Foundation 3: Invictus, Novácula e o Plano Seldon
O Império não cede espaço nem poder. Uma nave lenda´ria foi resgatada e transformada na arma mais letal da galáxia.
Paulo Bocca Nunes
Entre todos os símbolos da ficção científica, poucos são tão grandiosos quanto as naves espaciais. Elas não são apenas meios de transporte: são cidades flutuantes, fortalezas no vazio e testemunhas silenciosas da história do cosmos. Em cada tela de cinema ou série de TV, a simples visão de uma nave colossal desperta no público o fascínio do desconhecido e a promessa de aventuras além das estrelas. Mas entre todas as naves que já cruzaram a ficção científica, poucas carregam um mistério tão instigante quanto a Invictus.
No universo da série Foundation, ela não é apenas uma relíquia de guerra: é o centro de uma contradição. Hari Seldon afirma que todos os seus segredos e conhecimento estariam guardados na Invictus — mas como isso é possível, se a nave foi destruída no final da segunda temporada? E o que dizer da nova arma, a Novacula, aparentemente construída a partir de seus destroços? É nesse enigma que vamos mergulhar.
A INVICTUS: A LENDÁRIA NAVE IMPERIAL
A Invictus, apesar de ganhar destaque na série da Apple TV+, não existe nos livros de Asimov. Nos romances, a Fundação enfrenta reinos vizinhos que utilizam frotas de antigas naves imperiais, e não uma supernave específica. A inclusão da Invictus é uma adaptação criativa que transforma essa ameaça coletiva em um único símbolo de poder bélico.
Na série, a Invictus é uma nave de guerra da Classe Altair Imperial, orgulho da frota do Imperador Taurelian, que governou por volta de setecentos anos antes da Era Imperial de 12.102. Medindo oito quilômetros de diâmetro e composta por três anéis concêntricos ao redor de um vazio central, a Invictus era equipada com canhões eletromagnéticos externos, torres defensivas e um sistema de navegação que precedia a existência dos Espaciais.
Possuía um sistema de propulsão de salto que precisava ser mantido pelo líquido refrigerante conhecido como ferínio gelatinoso. O sistema de navegação era anterior aos spacers. Sua tripulação original consistia de 300 mil pessoas, e sua operação exigia berços de salto e um navegador aumentados (augmented navigators) ligado a uma inteligência artificial sofisticada para conduzir a nave pelos saltos interestelares.
Observação: No universo de Foundation, a expressão “augmented navigators” se refere a um ser humano com aprimoramentos tecnológicos, genéticos ou cibernéticos, capazes de processar informações complexas — especialmente os cálculos necessários para navegar pelo espaço dobrado (“jump”).
Durante sua trajetória inicial, a tripulação da Invictus perdeu o controle do sistema de propulsão da nave, o que levou a nave a saltar aleatoriamente. A capacidade de alcançar distâncias inimagináveis fez com que a Invictus ficasse muito além do alcance de comunicação com as forças Imperiais. Houve falta de recursos para manter a tripulação, houve rebeliões e todos acabaram mortos. A nave continuou seus saltos aleatórios para lugares aleatórios, dando origem à lenda do Invictus se tornando uma “nave fantasma”.
Muito tempo depois, a nave foi redescoberta à deriva pelos Anacreons no Cinturão de Anthor na Era Imperial de 12.102. Liderados pela Grande Caçadora Phara Keaen, o objetivo era tomar posse da nave e ir em busca de vingança contra o Império Galáctico. Com a ajuda de cientistas e pilotos da Fundação, a Invictus foi restaurada, tornando-se novamente uma peça central na estratégia da galáxia.
Sob a liderança de Salvor Hardin, a Fundação acaba tomando posse da Invictus, que começou a estudar seus sistemas e planejou criar novas naves usando suas descobertas. A nave de guerra permaneceu em órbita de Terminus. Com o conhecimento da tecnologia, a Fundação criou as naves sussurrantes que continham um novo tipo de tecnologia de propulsão de salto que não exigia a assistência de spacers, mas em vez disso utilizava um dispositivo de computação orgânico conhecido como neuropropulsão.
A DESTRUIÇÃO DE TERMINUS E O MISTÉRIO DE SELDON
No episódio 9 da segunda temporada, Uma frota de naves sussurrantes foram posicionadas ao lado do Invictus durante a Batalha de Terminus. A Invictus foi atingida e o Imperador Dia, Cleon XVII, ordenou ao General Bel Riose que usasse os sistemas de armas da Destino Brilhante para forçar os destroços a irem para Terminus.
