Spacers: Dos Livros de Asimov À Série Foundation
Nos primórdios da navegação espacial, eles deixaram a Terra. Na série da Apple TV, são produto a serviço do Império galáctico.
Paulo Bocca Nunes
Em toda a vastidão da ficção científica, poucas ideias traduzem tão bem a tensão entre humanidade e tecnologia quanto a dos Spacers, ou Espaciais, criados por Isaac Asimov. Eles representam uma das vertentes mais inquietantes do universo asimoviano: seres humanos que, em busca de perfeição, se afastam da própria essência humana.
Ao longo de séculos — dentro da cronologia ficcional —, os Spacers ascendem, conquistam o cosmos, tornam-se quase deuses… e lentamente desaparecem, vítimas do isolamento, do orgulho e da tecnologia que os definia.
Na série Foundation, da Apple TV+, o termo “Spacer” reaparece, mas em um contexto completamente distinto. Aqui, eles não são descendentes da Terra nem colonizadores de mundos — são navegadores cibernéticos a serviço do Império Galáctico. A diferença, porém, é reveladora: tanto nas páginas de Asimov quanto na tela, os Spacers continuam sendo o mesmo espelho simbólico — o reflexo de uma humanidade que se transforma tanto que já não reconhece a si mesma.
O NASCIMENTO DOS SPACERS NO UNIVERSO DE ASIMOV
A origem dos Spacers está em Mother Earth (“Mãe Terra”, 1949), um conto ambientado em um futuro longínquo, quando a humanidade já domina o salto hiperespacial. O domínio da Terra sobre as colônias começa a ruir, e surge um novo grupo humano: os habitantes dos Mundos Exteriores, também conhecidos como Spacers. São descendentes dos primeiros colonizadores terrestres, espalhados por cerca de cinquenta planetas habitáveis, e formam uma civilização distinta — próspera, tecnologicamente avançada e rigidamente organizada.
Os Spacers nascem do sonho de expansão, mas também da fuga. Distantes da Terra superpovoada e poluída, eles criam sociedades baseadas na automação total e na dependência quase absoluta de robôs. Enquanto os terráqueos ainda lutam por sobrevivência, confinados em cidades subterrâneas e alimentando-se de leveduras, os Spacers desfrutam de mundos limpos, espaçosos e quase vazios.
É um contraste brutal — e deliberado. Asimov usa os Spacers para contrapor duas visões de civilização: uma, presa ao passado e ao instinto de sobrevivência; outra, voltada para o futuro, mas cada vez mais distante das emoções e da empatia.
A tensão culmina na chamada Guerra das Três Semanas, conflito rápido e devastador em que os Mundos Exteriores derrotam a Terra e rompem todo contato com o planeta-mãe.
A humanidade, antes unida pelo sonho de expansão, divide-se em duas espécies culturais: os terráqueos, confinados nas “Cavernas de Aço”, e os Spacers, habitantes dos mundos-luz, aristocratas do cosmos.
MUNDOS ESPACIAIS
Os cinquenta planetas mais notórios habitados por spacers incluem Aurora, Solaria, Melpomenia, Acrísia, Capela, Euterpe, Fauno, Inferno, Hésperos, Querésia, entre outros. O primeiro planeta colonizado fora do sistema solar foi a Nova Terra, mais tarde renomeada Aurora, tornando-se o mundo líder entre os espaciais.
Com o tempo, outros planetas, como Solaria e Nexon, foram colonizados com o objetivo de evitar superpopulação. Porém, no final do 6º milênio, muitos mundos espaciais estavam em decadência ou suas populações sofreram mudanças drásticas, resultando em desolação ou quase extinção.
A ASCENSÃO DOS MUNDOS ESPACIAIS
Após a guerra, os Mundos Exteriores entram em sua era de ouro. Livres da dependência terráquea, os Spacers constroem sociedades estáveis, pacíficas e quase imortais. Sua medicina é avançada o suficiente para prolongar a vida por séculos.
