Foundation 3: A Revelação de Bayta Não Convenceu
O chamado plottwist é uma reviravolta inesperada no enredo de uma história, que muda radicalmente a direção da narrativa ou a percepção dos personagens e eventos. Alguns são fantásticos. Outros são frustrantes.
Paulo Bocca Nunes
Quando a terceira temporada de Foundation revelou que Bayta, e não Magnífico, era a Mula, a cena não apenas surpreendeu: ela anunciou que a série se afastava de vez dos livros de Asimov para assumir um caminho próprio. Cada gesto, cada olhar e cada sorriso de Bayta foram reinterpretados retrospectivamente como se estivessem carregados de significados ocultos.
A proposta era ousada. Mas o impacto esperado se dissolveu em frustração para boa parte do público. O problema não foi mudar Asimov — adaptações são reinvenções por natureza —, mas como essa mudança foi conduzida.
O PRINCÍPIO DA INEVITABILIDADE NARRATIVA
Desde Aristóteles e sua Poética, a narrativa dramática é entendida como uma sequência de ações que conduz a um desfecho ao mesmo tempo surpreendente e inevitável. O público deve se sentir pego de surpresa, mas, olhando para trás, reconhecer que as pistas sempre estiveram lá, discretas, mas coerentes.
No caso de Bayta, nada disso ocorreu. Sua revelação como a Mula surgiu de forma abrupta, sem preparo, sem indícios consistentes. Em vez de surpresa, restou a sensação de engano. A cena não trouxe a catarse aristotélica, mas um choque vazio.
NOS LIVROS, UMA CONSTRUÇÃO; NA SÉRIE, UM ATALHO
Nos romances de Asimov, Bayta tem papel crucial: é ela quem descobre, por meio da observação e da dedução, que o palhaço Magnificus Giganticus era, na verdade, a Mula disfarçada. E mais: ela impede que o vilão descubra a localização da Segunda Fundação. Essa revelação funciona porque é fruto de uma construção paciente. O leitor acompanha as pistas, compartilha das suspeitas e, no clímax, tudo se encaixa.
Na série, no entanto, a lógica da investigação se perde. Não há rastro narrativo que conduza ao desfecho. Bayta simplesmente aparece no último episódio afirmando ser a Mula. O resultado carece de verossimilhança e força dramática.
A SURPRESA PELA SURPRESA
O showrunner David Goyer chegou a admitir em entrevista em entrevista exclusiva ao site slashfilm.com que a decisão foi tomada para “enganar” o público familiarizado com os livros. Em suas palavras:
“Com uma série como ‘Fundação’, onde nosso público foi treinado para procurar pequenas pistas ou reviravoltas, eu sabia que, se não criássemos uma pista falsa real e viável — neste caso, com o pirata de Kalgan, o senhor da guerra — as pessoas adivinhariam a revelação quase imediatamente. Embora o público que leu os livros seja muito menor [do que o público que não leu], eles são muito expressivos. Então, comecei a me preocupar com isso vazando e estragando a surpresa para quem não tinha lido os livros, e então comecei a pensar: ‘Bem, há mais alguém na órbita da nossa série que poderia ser a Mula?’ E comecei a pensar em Bayta.”
Essa declaração expõe o verdadeiro problema: a prioridade não foi a coerência interna da história, mas apenas preservar a surpresa a qualquer custo. Resultado: os leitores se sentiram traídos e os novos espectadores, confusos. A revelação soou gratuita, mais próxima de um golpe de cena do que de uma reviravolta genuína.
O LIMITE ENTRE OUSADIA E DESCUIDO
Alterar Asimov não é o problema. O verdadeiro risco surge quando se desrespeitam as regras fundamentais da narrativa. Uma boa reviravolta precisa de preparo e justificação interna. No caso de Bayta, faltou tanto um encadeamento lógico quanto sinais que pudessem ser reinterpretados no desfecho.
Em vez de enriquecer a trama, a revelação enfraqueceu a experiência. A promessa de uma grande virada se transformou em uma cena sem peso, marcada por improviso.
CONCLUSÃO: QUANDO A SURPRESA FALHA
Aristóteles já advertia: o melhor final é aquele que surpreende e, ao mesmo tempo, parece inevitável. A revelação de Bayta como a Mula foi apenas inesperada — mas jamais inevitável. Por isso, fracassou.
No fundo, o público não rejeitou a ideia de Bayta ser a Mula. Rejeitou a forma como isso foi apresentado. A ausência de uma verdadeira construção dramática comprometeu a credibilidade da narrativa.
Uma boa trama pode reinventar personagens, inverter destinos, transformar heróis em vilões. O que não pode é subestimar a inteligência do público, sacrificando a lógica interna em nome de um truque barato. Em vez da catarse aristotélica, Foundation nos ofereceu um jogo de ilusionismo — e, nesse palco, quem perdeu não foi Bayta, nem a Mula, mas a própria narrativa.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
