A Segunda Trilogia da Fundação: Continuação ou Ruptura
A série da “Fundação”, de Isaac Asimov, é composta por sete livros. Porém, a família do escritor autorizou outras três obras que preenchem algumas clacunas do grande universo de Asimov.
INTRODUÇÃO: UMA NOVA TRILOGIA NO UNIVERSO DE ASIMOV
Com autorização da família de Isaac Asimov, foi criada, entre os anos de 1997 e 1999, uma nova trilogia ambientada no universo da Fundação. Escrita por três autores distintos — Gregory Benford, Greg Bear e David Brin — a chamada Segunda Trilogia da Fundação busca expandir os horizontes do universo criado por Asimov, explicando lacunas narrativas, aprofundando personagens e introduzindo temas próprios da ficção científica contemporânea, como realidades virtuais, consciências digitais e inteligências artificiais evoluídas.
A proposta pode parecer interessante à primeira vista: retornar ao universo da Fundação com ferramentas narrativas modernas e uma linguagem adaptada ao século XXI. No entanto, essa tentativa levanta uma questão inevitável: essas obras são realmente necessárias? Ou são tentativas de prolongar artificialmente um universo que já havia se encerrado com coerência e elegância?
Mais do que isso, seria legítimo inserir conceitos modernos em uma obra que foi criada com base em outro olhar sobre ciência, tecnologia e sociedade?
ISAAC ASIMOV: UM AUTOR DE SEU TEMPO
Isaac Asimov foi, além de um dos grandes nomes da ficção científica, um pensador profundamente comprometido com o conhecimento. Cientista de formação, professor de bioquímica e ensaísta prolífico, escreveu centenas de livros sobre os mais diversos temas — da física à Bíblia, da história à inteligência artificial.
No campo da ficção científica, sua grande contribuição foi unir a especulação científica com rigor lógico e um profundo interesse pelas consequências sociais do avanço tecnológico. A série Fundação é exemplo maior desse espírito.
Criada inicialmente como uma série de contos publicados na década de 1940, a obra foi inspirada diretamente na história da queda do Império Romano. Asimov imaginou um futuro distante onde um vasto Império Galáctico entraria inevitavelmente em colapso, e apenas a ciência — no caso, a psicohistória, uma mistura fictícia de matemática, estatística e sociologia — poderia minimizar o caos resultante.
A Fundação não nasceu de especulações sobre máquinas inteligentes ou universos digitais, mas de uma preocupação com o destino das civilizações, com a fragilidade das instituições e com a esperança de que a razão pudesse orientar a humanidade mesmo nos momentos mais sombrios.
A SÉRIE FUNDAÇÃO: UMA CONSTRUÇÃO COERENTE
A obra de Asimov evoluiu de forma orgânica, tanto na sua cronologia de publicação quanto na narrativa interna. A seguir, um panorama dos principais livros:
1. Trilogia Original da Fundação de Asimov
- Fundação (1951)
Apresenta a criação da Primeira Fundação por Hari Seldon, um cientista que prevê a queda do Império Galáctico. A Fundação é criada como um núcleo de preservação do conhecimento e de reorganização futura da galáxia. - Fundação e Império (1952)
A Fundação cresce, mas enfrenta um evento imprevisto: o surgimento do Mulo, um mutante com poderes mentais que ameaça toda a estrutura da psicohistória. - Segunda Fundação (1953)
Após a ameaça do Mulo, inicia-se a busca pela mítica Segunda Fundação, responsável por preservar e corrigir o Plano Seldon. Uma guerra silenciosa se desenrola entre a Primeira e a Segunda Fundação.
2. Expansões e Prequelas de Asimov
- Os Limites da Fundação (1982)
Golan Trevize é enviado a Gaia, um planeta onde todos compartilham uma consciência coletiva. Lá, ele deve decidir o destino da galáxia: um segundo Império, a dominação pela Segunda Fundação ou a evolução da galáxia em uma mente coletiva. - Fundação e Terra (1986)
Em busca da origem da humanidade, Trevize viaja por planetas abandonados e descobre informações sobre a Terra e o papel de entidades robóticas como R. Daneel Olivaw. - Prelúdio à Fundação (1988)
Relata a juventude de Hari Seldon, seus primeiros estudos sobre psicohistória e sua fuga de forças políticas que desejam controlar seu conhecimento. - Origens da Fundação (1993)
Mostra os últimos anos de Seldon, já sob o título de Primeiro-Ministro, enquanto luta para deixar seu plano finalizado e protegê-lo de ameaças internas.