Cada Spacer vive isolado em vastas propriedades, cercado por robôs que cuidam de todas as tarefas manuais. O trabalho físico e o contato social tornam-se quase obsoletos. A individualidade extrema se transforma em isolamento institucionalizado. Essa fase é explorada de forma magistral por Asimov em As Cavernas de Aço (1954), O Sol Desvelado (1957) e Os Robôs da Alvorada (1983).
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Nessas obras, o autor contrapõe o detetive terrestre Elijah Baley, um homem de carne, medo e instinto, ao robô humanoide R. Daneel Olivaw, símbolo da racionalidade robótica e da ambição spacer.
Juntos, eles investigam crimes em mundos como Aurora e Solaria — e, enquanto resolvem assassinatos, revelam a patologia existencial de toda uma civilização.
Em Aurora, o primeiro dos Mundos Exteriores, vemos o ápice da cultura spacer. Lá, a sociedade é organizada, eficiente e fria — um retrato quase perfeito da utopia racionalista. Já em Solaria, o quinquagésimo e último mundo colonizado, o isolamento chega ao paroxismo: apenas dez mil habitantes espalhados por todo o planeta, cada um vivendo em uma mansão automatizada, comunicando-se por hologramas e evitando o contato físico como se fosse uma doença. O medo do outro, literal e simbólico, é o preço da imortalidade.
Asimov transforma os Spacers em uma alegoria poderosa. Eles são o futuro que deu certo — e, ao mesmo tempo, o futuro que fracassou. Ao conquistar o espaço, perderam a Terra; ao conquistar a tecnologia, perderam o humano.
O DECLÍNIO E A QUEDA
Mil anos depois da Guerra das Três Semanas, o equilíbrio entre Terra e Mundos Exteriores chega ao colapso. Os terráqueos, liderados por Elijah Baley e inspirados pelo plano do roboticista Roj Sarton, voltam a colonizar o espaço — mas sem robôs.
A nova geração de exploradores, os Colonizadores, leva consigo algo que os Spacers haviam perdido: a capacidade de adaptação, de trabalho e de convivência. Asimov descreve essa transição em Robôs e Império (1985).

Os Colonizadores avançam rapidamente, dominando técnicas de terraformação e criando uma nova civilização humana. Enquanto isso, os Spacers mergulham em apatia. Solaria é abandonada; Aurora estagna; e outros mundos caem em decadência ecológica ou social.
A metáfora é evidente: os Spacers são o espelho de uma humanidade que, ao se tornar perfeita, perdeu o impulso criador. São deuses trágicos, prisioneiros de sua própria racionalidade.
DIMENSÕES FILOSÓFICAS E SIMBÓLICAS
Os Spacers de Asimov não são apenas personagens — são ideias encarnadas. Representam o distanciamento progressivo do homem em relação à própria humanidade, um tema recorrente na obra do autor.
Eles vivem mais, sofrem menos, pensam com mais clareza — e, por isso mesmo, tornam-se incapazes de compreender o caos criativo que dá sentido à existência. A psicologia dos Spacers é a do isolamento elevado a ideal moral.
Asimov parece perguntar: quanto da nossa humanidade estamos dispostos a sacrificar em nome do controle e da eficiência?
Em As Cavernas de Aço, Baley vê os Spacers como deuses arrogantes; em O Sol Desvelado, percebe que são apenas vítimas da própria perfeição. O isolamento social e a dependência tecnológica criam uma civilização sem empatia.
Cada robô substitui uma relação humana; cada mansão automatizada é um templo do ego. E, no fim, a solidão é tão absoluta que os próprios Spacers deixam de se reproduzir — literalmente desaparecem. Assim, o ciclo se fecha: a busca pela eternidade conduz à extinção.
OS SPACERS DA SÉRIE FOUNDATION
Na adaptação televisiva da Fundação pela Apple TV+, os Spacers retornam — mas de outro modo. Eles não são descendentes dos Mundos Exteriores nem partilham da história de Asimov; são criações originais inspiradas no mesmo arquétipo.
Ciberneticamente aprimorados, com corpos parcialmente mecânicos e mentes alteradas, esses Spacers servem ao Império Galáctico como navegadores de naves de salto, capazes de permanecer conscientes durante viagens mais rápidas que a luz.
