De Onde Vieram os “Homenzinhos Verdes”
Paulo Bocca Nunes
Poucas imagens são tão imediatamente reconhecíveis quanto a do alienígena clássico: uma criatura de baixa estatura, pele verde ou acinzentada, cabeça grande e careca, olhos enormes e escuros, quase sempre silenciosa e enigmática. Esse retrato parece tão natural que raramente paramos para perguntar de onde ele veio. No entanto, o chamado estereótipo dos “homenzinhos verdes” não surgiu de uma única fonte. Ele é o resultado de séculos de narrativas, medos, especulações científicas, episódios curiosos e, sobretudo, da força do entretenimento e da cultura popular.
RAÍZES ANTIGAS: SERES ESTRANHOS MUITO ANTES DOS EXTRATERRESTRES
A ideia de criaturas humanoides com aparência incomum antecede em muito qualquer noção moderna de vida fora da Terra. Lendas, mitos e folclores europeus estão repletos de seres que se parecem conosco, mas não são exatamente humanos. Goblins, fadas, duendes e outros personagens do imaginário popular frequentemente apresentam pele de cores incomuns, comportamento estranho e hábitos alimentares peculiares. Essas figuras funcionavam como explicações simbólicas para o desconhecido, para aquilo que escapava à compreensão cotidiana.
Um dos relatos mais curiosos nesse sentido vem da Inglaterra do século XII: a história das chamadas “crianças verdes”. Segundo a lenda, um menino e uma menina foram encontrados em um campo com a pele esverdeada, falando uma língua incompreensível e recusando-se a comer alimentos comuns. Com o tempo, eles teriam se adaptado, mas a estranheza de sua origem nunca foi totalmente explicada. Séculos depois, esse tipo de narrativa passaria a ser reinterpretado à luz da ideia de mundos distantes e seres de outros planetas.
O NASCIMENTO DO TERMO “HOMENZINHOS VERDES”
Já no final do século XIX, o imaginário começou a ganhar contornos mais claramente extraterrestres. Em 1899, um conto publicado no jornal The Atlanta Constitution apresentou uma criatura descrita como um pequeno ser verde vindo de um planeta chamado Hurrah. É nesse período que a expressão “little green men” passa a ser usada de forma mais direta para se referir a seres alienígenas, consolidando uma associação que ainda estava em formação.
Pouco depois, a literatura de ficção científica começou a ampliar esse repertório. No início do século XX, Edgar Rice Burroughs, criador de Tarzan, publicou a série Barsoom, ambientada em Marte. Seus marcianos eram verdes, mas estavam longe de serem pequenos ou frágeis: eram altos, fortes e guerreadores. Ainda assim, a ideia de alienígenas verdes ganhava espaço e se fixava no imaginário popular, mesmo que em versões variadas.
CABEÇAS GRANDES, OLHOS ENORMES E O FUTURO DA HUMANIDADE
Enquanto alguns autores imaginavam marcianos exóticos, outros projetavam o futuro da própria humanidade. Em 1893, H. G. Wells descreveu, em Man of the Year Million, uma possível evolução dos humanos: seres de cabeças grandes, corpos frágeis, olhos ampliados e pouca musculatura. Essa imagem, criada como uma extrapolação científica e filosófica, acabou influenciando profundamente a forma como alienígenas seriam retratados depois. Afinal, se o futuro humano parecia caminhar nessa direção, por que criaturas mais avançadas de outros planetas não seriam semelhantes?
Essa combinação — alienígenas verdes, humanoides, com cabeças grandes e olhos expressivos — começou a se repetir em livros, revistas e, mais tarde, em outras mídias. O padrão estava se formando.
O IMPACTO DE A GUERRA DOS MUNDOS E A FORÇA DO RÁDIO
Um ponto de virada decisivo ocorreu em 1938, quando Orson Welles transmitiu pelo rádio sua adaptação de A Guerra dos Mundos. Apresentada como se fosse uma cobertura jornalística ao vivo, a história causou pânico em parte da população norte-americana, que acreditou estar diante de uma invasão real. Mais do que o susto coletivo, o episódio consolidou os alienígenas como uma ameaça plausível, presente e assustadora.
