Além da Fenda de Áquila: Terror psicológico
A série de ficção científica, “Love, Death & Robots“, disponível na Netflix, mistura vários gêneros e formatos de animação e live action. No entanto, o episódio “Além da Fenda de Áquila” é, realmente, perturbador.
Paulo Bocca Nunes
Entre os muitos episódios que compõem a série antológica Love, Death & Robots, produzida por David Fincher e Tim Miller para a Netflix, poucos causam tanto desconforto — e fascínio — quanto “Beyond the Aquila Rift” (Além da Fenda de Áquila). Lançado na primeira temporada da série, esse conto de terror espacial condensado em 17 minutos entrega um soco emocional disfarçado em romance nostálgico.
Sobre a Série
Love, Death & Robots é uma antologia de animação da Netflix criada por Tim Miller e produzida por David Fincher. A série reúne episódios independentes com estilos de animação variados — do 2D estilizado ao 3D hiper-realista — explorando temas como inteligência artificial, viagem espacial, guerra, futuro distópico e existencialismo. Cada episódio é uma experiência única, misturando ficção científica, horror, ação e até comédia, sempre com um toque provocativo.
Os episódios são, em sua maioria, adaptações de contos de ficção científica, fantasia e terror escritos por autores renomados. Na primeira temporada, por exemplo, 16 dos 18 episódios foram baseados em histórias já publicadas, com roteiros adaptados principalmente por Philip Gelatt. Autores como Alastair Reynolds, John Scalzi, Joe R. Lansdale, Neal Asher, Harlan Ellison e Bruce Sterling tiveram suas obras transformadas em animações pela série. No entanto, há também episódios originais, como “The Witness”, que não se baseiam em material pré-existente.
Uma premissa que começa como ficção científica clássica
A história do episódio “Além da Fenda de Áquila” (Beyond the Aquila Rift), segundo episódio da primeira temporada, segue uma tripulação que desperta de um salto hiperespacial — um “salto errado”, que os leva para um lugar completamente desconhecido. Isolados em uma parte inexplorada do cosmos, eles se deparam com um ambiente aparentemente familiar, onde o protagonista Thom reencontra uma figura de seu passado: Greta, uma antiga paixão que surge como a única presença humana nesse canto esquecido do universo.
Aos poucos, o tom do episódio muda do reencontro romântico para uma sensação crescente de estranhamento. Algo não se encaixa. E quando a verdade é revelada, o espectador se vê diante de um terror silencioso, desesperador, que não precisa de gritos para causar impacto.
Terror espacial psicológico: mais Solaris que Alien
Embora o episódio se situe no espaço e envolva uma criatura alienígena, ele não se encaixa no molde do terror espacial tradicional, como Alien (1979), com perseguições e monstros em corredores apertados. A abordagem aqui é outra.
Há um parentesco muito mais próximo com filmes como:
- Event Horizon (1997): onde o espaço funciona como espelho para o trauma e o colapso da mente.
- Solaris (1972, de Tarkovski, e o remake de 2002): ambos exploram como o espaço pode dar forma às memórias e criar simulações baseadas em nossos desejos e culpas.
Em Além da Fenda de Áquila, o horror está justamente na fragilidade da percepção humana diante do desconhecido — e na decisão de uma entidade alienígena de poupar os humanos da verdade. O choque final, onde a ilusão se desfaz e a criatura aracnídea é revelada, não é apenas grotesco. É um lembrete sombrio de que nem sempre estamos prontos para a realidade.
A ilusão como consolo (ou prisão)
O subtexto do episódio é rico, mesmo que não seja aprofundado devido ao formato curto. Podemos extrair algumas reflexões:
- A ilusão construída pela criatura é um gesto de compaixão ou manipulação?
- Thom é vítima de um engano ou ele prefere acreditar na mentira?
- O episódio sugere que o conforto emocional pode ser mais importante que a verdade factual, especialmente em situações extremas.
Essa ideia ecoa uma das perguntas mais inquietantes da ficção científica: “Você aceitaria viver uma mentira, se ela fosse doce o bastante?”
Estética e animação hiper-realista
Uma das grandes surpresas de Além da Fenda de Áquila é a técnica de animação ultra-realista que, por vários minutos, esquecemos que estamos vendo uma animação. Somente mais perto do final, com os efeitos visuais mais evidentes e a mudança de tom, essa camada se torna perceptível. Isso não é apenas um feito tecnológico — é também um comentário sutil sobre percepção e ilusão, já que o próprio protagonista está imerso em uma realidade construída, quase perfeita, mas falsa. A ilusão visual do episódio espelha a ilusão narrativa. Isso contribui para a imersão — e para o impacto da revelação no final do episódio.
Essa técnica, chamada com frequência de “uncanny realism”, ou realismo perturbador, serve tanto à estética quanto ao conteúdo do episódio. Porque a própria confusão entre o real e o simulado é parte da experiência.
A técnica por trás da ilusão
O realismo impressionante de Além da Fenda de Áquila se deve ao trabalho do estúdio Blur Studio, cofundado por Tim Miller (diretor de Deadpool). A equipe utilizou uma combinação de captura de movimento (motion capture) com animação digital de alta resolução, o que permite reproduzir expressões faciais, movimentos corporais e texturas com incrível fidelidade. Esse tipo de animação, muitas vezes confundido com live-action, contribui para o impacto emocional do episódio, pois reforça a sensação de realidade dentro de uma ilusão fabricada — tanto para o protagonista quanto para o espectador.
Conclusão: o espaço como espelho do medo
Beyond the Aquila Rift não entrega uma narrativa grandiosa ou respostas definitivas. Ele se apoia no desconforto, no não dito, e na inversão de expectativas. Começa como ficção científica romântica e termina como pesadelo existencial.
Um episódio memorável não apenas pelo seu final impactante, mas porque nos força a confrontar algo ainda mais assustador que uma criatura do espaço: a fragilidade da mente humana diante do desconhecido.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