A descrição é visualmente impressionante: pele com circuitos, roupas de carbono-silício e olhos opalescentes que refletem o espaço. Mas o princípio é o mesmo — seres humanos transformados pela tecnologia até o limite do reconhecimento.
Os Spacers da série sacrificam partes do corpo e da mente para cumprir uma função cósmica: guiar a humanidade pelo espaço. São, literalmente, os olhos e nervos do Império.
O Império Galáctico mantém o controle sobre os spacers por meio do micronutriente opalesca, essencial para sua fisiologia. Para receber esse recurso, eles devem fornecer 10% de seus descendentes para tripular as naves imperiais, evidenciando a exploração a que eram submetidos.
A semelhança com os navegadores da Guilda Espacial de Duna, de Frank Herbert, não é casual — ambos são símbolos do poder técnico e do custo humano da expansão galáctica.
Há, no entanto, uma diferença essencial entre os Spacers da série e os de Asimov: na televisão, eles são subservientes; nos livros, eram senhores.
Enquanto os Spacers de Asimov dominam a robótica e se isolam por orgulho, os da série vivem sob o controle do Império, dependentes de uma substância — a opalesca — que os mantém vivos.
Os spacers são ferramentas biotecnológicas, não aristocratas do cosmos. O contraste é significativo. Em Asimov, os Spacers representam o pico da autonomia humana, e sua queda é resultado do excesso de poder. Na série, representam a perda total da autonomia, o humano reduzido a engrenagem. Ambos, no entanto, compartilham a mesma tragédia: a desumanização em nome da eficiência.
ECOS E PARALELOS: A HERANÇA DOS SPACERS
Os spacers representam a primeira forma de humanidade adaptada à vida fora da Terra, um passo evolutivo — biológico e tecnológico — para lidar com a vastidão do espaço. Seu papel histórico e na série Fundação ressalta questões sobre dependência tecnológica, exploração e liberdade, além de expandir a visão da humanidade sobre o que significa ser humano no contexto galáctico.
A grandeza do conceito asimoviano, portanto, está em sua capacidade de se transformar. Os Spacers inspiraram não apenas adaptações televisivas, mas também reflexões literárias e filosóficas sobre o destino humano diante da tecnologia.
Podem ser vistos como antepassados de arquétipos modernos — dos replicantes de Blade Runner aos ciborgues de Ghost in the Shell. Todos herdam algo dessa tensão fundamental: a busca pela perfeição que leva à perda do eu.
Há, em Asimov, uma ironia sutil.
Os Spacers acreditavam ter superado a humanidade primitiva da Terra, mas foi justamente a Terra — com toda sua desordem e instinto — que perpetuou a vida humana nas estrelas.
Enquanto eles buscavam o equilíbrio absoluto, os terráqueos abraçaram o desequilíbrio como motor do progresso.
No fundo, Asimov parece afirmar que a humanidade verdadeira não está na pureza, mas na imperfeição. A vida só é possível quando há risco, contato, emoção e erro.
Os Spacers, ao eliminarem o erro, eliminaram também o sentido.
CONCLUSÃO: O ESPELHO DE UM FUTURO POSSÍVEL
Os Spacers de Asimov são mais do que personagens — são uma advertência.
Mostram o que acontece quando a busca pelo controle absoluto apaga o caos que nos torna humanos.
Seu isolamento, sua dependência tecnológica e seu medo do outro ecoam fortemente no presente, em uma era em que a convivência digital substitui o contato humano e a automação redefine nossas relações.
Já os Spacers da série Foundation atualizam esse símbolo para o século XXI: corpos cibernéticos, mentes modificadas, humanidade funcional.
São a nova face da mesma história — a do homem que se transforma em ferramenta.
Entre a ascensão e a queda dos Spacers — sejam eles os aristocratas dos Mundos Exteriores ou os navegadores do Império —, Asimov e seus sucessores traçaram uma parábola sobre o destino da civilização.
No fundo, toda a saga dos Spacers é uma pergunta aberta: quando a tecnologia deixar de ser nossa serva, o que restará de nós?
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
