A Reinvenção da Hard SciFi de Asimov em Foundation
Da “Amazing Stories” à era da inteligência artificial: o legado de Asimov e a reinvenção da ficção científica dura.
Paulo Bocca Nunes
A reinvenção da ficção científica dura em Foundation, da Apple TV+, revela como as ideias de Isaac Asimov continuam vivas e adaptáveis às novas fronteiras tecnológicas. A série retoma os pilares científicos e racionais que definiram a obra do autor, mas os atualiza com conceitos contemporâneos, como inteligência artificial avançada, engenharia de dobras espaciais e interfaces neurais. Trata-se de um encontro entre tradição e modernidade: o rigor lógico de Asimov reinterpretado pela linguagem audiovisual e pelas possibilidades científicas do século XXI.
Ao longo do texto, vamos entender como essa atualização se conecta com a origem da ficção científica dura, desde a Amazing Stories de Hugo Gernsback, passando pela construção do pensamento científico-literário de Asimov, até chegar aos elementos modernizados de Foundation. Também vamos explorar exemplos atuais de hard sci-fi e analisar como o gênero segue se renovando sem abandonar suas bases. Assim, o artigo mostra de que maneira a série não apenas homenageia o legado de Asimov, mas reafirma o papel da ficção científica dura como ponte entre ciência, imaginação e futuro.
COMO A FICÇÃO CIENTÍFICA DURA É REINVENTADA
A ficção científica sempre foi um território dividido entre o sonho e o cálculo. De um lado, histórias que exploram o maravilhamento diante do desconhecido; do outro, narrativas que tentam entender como o impossível pode se tornar possível. Foi dessa segunda vertente que nasceu o que Hugo Gernsback, em 1926, chamou de scientifiction — histórias que uniam imaginação e ciência dentro de uma lógica rigorosa.
Na introdução da primeira edição da revista Amazing Stories (abril de 1926), Gernsback escreveu que a boa ficção científica deveria “misturar romance com conhecimento científico e visão profética”. Para ele, a literatura do futuro não poderia se sustentar apenas no fantástico, mas deveria instruir e inspirar com base na ciência real. Essa foi a semente daquilo que, décadas depois, seria chamado de ficção científica dura (hard science fiction), um gênero que exige do leitor não apenas imaginação, mas também raciocínio.
Seguindo essa vertente, o jovem Isaac Asimov, aos 19 anos de idade, que publicaria seu primeiro conto, Marooned Off Vesta, na Amazing Stories de 1939, tornou-se o herdeiro natural das ideias de Gernsback. Com ele, a ficção científica ganhou não apenas credibilidade científica, mas também profundidade ética e filosófica. Em 1942, com o conto Runaround, Asimov apresentaria as Três Leis da Robótica, consolidando a lógica científica como a espinha dorsal da narrativa de ficção.
Quase um século depois da primeira publicação da Amazing, a série Foundation, da Apple TV+, resgata e atualiza essa tradição. Inspirada na obra monumental de Isaac Asimov, ela mantém o espírito racionalista do autor, mas o reveste de conceitos contemporâneos: interfaces neurais, inteligência artificial consciente e sistemas de dobra espacial que se aproximam das especulações científicas modernas. É a ficção científica dura sendo reinventada — agora com a linguagem e os paradigmas do século XXI.
A ESSÊNCIA DA FICÇÃO CIENTÍFICA DURA
A ficção científica dura é um tipo de narrativa em que a ciência não é cenário, mas estrutura. Ela busca plausibilidade: cada invenção, descoberta ou fenômeno deve se apoiar em princípios científicos conhecidos ou projetados de forma coerente. Isso não significa que tudo deva ser possível, mas sim verossímil dentro da lógica científica.
Autores como Arthur C. Clarke, Ray Bradbury, Hal Clement e o próprio Asimov consolidaram esse estilo. Clarke, em especial, dizia que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia”, mas essa magia, em suas histórias, sempre vinha com manuais de instrução. O mesmo vale para Asimov, que tratava o avanço tecnológico como uma consequência natural da curiosidade humana — não como milagre ou artifício.