A partir daí, o extraterrestre deixou de ser apenas uma curiosidade literária para se tornar um elemento central da cultura pop. Filmes, séries e livros passaram a explorar incessantemente essas criaturas, fixando características visuais que se tornaram familiares ao público.
O CASO DE KELLY, KENTUCKY: QUANDO O MITO GANHOU TESTEMUNHAS
Em 1955, o estereótipo ganhou um reforço inesperado no mundo real. Na pequena comunidade rural de Kelly, no Kentucky, uma família inteira afirmou ter sido cercada durante horas por estranhas criaturas humanoides. O episódio, conhecido como o Incidente de Hopkinsville ou “cerco dos homenzinhos verdes”, envolveu onze testemunhas visivelmente aterrorizadas, incluindo mulheres e crianças.
Segundo os relatos, os seres tinham cerca de um metro de altura, cabeças grandes e arredondadas, olhos brilhantes, braços longos e mãos em forma de garras. Sua pele parecia metálica ou prateada, refletindo a luz da lua, e eles pareciam imunes aos disparos de armas de fogo. A descrição impressiona não apenas pelo detalhe, mas pela consistência entre os depoimentos.
Embora a polícia não tenha encontrado provas físicas conclusivas, o caso ganhou enorme repercussão na imprensa, inclusive nacional. Com o tempo, surgiram explicações alternativas — de corujas-orelhudas confundidas no escuro a exageros ou interpretações equivocadas. Ainda assim, o episódio ajudou a solidificar no imaginário coletivo a figura do pequeno humanoide estranho, reforçando a associação entre alienígenas e “homenzinhos”.
CULTURA POP: DO MEDO AO CARISMA
A partir da segunda metade do século XX, os alienígenas passaram a ocupar todos os gêneros do entretenimento. Do terror à comédia, da ficção científica “séria” às animações infantis, eles se tornaram figuras onipresentes. Séries como Star Trek e Doctor Who, filmes como Toy Story e Star Wars — com personagens icônicos como Yoda — ajudaram a suavizar a imagem do alienígena, transformando-o muitas vezes em uma figura sábia, amigável ou até cômica.
Nesse processo, o visual clássico foi sendo repetido, adaptado e simplificado, até se tornar quase um símbolo gráfico: basta um boneco verde de olhos grandes para que todos entendam do que se trata.
CIÊNCIA, EVOLUÇÃO E O QUESTIONAMENTO DO ESTEREÓTIPO
Curiosamente, enquanto a cultura pop consolidava essa imagem, a ciência começou a questioná-la. Pesquisadores da Universidade de Oxford sugerem que, se a vida extraterrestre existir, ela provavelmente seguirá princípios evolutivos semelhantes aos da Terra. Isso não significa que alienígenas tenham necessariamente pele verde ou olhos enormes, mas que possam compartilhar certas características funcionais com espécies terrestres.
Segundo essa perspectiva, o estereótipo dos “homenzinhos verdes” diz menos sobre como alienígenas realmente seriam e mais sobre como os humanos imaginam o desconhecido. Trata-se de uma projeção cultural, moldada por mitos antigos, literatura, eventos históricos, relatos curiosos e, principalmente, pela repetição incessante dessas imagens ao longo do tempo.
OS HOMENZINHOS VERDES NAS TELAS, NOS QUADRINHOS E NA IMAGINAÇÃO POPULAR
Com a consolidação do estereótipo ao longo da primeira metade do século XX, era apenas uma questão de tempo até que os “homenzinhos verdes” encontrassem um espaço definitivo nas mídias de massa. Cinema e quadrinhos, em especial, tornaram-se terrenos férteis para a disseminação dessa imagem, que passou a funcionar quase como um atalho visual: bastava um pequeno ser verde, de olhos grandes e cabeça desproporcional, para que o público reconhecesse imediatamente a presença de algo vindo de outro mundo.
No cinema, esse estereótipo se fortaleceu sobretudo a partir dos anos 1950, período marcado pela popularização da ficção científica e pela ansiedade coletiva em torno de invasões, tecnologia e ameaças externas. Embora muitos filmes da época apresentassem alienígenas com aparência humanoide “normal”, outros recorreram deliberadamente à figura do pequeno ser estranho, evocando tanto o medo quanto o fascínio pelo desconhecido. Produções exibidas repetidamente na televisão ao longo das décadas seguintes ajudaram a fixar essa imagem no imaginário de gerações inteiras, especialmente nos anos 1960 e 1970, quando essas obras passaram a circular com frequência fora das salas de cinema.
