Brightburn: Quando Subverter o Superman Dá Errado
Uma produção que é apresentada muito mais pelos nome da produção e execução do que uma proposta que entregue um produto digerível.
Paulo Bocca Nunes
Brightburn é um filme com apenas uma ideia do gênero “e se…?“, ou seja, e se um bebê de outro planeta caísse na Terra e fosse adotado e criado por um simpático casal sem filhos que vive em uma fazenda? Essa ideia lhe parece familiar? Pois é muito mais que isso.
O filme apresenta Tori (Elizabeth Banks) e Kyle Breyer (David Denman) em seu quarto, cercados por livros de fertilidade e conversando sobre engravidar quando um objeto em chamas cai em seu campo. Os realizadores do filme devem presumir que todos conhecem a premissa básica, pois ela não ajuda em nada a explicar seja lá o que for, cortando imediatamente para vídeos caseiros e fofos que mostram um garotinho crescendo cercado de amor. Nesse ponto, você se sente tão apegado à família Breyer quanto se sentiria com a família em um comercial de cereal ou de margarina.
Quando essa parte inicial termina, Brandon Breyer (Jackson A. Dunn) está prestes a completar 12 anos. Ele é um garoto inteligente, muito além dos outros da sua turma, e sabe disso. Embora seja um estranho entre os colegas, o reforço positivo que recebe da professora, da mãe e de uma garota bonita da turma lhe sobe à cabeça e ele começa a acreditar que é superior a todos. Então, só podemos imaginar o que acontece quando um componente de força e algumas vozes demoníacas são adicionados à mistura — um supervilão nasce, e ele não está para brincadeira.
SOBRE O FILME
Brightburn (2019) se anuncia como uma provocação instigante: “E se o Superman fosse, na verdade, um vilão?” A premissa, em si, carrega um potencial considerável — especialmente para quem conhece os desdobramentos éticos e sociais que envolvem o mito do herói alienígena criado pela cultura norte-americana. No entanto, o que poderia ser um exercício de ficção científica ousado e reflexivo, se revela uma obra superficial, apelativa e confusa, que opta por um terror gráfico vulgar em detrimento de qualquer profundidade narrativa.
Assinado pelos roteiristas Brian e Mark Gunn — irmão e primo de James Gunn, que também participa da produção — o filme desperdiça a oportunidade de explorar com inteligência as possibilidades da chamada ficção especulativa. Ao invés disso, entrega uma sucessão de cenas violentas e sustos repetitivos, que beiram o clichê. O que poderia ser uma crítica ao arquétipo do herói ou uma alegoria sobre o medo do “outro” se resume a um desfile de mutilações grotescas e situações forçadas, sem justificativas dramáticas consistentes.
Narrativamente, Brightburn é preguiçoso. A origem alienígena do garoto é tratada como pano de fundo, quase um detalhe que justifica seus poderes — mas nunca é desenvolvida de forma coerente ou provocadora. Pior: a súbita “descoberta” de sua natureza e da tal “missão” na Terra ocorre sem gatilho claro, sem contexto, sem construção. É um despertar conveniente, quase automático, que insulta a inteligência do espectador.
Os personagens, por sua vez, são vazios, esquecíveis e muitas vezes irritantemente passivos. Brightburn não oferece figuras carismáticas, nem mesmo provocadoras ou reflexivas. Os pais adotivos, Kyle e Tori, se limitam ao estereótipo do casal que se sente abençoado por receber do céu um filho depois de anos tentando engravidar — mas não passam disso. Sua ingenuidade diante dos sinais de violência é inexplicável, e suas reações, muitas vezes, desafiam a lógica emocional.
Os tios de Brandon existem apenas para soltar algumas frases soltas e desaparecer. A psicóloga, que também é tia do garoto, representa o cúmulo da inutilidade dramática. O xerife, que poderia desempenhar um papel importante como figura de autoridade e equilíbrio, é tão irrelevante que sua eliminação só causa impacto pelo banho de sangue, não pela perda narrativa.
Um elemento que poderia gerar algum nível de complexidade — a chegada da puberdade e o surgimento da libido de Brandon — é tratado de forma pobre e unidimensional. Sua obsessão por uma única colega de classe (justamente a que ele agride violentamente) é abordada sem sensibilidade ou profundidade. A própria garota é tão mal construída que se torna invisível: uma personagem translúcida, sem vida, sem voz, sem função além de ser vítima. Sua mãe, por sua vez, está na mesma prateleira rasa de inutilidades dramáticas.
Os sustos, por sua vez, são numerosos — e logo se tornam previsíveis. A fórmula se repete tanto que qualquer impacto inicial se perde. O terror se esvazia. O público aprende o ritmo da direção, antecipa os eventos, e o medo dá lugar ao tédio.
Mas talvez o maior problema do filme seja sua recusa em dar sentido à própria narrativa. Quem envia Brandon? Qual o objetivo dessa “missão”? Por que ele desperta justamente naquele momento? Nada é respondido. No lugar de enigmas instigantes, temos lacunas que minam a lógica interna da história. E nos pós-créditos, uma insinuação de que tudo faz parte de um plano global — tão artificial quanto forçado, numa tentativa desesperada de criar um universo compartilhado que ninguém pediu.
Enquanto Brightburn tenta se vender como uma desconstrução sombria do super-herói clássico, na prática se revela apenas uma colagem de ideias mal aproveitadas. A provocação se perde em meio a um espetáculo de sangue vazio, sem reflexão, sem emoção, sem identidade. Ao final, resta a sensação de que a única coisa realmente subvertida aqui foi a paciência do espectador.
Se uma continuação está sendo cogitada, só podemos esperar — e torcer — para que nunca se concretize.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
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