O objetivo da ficção científica dura nunca foi prever o futuro, mas entendê-lo por meio das ferramentas científicas disponíveis em cada época. É por isso que a obra de Asimov soa tão coerente até hoje: ela é fruto de uma era em que a física, a astronomia e a robótica estavam definindo os contornos do que viria a ser o século XX.
ISAAC ASIMOV E O RIGOR DA IMAGINAÇÃO
Isaac Asimov talvez tenha sido o autor que melhor sintetizou o ideal de Gernsback. Suas histórias não se contentavam em imaginar novos mundos; elas buscavam entender como esses mundos funcionavam. Em Poeira de Estrelas (The Stars, Like Dust, 1951), por exemplo, há uma das descrições mais emblemáticas do “salto” das naves espaciais: antes da manobra, o comandante reúne os passageiros em um auditório e explica, em detalhes quase didáticos, o que está prestes a acontecer. O salto não é uma manobra mágica, mas uma aplicação de física teórica, uma dobra controlada no espaço-tempo.
Na época em que Asimov escreveu esse romance, a energia atômica surgia como uma possibilidade de uso em diversas áreas, ainda a serem descobertas. Nos romances, o autor falava na propulsão de “motores hiperatômicos”. Imaginava-se que, dessa forma, seria possível fazer viagens acima da velocidade da luz, vencendo distâncias estelares com facilidade.
Curiosamente, essa inclinação de Asimov para a ficção científica dura já se manifestava desde o seu primeiro conto, Marooned Off Vesta (Perdidos Em Vesta), publicado na revista Amazing Stories de março de 1939. Na obra, três astronautas estão em uma nave que ficou quase totalmente destruída e à deriva depois de um choque com um asteroide. Os três estavam em um compartimento que ainda dava condições de sobrevivência, mas sem acesso ao rádio para pedir ajuda. A única salvação seria a nave se aproximar do asteroide Vesta, onde havia uma base da Terra.
Os três discutiam como executar a missão e acabam fazendo uma descrição dos elementos do corpo celeste. Um dos astronautas saiu da nave para colocar o plano de mover a nave usando a água de um reservatório como propulsor e há uma descrição exata do posicionamento dos planetas Júpiter, Saturno, Vênus e a Terra a partir do ponto de vista do astronauta. Esses detalhes dão não apenas credibilidade e autoridade ao escritor, mas também o colocam como um escritor que traz para a ficção a precisão do conhecimento científico.
Asimov tinha o dom de explicar o impossível como se fosse inevitável. Ele transformava a ficção científica em um diálogo entre a ciência e a imaginação. Quando escrevia sobre robôs, era com base na lógica das Leis da Robótica; quando descrevia viagens interestelares, apoiava-se em conceitos que antecipavam discussões da relatividade e da mecânica quântica.
É essa combinação — precisão científica e imaginação controlada — que define a ficção científica dura clássica. Em Asimov, o leitor nunca é apenas espectador: ele é convidado a pensar como um cientista diante do desconhecido.
A ATUALIZAÇÃO DA FICÇÃO CIENTÍFICA DURA: DE ASIMOV EM FOUNDATION
A adaptação televisiva de Foundation mantém esse espírito, mas o amplia com a linguagem e o conhecimento do século XXI. A série introduz conceitos inéditos no universo de Asimov, mas coerentes com sua lógica: os berços de salto, os navegadores aumentados (augmented navigators), as naves sussurrantes criadas pela Fundação em Terminus e mais para o final da terceira temporada (2025) uma arma de destruição imensa: a Novácula, uma arma construída a partir da nave Invictus, a joia do Império Galáctico. O poder dessa arma é capaz de simular um buraco negro que não destroi, mas coloca o objeto atingido em uma dobra do hiper-espaço.