Em “Invaders from Mars”, de 1953, o estereótipo do alienígena ganha contornos mais próximos do medo infantil e da paranoia coletiva. O filme, de 1953 com direção de William Cameron Menzies, apresenta criaturas pequenas, deformadas e controladoras, escondidas sob a superfície de uma invasão silenciosa. Mesmo sem homenzinhos verdes propriamente ditos, a ideia de seres diminutos, estranhos e manipuladores reforça o arquétipo do alienígena ameaçador que se infiltraria no cotidiano humano. A história acompanha um garoto que testemunha a queda de um objeto vindo do espaço e passa a suspeitar que adultos ao seu redor estão sendo controlados por alienígenas. À medida que a invasão se infiltra silenciosamente na comunidade, o filme constrói um clima de paranoia e desconfiança crescente. A obra reflete os medos da época ao retratar o alienígena como uma presença oculta e manipuladora, mais insinuante do que visível.
Um caso emblemático é Mars Attacks!, cuja origem remonta a uma série de cards colecionáveis lançados em 1962 pela Topps. Neles, os marcianos eram caricaturas explícitas dos alienígenas clássicos: pele verde, olhos saltados, cérebros expostos e um comportamento cruel quase cômico. Tudo no estilo anos 50. Essa estética seria recuperada e amplificada na adaptação cinematográfica dirigida por Tim Burton, em 1996, que assumiu de forma consciente o exagero e a sátira. O sucesso do filme não apenas homenageou a ficção científica dos anos 1950, como também reafirmou o quanto o estereótipo dos homenzinhos verdes já estava profundamente enraizado na cultura pop. A história mostra marcianos chegando à Terra prometendo paz, mas rapidamente revelam intenções destrutivas. O filme ridiculariza autoridades, militares e a própria reação humana ao desconhecido, a obra funciona como uma paródia consciente dos filmes de invasão da era da Guerra Fria. Em conjunto com o filme, foram lançados dois romances em capa dura: Marte Ataca: Armadilha Mortal Marciana, de Nathan Archer; e Marte Ataca: Cães de Guerra da Horda Dourada, de Ray W. Murrill.
Outro exemplo é o filme “The Thinks Of The Other World” (A Coisa do Outro Mundo), dirigido por Christian Nyby. Mesmo sendo um filme em preto e branco, os cartazes da divulgação mostram um ser com aspecto humanoide de cor verde. A trama do filme gira em torno de uma equipe da Força Aérea dos Estados Unidos e cientistas que encontram um disco voador acidentado congelado no gelo do Ártico e um corpo humanoide nas proximidades. Ao retornarem ao seu remoto posto de pesquisa no Ártico com o corpo ainda preso em um bloco de gelo, eles são forçados a se defenderem do alienígena vegetal ainda vivo e malévolo, que é acidentalmente descongelado.
Dois filmes bastante emblemáticos que tratam mais do estranhamento em relação ao alienígena são “The Day the Earth Stood Still” de 1951. Não apresenta um “homenzinho verde” no sentido clássico, mas esse filme é fundamental para o imaginário alienígena. Klaatu, o visitante vindo do espaço, tem aparência humana, mas carrega um forte estranhamento simbólico: sua postura fria, seu conhecimento superior e seu distanciamento emocional reforçam a ideia do extraterrestre como algo além da compreensão humana. A obra ajudou a consolidar o alienígena como figura moral e filosófica, não apenas como monstro.
O outro filme é “It Came from Outer Space”, de 1953. Mais contemplativo e ambíguo, o filme propõe uma visão menos simplista do contato extraterrestre. Os alienígenas não são vistos claramente durante grande parte da narrativa, o que intensifica o estranhamento e a tensão. Ainda assim, a obra contribui para o estereótipo ao sugerir seres fisicamente diferentes, silenciosos e observadores, reforçando a noção de que o alienígena — pequeno ou não — é sempre algo deslocado em relação ao mundo humano.
Esses filmes, cada um à sua maneira, ajudaram a sedimentar o vocabulário visual e simbólico que daria origem ao estereótipo dos homenzinhos verdes, mesmo quando eles não aparecem literalmente em cena.
