Demerzel, A Ergosfera e o Futuro de Foundation
Ao fazer um contato neural com Gaal Dornick, Demerzel identificou a ergosfera de um buraco negro, uma estrutura cósmica impressionante, que pode mudar o futuro da galáxia.
Paulo Bocca Nunes
Há momentos em ficção científica em que uma ideia científica real — sólida, testada e ainda assim envolta em mistério — se cruza com um evento narrativo e faz a história ganhar outra dimensão. A terceira temporada de Foundation, série da Apple TV baseada na obra de Isaac Asimov, encontrou exatamente esse ponto de virada ao conectar Demerzel, Gaal Dornick e a presença enigmática de um buraco negro. Não foi apenas um recurso visual ou um toque de grandeza cósmica; essa escolha introduziu uma nova forma de interpretar o Império, o retorno dos robôs, o plano da Segunda Fundação, a ascensão da Mula Bayta e o papel de Gaal dentro do futuro da galáxia.
A ERGOESFERA E AS ONDAS GRAVITACIONAIS
Em um dos momentos mais enigmáticos do final da terceira temporada, vemos Demerzel estabelecer uma conexão mental com Gaal Dornick. Sua fala é perturbadora: em quatro meses, Gaal estaria orbitando a ergoesfera de um buraco negro, cercada por ondas gravitacionais de frequência tão baixa que apenas máquinas poderiam percebê-las. Esse detalhe, aparentemente técnico, está longe de ser um mero ornamento poético. Ele alinha a trama a conceitos sólidos da astrofísica moderna e abre novas possibilidades de leitura sobre o futuro da narrativa.
A menção à ergosfera remete diretamente à teoria da relatividade geral de Einstein. Buracos negros são regiões do espaço-tempo onde a gravidade é tão intensa que nada, nem mesmo a luz, consegue escapar. Quando giram, porém, formam ao seu redor uma região única: a ergoesfera.
Ali, o espaço-tempo não apenas se curva — ele é arrastado pela rotação do buraco negro, fenômeno conhecido como frame dragging. Dentro desse limite, nada pode permanecer parado. Tudo é empurrado no sentido da rotação, tornando possível, ao menos teoricamente, extrair energia desse movimento pelo chamado processo de Penrose. É um conceito que inspira cientistas e autores de ficção científica há décadas.
A fala de Demerzel vai além. Ela descreve uma “assinatura infrassônica” 65 oitavas abaixo do dó central: ondas gravitacionais emanando do buraco negro. Ondas gravitacionais são vibrações do próprio tecido do espaço-tempo, previstas por Einstein em 1916 e detectadas pela primeira vez em 2015 pelo observatório LIGO. Sua frequência está muito abaixo da audição humana, mas pode ser convertida em sons por instrumentos — como os icônicos chirps divulgados pelo próprio LIGO.
Para Gaal, a visão se traduz como escuridão total e uma vibração profunda. Do ponto de vista científico, essa representação é coerente: próximo a um buraco negro, a luz pode ser distorcida ou aprisionada, enquanto ondas gravitacionais podem ser percebidas apenas de forma indireta. A série usa esses elementos reais para intensificar o impacto da visão.
Se entendermos a ergosfera como uma região em que partículas podem ganhar energia ao serem arrastadas pela rotação, o espaço-limite torna-se, para a ficção científica, um ambiente ideal para:
- distorções temporais,
- mensagens vindas de futuros possíveis,
- encontros mentais improváveis,
- e o despertar de entidades artificiais.
Todos esses elementos podem surgir na quarta temporada, dada a forma como o final da terceira conectou ciência e enredo.
OS ACONTECIMENTOS DA TERCEIRA TEMPORADA
Se a fala de Demerzel nos leva à ciência, a narrativa da temporada nos conduz a reviravoltas dramáticas — e a indagar como tudo isso se relaciona.
O sacrifício de Demerzel ao tentar salvar o bebê Cleon é um dos momentos mais marcantes. Ao colocar seu corpo diante do raio desintegrador, ela é destruída, restando apenas a cabeça. Seus olhos piscam e se apagam, mas um detalhe chamou a atenção dos fãs: um código Morse soletrando “Conectado”.