Dessa forma, a Invictus é arremessada contra o planeta Terminus, aparentemente destruindo-o em uma explosão catastrófica. Este evento marcou a suposta perda definitiva da nave. No entanto, a narrativa da terceira temporada sugere que a destruição não foi absoluta — ou, pelo menos, que Seldon tinha algum plano para lidar com a perda da Invictus.
O detalhe crucial é que, mesmo após o impacto, a Invictus continua relevante para os planos de Seldon. Gaal Dornick, ao acordar da criogenia, revela que, após a derrota do Mulo, todos os conhecimentos e segredos da Fundação estariam vinculados à Invictus. Dornick não se surpreende com essa menção — sinal de que Seldon sempre antecipa contingências, mesmo diante da destruição aparente da nave.
A TERCEIRA TEMPORADA E A CRIAÇÃO DA NOVACULA
A Novácula nasceu dos destroços da lendária Invictus, preservando a essência de sua estrutura original: três gigantescos anéis concêntricos que agora abraçam uma esfera central intensa e brilhante. Essa esfera não é apenas um núcleo, mas a própria alma da arma. Quando ativada, seu brilho cresce até se tornar quase ofuscante, canalizando toda a energia armazenada nos anéis da Invictus em um feixe devastador, direcionado a qualquer ponto do espaço escolhido pelo operador. A força liberada é incomensurável, capaz de atravessar anos-luz e impactar um planeta distante em um instante, transformando-o de maneiras que desafiam a compreensão.
A construção da Novácula foi descrita num dos episódios finais da terceira temporada num diálogo entre Crepúsculo e Demerzel. Ele apresenta arma e Demerzel comenta que seriam necessários anos de preparação, incluindo a mineração e o processamento de tântalo, que é um material resistente capaz de suportar a energia concentrada que agora pulsa nos anéis da nave. Esse detalhe está relacionado ao poder de destruição da arma.
Numa demonstração, o cientista responsável faz uma demonstração para Crepúsculo. Ele aponta o raio destruidor para um planeta que é destruído totalmente. Porém, o cientista afirma que nada foi destruído. Tudo permanece lá, mas alterado para sempre — matéria, energia, talvez até uma memória residual do que existia.
Até mesmo Irmão Crepúsculo, que supervisionou sua construção, ficou impressionado ao ver o poder concentrado nas mãos dele, percebendo que não se tratava apenas de destruição, mas de uma transformação completa e permanente. A Novácula não é apenas uma arma; é a prova de que, no universo de Foundation, o passado nunca desaparece completamente — ele se metamorfoseia, e às vezes, retorna de forma mais aterradora do que antes.
O conceito da Novácula se conecta de forma interessante com o que Demerzel percebe ao observar a mente de Gaal Dornick: uma distorção temporal e espacial que fragmenta matéria e energia, criando uma espécie de “presença residual” ou memória física do que passou. A arma cristaliza essa ideia: a energia da Invictus, transformada em Novácula, não desaparece, mas é reutilizada e rearranjada em uma forma nova e poderosa, quase como se a matéria e a informação do passado continuassem vivas de outro jeito.
O MISTÉRIO DE SELDON E O FUTURO DA FUNDAÇÃO
Seldon parece sempre ter antecipado cada passo. Dornick não se surpreende com a menção da Invictus, sugerindo que a mente de Seldon opera alguns passos à frente, criando contingências para cada cenário possível. A Novácula, nesse contexto, simboliza a capacidade de Seldon de manipular eventos, mesmo quando recursos aparentemente perdidos poderiam ter sido destruídos ou comprometidos.
Além disso, o contato indireto entre a Segunda Fundação e o Império abre a possibilidade de que ideias estratégicas tenham sido compartilhadas para enfrentar a ameaça do Mulo, conectando passado, presente e futuro da narrativa. Hari Seldon não apenas prevê as Crises, mas garante que, mesmo com adversidades extremas, os segredos e recursos estratégicos da Fundação permaneçam ativos.
CONCLUSÃO
A Invictus é muito mais que uma nave de guerra: é um elo entre o passado glorioso do Império, a engenhosidade da Fundação e os planos visionários de Hari Seldon. Sua destruição em Terminus, a transformação de seus destroços na Novacula e o papel contínuo que desempenha nos planos de Seldon demonstram que, mesmo em meio à destruição, a galáxia continua sob o controle de estratégias que desafiam a compreensão imediata. Para fãs de Fundação, a Invictus permanece como um símbolo de mistério, poder e da complexidade das Crises que moldam o destino da galáxia.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
