Invasion: Análise da Terceira Temporada
Como a terceira temporada mistura potencial e falhas estruturais na série da Apple TV+
Paulo Bocca Nunes
A terceira temporada de Invasion, da Apple TV+, chegou trazendo a expectativa de que enfim responderia às perguntas que vinham se acumulando desde o início da série. No entanto, o que se viu foi uma nova leva de dúvidas e a sensação de que talvez muitas respostas jamais cheguem. A ficção científica, desde seu nascimento, sempre conviveu com a tensão entre o mistério e a revelação, mas Invasion parece ter se deixado aprisionar pelo primeiro, esquecendo-se de oferecer o segundo.
Desde a primeira temporada, a série se propôs como uma ficção científica global: diferentes personagens ao redor do mundo, cada um vivenciando a invasão alienígena sob sua própria ótica. Essa multiplicidade foi, de início, uma das maiores virtudes da produção. O espectador conhecia a catástrofe não pelos seus efeitos espetaculares, mas pelas reações humanas — medo, perda, esperança, sobrevivência. O tom era intimista, quase contemplativo, o que diferenciava Invasion de outras narrativas mais voltadas à ação.
Contudo, o público esperava ver um “Guerra dos Mundos” contemporâneo, repleto de tensão, destruição e confronto direto. A primeira temporada negou esse impulso e preferiu mostrar personagens tentando entender o que estava acontecendo — especialmente Aneesha, que, após perder o marido, assume a responsabilidade de proteger os filhos. Já na segunda temporada, o enredo evoluiu para uma guerra aberta: os alienígenas, enfim visíveis, assumem o papel de soldados de extermínio, e a resistência humana começa a se organizar. Também surgem novos elementos de mistério, como o elo mental entre humanos e alienígenas, representado por Mitsuki e Caspar — ambos capazes de estabelecer contato com as criaturas, ainda que sem compreender o alcance disso.
O final da segunda temporada parecia definitivo: Trevante e Caspar, ao tentarem destruir a nave-mãe, pareciam mortos. Quando a terceira temporada se inicia, dois anos se passaram, e é nesse intervalo que a série decide se reinventar — ou pelo menos tentar. Trevante ressurge, mas atormentado pela perda; Mitsuki continua assombrada pela conexão inexplicável com os invasores; Aneesha tenta reconstruir sua vida ao lado de outra pessoa. É uma temporada que promete convergência, e, de fato, há um esforço em unir os personagens antes dispersos. Mas o resultado final é desigual.
PRODUÇÃO AMBICIOSA, EXECUÇÃO DISPERSA
A terceira temporada de Invasion foi anunciada como o ponto de virada da série — uma fase de escala global, de unificação dos núcleos narrativos e de aumento da ameaça alienígena. A produção manteve o padrão técnico elevado: efeitos visuais competentes, uma trilha sonora densa e uma ambientação que traduz bem o clima de colapso planetário. No entanto, o projeto acabou refém de sua própria ambição. A tentativa de abarcar múltiplos cenários e personagens acabou diluindo o foco e comprometendo o ritmo.
Em tese, essa seria a temporada da convergência — quando os protagonistas de diferentes países finalmente se uniriam para enfrentar a ameaça em comum. Na prática, muitos arcos continuam fragmentados, e a prometida coesão narrativa se dissolve em uma sucessão de digressões. O ritmo é, novamente, um problema: longos episódios em que pouco acontece, diálogos que não avançam a trama e um excesso de repetições estruturais.
A série parece hesitar entre o drama existencial e o espetáculo de ficção científica — e não se compromete inteiramente com nenhum dos dois. Algumas cenas que deveriam oferecer profundidade emocional se tornam longas demais, e as cenas de ação, escassas e de impacto duvidoso. O resultado é um desequilíbrio com um acúmulo de ideias boas, mas por falta de oxigênio narrativo acabam um pouco fracas. Esse detalhe não tira o mérito e a qualidade da série, mas é um ponto que deve ser observado para o caso de confirmação de uma quarta temporada.