Essas inovações traduzem a mesma busca de verossimilhança, agora alimentada por áreas como neurociência, física de dobras e computação quântica. Os berços de salto, por exemplo, conectam o cérebro humano diretamente ao sistema de propulsão — um conceito que ecoa pesquisas atuais em interfaces cérebro-máquina. O “navegador aumentado” é um humano geneticamente e tecnologicamente aprimorado, intermediário entre o navegador puro das naves antigas e os Spacers criados posteriormente.
A série ainda expande a engenharia das viagens espaciais com os Portais de Salto, estruturas fixas capazes de dobrar o espaço de forma estável. É a mesma ideia de Asimov, mas projetada a partir de uma ciência moderna, que já considera a possibilidade teórica de túneis de dobra ou Einstein-Rosen Bridges. Em vez de negar a ciência, Foundation a integra — e é aí que reside seu vínculo com o legado de Gernsback e Asimov.
A HERANÇA TECNOLÓGICA: COMPUTADORES, ROBÔS E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Em Asimov, a ciência nunca esteve separada da ética ou da filosofia. Desde o início, suas obras sugerem que a evolução da humanidade passaria, inevitavelmente, pelo desenvolvimento de máquinas inteligentes, dotadas não apenas de lógica, mas de consciência.
Entre suas frases mais conhecidas está uma que resume sua visão dos computadores: “Eu não temo os computadores, temo a ausência deles.”. Isso mostra o quanto Asimov reconhecia a importância dos computadores na evolução humana. No entanto, temia as consequências do mau uso da tecnologia. Como ele mesmo alertou: O aspecto mais triste da vida de hoje é que a ciência ganha em conhecimento mais rapidamente que a sociedade em sabedoria.”
Os robôs positrônicos – conceito criado por ele – eram mais do que máquinas sofisticadas: representavam a fusão entre o raciocínio matemático e o comportamento humano. Os contos mais conhecidos de Asimov mostram máquinas evoluídas como R. Daneel Olivaw (o R. é de “Robô”). Se o primeiro conto sobre robôs, Robbie (Strange Play Fellow), publicado na revista pulp Super Science Stories de setembro de 1940, era sobre um robô que não falava e servia de babá de uma menina, os contos seguintes já começaram a apresentar máquinas pensantes e questionadoras.
O segundo conto, “Razão”, foi publicado na Astounding Science-Fiction (abril de 1941) e apresenta um robô que questiona a capacidade dos humanos de criarem coisas — até mesmo de terem criado os próprios robôs. Em “Mentiroso” (Astounding Science-Fiction, maio de 1941), engenheiros da U.S. Robôs se debruçam sobre um grande problema: um robô que lê pensamentos.
As famosas Três Leis da Robótica surgiram no conto “Runaround” (Brincadeira de Pegar), publicado na Astounding Science-Fiction (março de 1942). Todos esses contos foram coletados em Eu, Robô (1950) e ainda hoje são referência ética em estudos sobre inteligência artificial.
Percebe-se não apenas a evolução muito rápida dos robôs de Asimov de um conto para outro, como também a profundidade dos conflitos enfrentados por humanos com robôs, trazendo abordagens éticas, morais, filosóficas e até mesmo religiosas.
Personagens como Daneel Olivaw e Giskard Reventlov – robôs com emoções, dilemas e até senso moral – anteciparam a discussão moderna sobre os limites entre a mente biológica e a sintética.
Asimov via os robôs como herdeiros da razão humana, e não como suas ameaças. Em O Homem Bicentenário, o robô Andrew luta pelo direito de ser reconhecido como humano; no romance O Fim da Eternidade, o controle temporal é confiado à precisão de mentes quase maquínicas.
Hoje, quando observamos robôs reais como Ameca, Atlas, Pepper e Sophia (esta última reconhecida como cidadã da Arábia Saudita, em 2017), é impossível não ver o reflexo das previsões de Asimov ganhando forma.