Os quadrinhos, por sua vez, talvez tenham sido ainda mais decisivos na consolidação desse imaginário. Desde as revistas pulp e as primeiras HQs de ficção científica, alienígenas verdes e humanoides apareciam com frequência, muitas vezes como vilões genéricos ou invasores de planetas distantes. Na DC Comics, a criação do Caçador de Marte, em 1955, deu uma dimensão mais complexa ao conceito: embora não fosse pequeno nem cômico, ele pertencia a uma raça de marcianos verdes, reforçando a associação entre Marte e seres de pele esverdeada. Já em histórias mais antigas e humorísticas, pequenos marcianos verdes surgiam como ameaças caricatas ou figuras excêntricas, refletindo o tom sensacionalista e imaginativo da época.
Na Marvel — e antes dela, na Atlas Comics — esse tipo de criatura também era recorrente. Muitas histórias curtas apresentavam alienígenas verdes de baixa estatura, com grandes olhos e comportamentos estranhos, frequentemente usados como metáforas para o medo do “outro” ou para críticas sociais veladas. O visual não precisava de grandes explicações: ele já comunicava, por si só, a ideia de algo não humano e potencialmente perigoso.
Ao longo das décadas, o estereótipo foi sendo reciclado, suavizado ou parodiado. Em animações e histórias voltadas ao público infantil, os homenzinhos verdes passaram a assumir papéis mais amigáveis ou cômicos, tornando-se personagens curiosos, atrapalhados ou até simpáticos. Esse deslocamento do terror para o humor mostra como a figura do alienígena verde deixou de ser apenas uma ameaça para se tornar um ícone reconhecível, capaz de transitar entre gêneros e públicos.
LITERATURA E PULP FICTION
Antes mesmo de o cinema popularizar a imagem do alienígena clássico, a literatura — especialmente a ficção científica publicada em revistas pulp — já explorava com intensidade a figura do “homenzinho verde” vindo do espaço. Entre as décadas de 1930 e 1950, essas publicações exibiam com frequência, tanto nas capas quanto nas histórias internas, alienígenas verdes, humanoides, muitas vezes pequenos, com cabeças desproporcionais e olhos grandes e brilhantes.
Esses seres surgiam em diferentes papéis narrativos: ora como vilões ameaçadores, ora como observadores curiosos da humanidade, ou mesmo como representantes de civilizações tecnologicamente superiores. Uma das revistas em que esse tipo de representação aparece de forma mais recorrente é a Amazing Stories, referência fundamental da ficção científica popular. Na edição de agosto de 1939, por exemplo, a capa traz a história Warriors of Mars, de Arthur Tofte, destacando um alienígena marciano de pele verde que, embora não seja pequeno, carrega em cada mão uma espada, combinando exotismo extraterrestre e imagética guerreira.
Outro exemplo marcante aparece na edição de outubro de 1940 da mesma revista, com a história Raiders Out of Space, de Robert Moore Williams. Nesse caso, a figura em destaque não é exatamente um humanoide, mas um robô verde, demonstrando como a cor e o estranhamento visual já funcionavam como sinais imediatos do “não humano”. Representações semelhantes podem ser encontradas em outras publicações importantes da época, como Astonishing Stories (novembro de 1941) e Astounding Science Fiction (junho de 1935), confirmando que o estereótipo visual do alienígena verde já estava bem estabelecido no imaginário literário antes de migrar definitivamente para o cinema e a televisão.
UM ESPELHO DA IMAGINAÇÃO HUMANA
No fim das contas, os “homenzinhos verdes” são menos um retrato do universo e mais um espelho da nossa própria criatividade, medos e fascínio pelo que está além da Terra. Eles nasceram de lendas medievais, ganharam forma na ficção científica do século XIX, se consolidaram no entretenimento do século XX e permanecem vivos até hoje como um dos símbolos mais duradouros da cultura pop.
Se um dia encontrarmos vida fora do planeta, é bem possível que ela não se pareça em nada com esses pequenos seres de olhos grandes. Ainda assim, os homenzinhos verdes continuarão existindo — não como realidade científica, mas como uma das mais curiosas e persistentes criações da imaginação humana.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