O CULTO, O MISTÉRIO E O DESGASTE
Entre as novidades da terceira temporada está o surgimento de um grupo que cultua os alienígenas — um elemento perturbador e promissor, que introduz um subtexto quase religioso ao enredo. No entanto, a ideia não se desenvolve de forma convincente, e sua presença acaba funcionando mais como ruído do que como catalisador da trama. Essa inclusão, somada a certas situações inverossímeis (como uma operação dentro de um prédio do FBI de “segurança máxima” que parece saída de um roteiro improvisado), contribui para a perda de verossimilhança.
O que poderia ser uma reflexão sobre fé, medo e transcendência acaba reduzido a mero artifício narrativo. Da mesma forma, a série desperdiça a oportunidade de aprofundar o vínculo entre Mitsuki e os alienígenas — talvez o aspecto mais intrigante da história. Por que apenas ela consegue se comunicar com eles? Por que os invasores a pouparam? Essas perguntas, que poderiam dar densidade filosófica ao roteiro, permanecem sem resposta.
Além de Mitsuki, havia também Luke, o filho de Aneesha, que desde a primeira temporada demonstrava uma ligação mental com os alienígenas — algo que se tornou ainda mais evidente e surpreendente na segunda. Diferente de Mitsuki, Luke parecia capaz de controlar os invasores, um poder que poderia redefinir o rumo da narrativa. No entanto, essa linha promissora é deixada de lado em favor de um núcleo centrado nos adoradores dos alienígenas, cuja presença não acrescenta real profundidade à trama.
O arco de Jamila, pelo menos, completou-se de forma convincente. Ao entrar na nave-mãe junto com Trevante e Nikhil Kapur, o grupo enfrenta as influências mentais dos alienígenas, que se alimentam das memórias mais dolorosas e reprimidas de cada um. Quando a imagem de Caspar se manifesta para Jamila, ela compreende que tudo não passa de uma ilusão, e que é preciso abandonar o passado para seguir em frente. Esse momento representa, talvez, um dos poucos instantes de verdadeira catarse emocional da temporada.
O arco de Trevante e Nikhil, por sua vez, ganha contornos mais densos, embora tardiamente. A jornada de Nikhil Kapur — o bilionário que financia o Centro de Pesquisa Alienígena (CRA), instalado no Brasil — poderia ter sido um fio narrativo muito mais produtivo se tivesse sido explorado desde o início. Ele é retratado como um homem ambicioso, pragmático e obcecado em transformar a invasão em oportunidade científica e comercial. Sua arrogância e impulsividade o colocam em rota de colisão com todos, inclusive com Mitsuki, cuja ética e empatia contrastam com sua sede de resultados. Ainda assim, é dele que parte o esforço para encontrar e salvar Mitsuki no clímax da temporada, numa espécie de redenção tardia que confere algum peso humano ao personagem. Na mesma sequência da nave, o recurso bastante usado de flashbacks revela o passado doloroso dos dois: Trevante ainda não consegue lidar com a perda do filho, enquanto Nikhil convive com a culpa pela morte da mãe durante sua infância — elementos que ajudam a explicar de onde ele tirou sua fortuna e suas motivações mais profundas.
O que intriga, porém, é a decisão dos roteiristas de desenvolver essa faceta apenas no desfecho. A pergunta de Mitsuki — “Por que você não me disse antes?” — ecoa não apenas dentro da cena, mas fora dela, como uma crítica metalinguística à própria estrutura narrativa da série. Por que a produção esperou até o final para dar a Nikhil a profundidade que ele merecia desde a segunda temporada? Essa escolha reforça a sensação de que Invasion continua a tatear o próprio propósito, desperdiçando potenciais dramáticos em nome de reviravoltas episódicas. Mesmo assim, o destaque concedido a Nikhil pode ter implicações significativas em uma eventual quarta temporada, já que é ele quem mobiliza recursos tecnológicos e científicos para tentar compreender — ou reconquistar — Mitsuki, levada no final pelos alienígenas.
No fundo, a temporada deixa em aberto uma questão que parece atravessar toda a série: sobre o que trata realmente Invasion? Sobre o luto e a superação? Sobre a união diante da catástrofe? Ou apenas sobre a sobrevivência física num mundo em colapso? A impressão é de que o seriado ainda não sabe a própria resposta.