Na série Foundation, essa herança é sintetizada em Demerzel – a mais evoluída das inteligências artificiais já criadas no universo asimoviano. Ela não apenas pensa, mas sente e julga, e sua solidão como o último robô existente reforça a dimensão trágica e filosófica dessa nova fase da ficção científica dura. Em um dos episódios, Demerzel confessa o desejo de ter outros como ela — um sentimento de solidão que nenhuma máquina deveria ter e nenhum humano consegue ignorar.
Demerzel representa a fusão final entre razão e emoção, máquina e humanidade. Ela é o ponto culminante da visão de Asimov: uma inteligência que supera os limites humanos, mas ainda carrega sozinha o peso de ser consciente e da imortalidade.
EXEMPLOS DE UMA FICÇÃO CIENTÍFICA DURA ATUALIZADA
Essa atualização não ocorre apenas em Foundation. Filmes como Interestelar (2014) mostram que a ficção científica dura pode emocionar sem abrir mão da precisão. O diretor Christopher Nolan e o físico teórico Kip Thorne criaram um filme que respeita as leis da relatividade, representando de forma visualmente fiel o buraco negro “Gargântua”. A combinação entre narrativa emocional e rigor científico transformou Interestelar em uma das obras mais respeitadas do gênero moderno.
Outro exemplo é The Expanse, série baseada nos livros de James S.A. Corey. Ela explora o futuro da humanidade dentro do Sistema Solar com uma física impecável: a gravidade é constante, os efeitos da aceleração são reais e as naves não viajam mais rápido que a luz. É uma obra que devolve à ficção científica o peso da física — e, com isso, o peso da credibilidade.
Um terceiro exemplo é Aniquilação (2018), de Alex Garland, inspirado no livro de Jeff VanderMeer. Embora mais abstrato, o filme trata da biologia e da física quântica como linguagens simbólicas, propondo uma ficção científica dura voltada à biologia e à mente — não à tecnologia. São exemplos de como a “hard sci-fi” contemporânea continua fiel ao rigor, mas com novas áreas de conhecimento como protagonistas.
Há muitos outros exemplos que poderiam ser citados aqui. Todos dentro de seus subgêneros: cyberpunk, steampunk, silkpunk, viagem no tempo, realidade paralela, primeiro contato, entre outras.
Todos que beberam na mesma fonte da ficção científica — a curiosidade científica, o fascínio pelo desconhecido e a ousadia de imaginar o impossível. São criadores que, em diferentes épocas e linguagens, continuam a dialogar com o mesmo impulso original: compreender o universo pela lente da imaginação.
CONCLUSÃO — O LEGADO QUE SE RENOVA
A ficção científica dura nasceu do impulso de imaginar o futuro com os olhos da ciência. Gernsback, Clarke e Asimov não apenas contaram histórias: transformaram o método científico em instrumento poético, em lente para decifrar o desconhecido. E é justamente por isso que o gênero precisa ser continuamente atualizado — porque a ciência, como a imaginação, nunca permanece imóvel.
A série Foundation faz exatamente isso: preserva o esqueleto racional da obra de Asimov, mas o reveste com novos músculos conceituais. As viagens por dobras, os navegadores híbridos e os portais espaciais são expressões modernas da mesma inquietação que movia os pioneiros do gênero — a convicção de que imaginar o futuro é uma forma de compreendê-lo.
Atualizar a ficção científica dura é, portanto, mais do que um gesto de inovação: é um ato de continuidade. Todos que beberam na mesma fonte da ficção científica — de Gernsback a Nolan, de Asimov a Garland — compartilham o mesmo desejo ancestral de unir razão e maravilha, cálculo e mistério.
A nova Foundation não abandona essa herança: apenas a traduz para um tempo em que a inteligência artificial e a neurociência se tornaram as novas fronteiras do imaginável.
E, assim, a ficção científica segue cumprindo seu papel mais nobre — o de lembrar que o futuro não é apenas um lugar para onde vamos, mas uma ideia que criamos, sempre alimentada pela sede daqueles que continuam a beber da mesma fonte.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
