela foi pura emoção — a perda de uma figura materna.
Mas então, algo estranho aconteceu. Alguns fãs notaram que os olhos de Demerzel piscavam durante a destruição. Reproduzido em câmera lenta, o movimento parece formar uma mensagem em código Morse, interpretada como “transferido”.
Demerzel havia mencionado que sua diretiva se tornara multicursal: ela sabia que poderia transferir sua consciência para a Cabeça de Bronze, o que restou da cabeça de um robô. O sinal de início de conexão entre robôs, o sinal de aperto de mão iniciado (handshake signal initiated), reforça essa teoria. Alguns acreditam que ela primeiro se transferiu para o Primeiro Radiante e, depois, usou sua rede para ativar a Cabeça de Bronze.
A série já havia mostrado transferências semelhantes de consciência: a mente de Hari Seldon através do Radiante. Mesmo que a mente de Demerzel seja descentralizada, ela ainda estava limitada por suas diretivas de programação impostas por Cleon I. Superar essas limitações no último instante — voluntariamente ou não — teria sido um ato de libertação silenciosa.
Quando a Cabeça de Bronze se acende e anuncia “Sinal de Aperto de Mão Iniciado. Enlace aceito” (Handshake signal initiated. Clasp accepted), fica claro que não é aleatório. Demerzel explicou a Dia que robôs podiam compartilhar consciência — o chamado clasp. Era sua forma de não estar sozinha. O corpo poderia ter morrido, mas sua mente havia saltado para a Cabeça de Bronze, conectando-se com outra consciência esperando por ela.
A PROVA NA LUA DA TERRA
Logo após, duas figuras em uma base escondida na lua da Terra recebem o sinal: Kalle e um robô metálico alto. Surpresa e reconhecimento tomam seus rostos. O enlace da Cabeça de Bronze os alcançou — não era apenas ruído, era contato. Se isso fosse apenas um teaser, não precisaria se conectar à sua cena de morte. Mas a forma como foi apresentado — o sacrifício, o crânio piscando, a ativação da Cabeça de Beronze, o enlace alcançando Kalle — sugere uma reação em cadeia.
Ela não desapareceu. Encontrou um caminho para se reunir com seu povo. Para uma personagem que passou séculos presa à programação de Cleon I, isso é poético: a morte não foi fim, foi fuga. Essa liberdade recém-descoberta está em perfeita sintonia com o que confessou anteriormente na temporada: sua mente tornou-se um labirinto, com mais opções do que jamais imaginou.
CONEXÃO COM OS LIVROS
Nos livros de Asimov, Demerzel é apenas uma das máscaras de Daneel Olivaw, um robô que existe há 20.000 anos. Ele guiou a humanidade através das guerras dos robôs, a ascensão do Império e a criação da psicohistória. Daneel nunca morre. Em Prelúdio à Fundação e Limites da Fundação, ele se afasta como primeiro-ministro, mas continua moldando eventos. Em Fundação e Terra, ele reaparece, ainda vivo, agora guiando sob a Lei Zero da robótica, onde a sobrevivência da humanidade é prioridade.
Se a série tivesse matado Demerzel de vez, teria sido um afastamento prematuro. Permitir que sua mente se transferisse para a brazen head mantém-na viva de forma coerente com o destino de Daneel.
PISTAS DEIXADAS PELA SÉRIE
Ao longo da temporada, Demerzel revelou que robôs sempre tiveram laços emocionais e que o clasp era sua forma de não estar sozinha. Admitiu a Song que não podia escolher entre amor e liberdade — a liberdade sempre venceria. Confessou a Varelis ter vivido muitas vidas, cada mudança em sua programação sendo quase como uma reencarnação.
Cada morte na série tem camadas: Hari morreu e retornou de múltiplas formas; Salvor Hardin morreu, mas seu zigoto manteve a promessa de um retorno; até o Mulo foi reinventado. A aparente morte de Demerzel segue o mesmo padrão: não é fim, é transformação.
O QUE ESPERAR DA 4ª TEMPORADA
Se sua mente está dentro da brazen head, conectada ao clasp com Kalle e o robô na lua, ela finalmente está livre. Sem mais Cleons, sem mais Império, sem correntes. Pela primeira vez desde as guerras dos robôs, pode agir por própria vontade. Provavelmente será guiada pela Lei Zero, protegendo a humanidade como um todo.
A 4ª temporada deve adaptar Segunda Fundação e começar a entrelaçar Limites da Fundação, histórias sobre poderes ocultos guiando a história. Uma Demerzel renascida poderia atuar como a mão oculta suprema, não mais obrigada a servir ao Império, mas ainda determinada a guiar a humanidade em crises.
O que antes era servidão se transforma em estratégia: salvou o bebê e a si mesma em um único ato. Não é tragédia, é libertação. Seu corpo pode ter sido destruído, mas sua essência e sua vontade escaparam.
Quando a voz de Demerzel soar novamente através da brazen head, firme e familiar, ao lado de Kalle, não mais presa aos Cleons, enfrentando novos desafios, será mais do que uma continuação: será catarse.
CONCLUSÃO
A teoria é plausível. Os olhos piscando, a brazen head despertando, o sinal do enlace na lua — não são coincidências. Nos livros, Daneel nunca morre; na série, Demerzel encontrou seu próprio caminho para ecoar esse destino. Seu corpo foi destruído, mas sua mente sobreviveu. A 4ª temporada poderá apresentá-la como força livre, pronta para remodelar a galáxia.
Se isso se confirmar, sua morte não foi um fim, foi o início de seu renascimento.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