Embora esses livros tenham sido escritos em diferentes momentos da vida de Asimov, todos compartilham de uma coesão temática e narrativa. O autor soube ajustar os elementos antigos e novos com inteligência, respeitando o tom e os limites de seu universo.
A SEGUNDA TRILOGIA DA FUNDAÇÃO: EXPANSÃO OU INTERVENÇÃO?
Origem da Trilogia
A trilogia foi criada após a morte de Asimov, como parte de um esforço editorial para manter o interesse no universo da Fundação. Autorizada pela família, a chamada Second Foundation Trilogy foi escrita por três nomes importantes da ficção científica norte-americana: Gregory Benford, Greg Bear e David Brin.
Embora respeitados e competentes, os três autores escreveram suas obras com abordagens e estilos muito distintos entre si — e bastante distantes da simplicidade racionalista que marca a escrita de Asimov.
Medo da Fundação (Foundation’s Fear, Gregory Benford, 1997)
Ambientado durante os anos iniciais da carreira de Hari Seldon, o livro mostra as dificuldades políticas e sociais enfrentadas por ele para desenvolver a psicohistória. O destaque vai para a inserção de conceitos como realidades virtuais, consciências digitais simuladas e debates filosóficos entre representações de Voltaire e Rousseau recriadas em uma rede digital.
É o livro mais experimental dos três, e talvez o mais distante do tom clássico da Fundação. Ao explorar universos simulados e inteligência artificial como forma de especulação filosófica, a obra soa mais próxima de autores como William Gibson do que de Asimov.
Fundação e Caos (Foundation and Chaos; Greg Bear, 1998)
Este livro se passa paralelamente aos eventos da primeira Fundação, e explora o papel de personagens como Eto Demerzel (R. Daneel Olivaw), Dors Venabili e Yugo Amaryl. O tema central gira em torno do livre-arbítrio versus o controle rígido da psicohistória e da presença robótica nos bastidores da história galáctica.
Embora mais coeso e próximo da atmosfera original, o livro ainda recorre a debates éticos modernos e a discussões que Asimov evitava ou tratava com muito mais sutileza.
Triunfo da Fundação (Foundation’s Triumph; David Brin, 1999)
Neste volume final, acompanhamos os últimos dias de Hari Seldon, que já sente o peso da idade e das decisões que moldaram a galáxia. Brin tenta unificar todas as pontas soltas da obra de Asimov — ligando robôs, Gaia, Império e psicohistória em uma narrativa quase totalizante.
Há uma clara tentativa de “fechar” o universo da Fundação, o que acaba por contrariar a abertura criativa que Asimov sempre deixou. Ao buscar respostas definitivas para questões que o autor original deixava em aberto, Brin enfraquece parte do mistério que dava profundidade à série.
CONCLUSÃO: UMA TRILOGIA NECESSÁRIA?
A trilogia escrita por Benford, Bear e Brin pode ser lida como uma curiosidade literária — um exercício de imaginação dentro do universo da Fundação. No entanto, é importante deixar claro que ela não pertence ao cânone original, nem deveria ser usada como base para interpretar ou explicar as obras de Asimov.
A Fundação é uma obra profundamente marcada por seu tempo — e é justamente isso que a torna tão valiosa. A inserção de conceitos contemporâneos pode enriquecer outras narrativas, mas aqui soa como um corpo estranho. Asimov não falava de realidades virtuais ou consciências digitais porque esses não eram os problemas e os temas centrais de sua época. Ele falava de civilizações, de decadência, de ciência como forma de redenção.
Se estivesse vivo hoje, Asimov não adaptaria a Fundação ao nosso tempo. Criaria outra coisa. E por isso, talvez, a maior homenagem que se pode fazer ao seu legado é deixá-lo como ele é: completo, coeso, atemporal na sua fidelidade ao tempo em que nasceu.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