Isso é crucial porque, antes, Demerzel explicara a Irmão Dia que robôs podiam se conectar e compartilhar uma mente coletiva, a chamada junção. O que parecia apenas uma ideia abstrata ganha forma prática em sua destruição. Talvez ela tenha transmitido sua consciência para uma rede robótica escondida, rompendo momentaneamente sua submissão à dinastia Cleônica.
Ao mesmo tempo, na Lua, Kalle e um robô percebem um sinal misterioso. O robô afirma que não veio de Demerzel, mas Kalle insiste que alguém deseja que eles entrem na luta. A sugestão é clara: existe uma rede robótica maior do que imaginávamos. A própria Demerzel já havia narrado a Kalle a história da guerra entre robôs e humanos na Biblioteca de Trantor.
Enquanto isso, o Império se transforma sob Crepúsculo, que se tornaria Escuridão. Movido por raiva e insegurança, ele extermina toda a linhagem de clones e assume o trono como único herdeiro legítimo — sem saber que Irmão Alvorada permanece vivo. Para impressionar seus inimigos e a Mula, ele revela a Novacula, arma capaz de destruir mundos alimentada pelo poder de um buraco negro artificial. Três planetas são destruídos numa demonstração de força. A temporada contrapõe dois extremos: o buraco negro real observado por Gaal e a arma imperial que imita essa força cósmica. A narrativa deixa claro: a próxima guerra será travada não só no campo militar, mas também no cósmico.
A revelação de Bayta como Mula é outro golpe narrativo. Nos livros, Bayta é a heroína que derrota o Mulo; na série, ela se revela a própria antagonista. A inversão desafia os leitores e redefine expectativas. Sua guerra será mental — e, ao contrário das forças gravitacionais extremas, a atividade do cérebro humano não é influenciada pela ergosfera. Trata-se de um conflito em outra escala, paralelo aos eventos cósmicos.
O QUE PODE VIR NA QUARTA TEMPORADA
Com esse cenário montado, algumas hipóteses surgem naturalmente:
1. Demerzel pode retornar — mas não como antes
Sua cabeça piscando não indica o fim, e sim a transição. Se houver uma rede de junção entre robôs adormecidos, Demerzel pode ser restaurada ou substituída por uma nova versão — talvez retomando o papel de general dos robôs.
2. A Novacula terá papel decisivo
Com poder comparável ao de uma singularidade, a arma pode:
- distorcer previsões,
- afetar a psicohistória,
- provocar colapsos gravitacionais,
- e definir o curso da guerra entre Bayta, o Império e a Segunda Fundação.
3. A ergoesfera será o novo centro dramático da série
A visão de Gaal não é metáfora. É um marco narrativo. Algo — ou alguém — está usando o buraco negro como canal de comunicação. Se não é Demerzel, é outro robô.
4. Os robôs podem retornar como força política
A junção mental pode unir robôs sobreviventes em uma só consciência, criando um novo polo de poder na galáxia — algo que Asimov jamais explorou dessa forma.
5. A guerra será cósmica
Com armas baseadas em singularidades e personagens orbitando buracos negros reais, a série entra numa escala em que física avançada, poder imperial e destino histórico se entrelaçam.
CONCLUSÃO
A terceira temporada de Foundation uniu ciência de ponta e reviravoltas narrativas ousadas. Ao mencionar a ergoesfera e as ondas gravitacionais, Demerzel não apenas evocou a física real dos buracos negros, mas também lançou um prenúncio dos eventos futuros. Seu sacrifício, a Novacula, a possível ativação de uma rede robótica e a revelação de Bayta como Mula pavimentam um caminho intrigante para a quarta temporada.
O fascínio está justamente nesse cruzamento entre ciência e ficção: usar teorias cósmicas para refletir dilemas humanos. Será que o destino é inevitável, como uma órbita em torno de um buraco negro? Ou pode ser alterado pela vontade de indivíduos extraordinários? Demerzel, Gaal e Bayta representam forças em conflito — determinismo, visão de futuro e imprevisibilidade.
A quarta temporada promete ser um mergulho na ergoesfera da narrativa: um ponto sem retorno em que tudo pode mudar.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