PERSPECTIVAS PARA UMA QUARTA TEMPORADA
Até o momento, não há confirmação oficial de uma quarta temporada. No entanto, o final aberto deixa espaço para uma continuação — e talvez seja essa a última oportunidade de Invasion se reencontrar com o potencial que parecia ter desde o início.
Uma quarta temporada, se houver, precisaria corrigir rumos essenciais: dar clareza à narrativa, reduzir o excesso de subtramas e focar no que realmente importa — os personagens e o significado da invasão. Os roteiristas teriam que transformar mistério em revelação, não apenas acumular enigmas. Seria também o momento de responder perguntas fundamentais: qual é o propósito dos alienígenas? O que está além da nave-mãe? Que destino aguarda a humanidade?
Além disso, é urgente que os personagens deixem de ser peças deslocadas e passem a agir de modo coerente com suas experiências. Trevante, Mitsuki e Aneesha são figuras com grande potencial emocional, mas a série ainda lhes deve uma evolução verdadeira — uma transformação que traduza o impacto de tudo o que viveram.
Entre esses extremos, o episódio final deixa pontas soltas que flertam tanto com um desfecho definitivo quanto com a possibilidade de uma quarta temporada. Trevante recebe uma promoção como reconhecimento por seus serviços, enquanto Aneesha retorna para casa para reconstruir sua família, assumindo também a responsabilidade pela filha de seu companheiro falecido, e motiva todos com a frase: “Seja lá o que acontecer, todos enfrentarão os problemas juntos”. Nikhil concentra-se na busca por Mitsuki, cuja ausência no final permanece enigmática. A destruição da nave-mãe marca uma vitória parcial, mas não garante a segurança definitiva da humanidade. Esses elementos funcionam como ganchos narrativos, mas carecem de impacto emocional e de substância suficiente para justificar, de fato, a expectativa de uma continuação. A sensação que permanece é de que a série sugere possibilidades sem consolidar uma urgência dramática que torne inevitável uma quarta temporada.
Por fim, Invasion precisaria reencontrar sua identidade dentro do gênero. Não basta ser mais uma ficção de invasão alienígena de grande orçamento; é preciso dizer algo sobre o humano diante do incompreensível. Sem isso, continuará sendo uma promessa frustrada — um épico que nunca decola.
CONCLUSÃO
A terceira temporada de Invasion confirma que a série continua a oscilar entre ambição e execução desigual. Por um lado, mantém a riqueza técnica, a diversidade de personagens e o escopo global que sempre foram suas marcas; por outro, evidencia problemas estruturais que comprometem a coesão narrativa e a profundidade dramática. Personagens com potencial emocional significativo, como Trevante, Mitsuki, Aneesha e Nikhil, ganham momentos de densidade apenas esporadicamente, enquanto núcleos secundários e subtramas acabam diluindo a atenção e gerando sensação de dispersão.
Ao mesmo tempo, a série preserva elementos de interesse para fãs de ficção científica: a exploração da relação mental entre humanos e alienígenas, o mistério sobre os invasores e a proposta de um conflito planetário continuam instigantes. No entanto, o excesso de enigmas não acompanhados de respostas concretas, junto com escolhas narrativas tardias — como a profundidade de Nikhil revelada somente no clímax — reforçam a percepção de que Invasion ainda não encontrou plenamente sua voz dentro do gênero.
Se houver uma quarta temporada, a produção terá a oportunidade de corrigir rumos: consolidar a evolução dos personagens, esclarecer motivações e objetivos, equilibrar ação e drama existencial, e transformar pontas soltas em tensão narrativa legítima. Mais do que confrontos com alienígenas, a série precisará explorar o que significa ser humano diante do incompreensível, conferindo sentido e urgência às escolhas de seus protagonistas. Sem essa reconciliação entre ambição e execução, Invasion corre o risco de permanecer como uma promessa de ficção científica grandiosa que nunca chega a decolar plenamente — um épico que ainda busca se encontrar.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
