Foundation 3: Kalle é um robô?
O Impacto Revelador do Final da 3ª Temporada de Foundation
Paulo Bocca Nunes
Kalle é uma personagem secundária na série Fundação, da Apple TV+, mas tem crescido de importância a cada temporada. Ela é uma matemática cujo trabalho é vital para Gaal Dornick resolver a Conjectura de Abraxis, colocando-a em um caminho para encontrar Hari Seldon. Na série, a personagem é interpretada por Rowena King.
BIOGRAFIA
Vinda do planeta Thrax, Kalle era uma matemática especializada em Teoria do Caos cuja escrita era considerada poética com ritmo em suas palavras. Ela usou o trímetro anapéstico em suas obras, e falava no mesmo ritmo. Por causa disso, era difícil para os estudiosos levarem seu trabalho a sério. Kalle dedicou sua vida a escrever o Livro da Dobra, que incluía sua Nona Prova da Dobra. Séculos depois, Hari Seldon incorporou o trabalho de Kalle sobre como dobrar o espaço em seus esforços para construir o Primeiro Radiante. O manuscrito original da prova foi mantido na Biblioteca Imperial, escrito no Thraxiano nativo de Kalle.
A TERCEIRA TEMPORADA DE FOUNDATION
O episódio final da terceira temporada de Foundation, na Apple TV, trouxe à tona a revelação mais surpreendente da temporada. A suspeita de que Kalle seja um robô, já insinuada por alguns sinais ao longo da narrativa, recebeu confirmação inequívoca nos últimos minutos do episódio 10.
No final, a Cabeça de Bronze passou a emitir um brilho azul pelos olhos e estabeleceu um sinal de comunicação com os robôs localizados em uma base lunar. No interior do bunker, Kalle é apresentada ao lado de outro robô metálico que, possivelmente, é Giskard Reventlov, ou talvez a própria caveira de Giskard tentando estabelecer conexão com a base lunar.
O diálogo que segue é tão enigmático quanto revelador:
“Um de nós está solicitando enlace. E logo de Trantor”, diz Kalle.”
“Soubemos que Demerzel era incapaz de transmitir um.”, responde o robô.
“E era. Mas o sinal não vem de Demerzel. Talvez alguém esteja tentando nos envolver na luta.”
“Alguém deve ter conseguido.”
“Então, todas as peças estão no lugar.”, finaliza Kalle.
Outra interpretação sugere que Demerzel esteja residindo dentro da Cabeça de Bronze, buscando se comunicar com Kalle, uma vez que as duas já haviam se encontrado no episódio 9, dentro do Primeiro Radiante. Independentemente de quem esteja à frente da comunicação, a intenção é clara: envolver Kalle e seu aliado na luta pela salvação da galáxia da escuridão iminente. A cena culmina com Kalle declarando: “Então todas as peças estão no lugar.”
Trantor emerge como um elemento central para o desfecho da narrativa, com seu destino determinando o futuro de toda a galáxia. Segundo a visão de Gaal Dornick, será nesse planeta que ocorrerá o confronto entre o Império, a Mula e Dornick, e os robôs desempenharão um papel estratégico nessa batalha decisiva.
A sequência levanta uma reflexão: Kalle não estaria, na realidade, já integrada à luta pela preservação da humanidade? Sua nona prova de dobra fundamentou as pesquisas de Hari Seldon, que utilizou tais princípios para desenvolver o Primeiro Radiante, um dispositivo capaz de armazenar todas as previsões e cálculos da psicohistória.
Os robôs, atuando discretamente, apoiaram Hari Seldon, reconhecendo nele o único capaz de evitar a extinção humana. Demerzel forneceu suas memórias ao Seldon mais jovem, fornecendo-lhe dados essenciais para o desenvolvimento da psicohistória, enquanto a matemática de Kalle estruturava os cálculos, garantindo um caminho para as gerações futuras. Mesmo Yanna, esposa de Harry, embora não seja retratada como robô na série, cumpriu um papel dentro do grande plano de Seldon.
A questão central permanece: qual é o papel de Kalle no conflito humano? Evidentemente, desde o início, ela segue a Lei Zero da Robótica, que prioriza o bem maior da humanidade acima de interesses individuais. As três leis da robótica, porém, restringem sua atuação direta, o que talvez explique a decisão de tornar Seldon um participante ativo no plano.
Na segunda temporada, Kalle transportou Hari Seldon ao planeta abandonado de Oona, transferindo sua consciência digital para um clone humano. Com a orientação de Gaal, Seldon pôde fundar a Segunda Fundação e treinar um exército mental, preparando-se para a crise vindoura. Na terceira temporada, Kalle esclareceu suas motivações ao Seldon envelhecido, explicando que ele assumiu um papel ativo porque os robôs não podiam fazê-lo diretamente, referindo-se a si mesma e ao outro robô presente na base lunar.
É plausível supor que Kalle e outros robôs, que forneceram clones a Hari Seldon e aos Cleons, possuam tecnologias extremamente avançadas, além da compreensão humana. Um exemplo é a cena do episódio 2, quando Kalle transporta Seldon, provavelmente para Ignis, através de um portal, sem necessidade de espaçonave, drive ou portal de salto.
Existe ainda a possibilidade de que o Hari envelhecido continue vivo — não em seu corpo original, mas com sua consciência armazenada em dispositivo similar ao Primeiro Radiante. Caso seja essa a situação, ele poderá retornar na quarta temporada para auxiliar a Segunda Fundação diante das próximas crises, lembrando que Seldon havia mencionado oito crises previstas, das quais ainda estamos na terceira.
Outra questão intrigante refere-se à origem de Kalle. A conversa entre ela e Demerzel no episódio 9 indica que Demerzel é mais antiga, sugerindo que Kalle foi criada após as Guerras Robóticas e não se originou na Terra.
E o outro robô metálico ao lado de Kalle?
Poderia representar seu criador. No entanto, não é prudente especular demasiado, considerando o vasto material original e a liberdade criativa da adaptação da Apple TV. Pela aparência, esse robô parece ser Giskard Reventlov, amigo de longa data de Demerzel, com habilidades de leitura e influência sobre mentes humanas e robóticas, conforme descrito nos livros.
Pode-se, portanto, concluir que o objetivo de Kalle e Giskard converge: apoiar Gaal Dornick na missão de salvar a galáxia de forças como o Irmão Escuridão, agora o único imperador, e a Mula Bayta. Desde o início, os robôs demonstram envolvimento estratégico no plano de Seldon, visando estabelecer um novo império e encurtar o período de escuridão após a queda do Império Galáctico.
Enquanto a Mula e os Cleons não permanecem, cabe a Gaal encontrar os indivíduos adequados para liderar a galáxia em direção a um futuro promissor. Com tantos aliados poderosos, sua vitória parece assegurada, e acompanhar os meios pelos quais ela a alcançará promete ser uma experiência fascinante.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
