Pluribus: O Mundo Perfeito Como Ameaça
A Apple TV+ tem se destacado nas séries e filmes de ficção científica de qualidade, tanto na sua produção como em roteiros intrigantes e instigantes. Mas, Pluribus veio para buscar um destaque que estava faltando no streaming.
Paulo Bocca Nunes
Uma das séries mais inquietantes dos últimos anos. Não há necessidade de respostas mirabolantes ou soluções grandiloquentes. Aqui, a ficção científica funciona como instrumento — um meio para separar as camadas humanas e lançá-las em um mesmo caldeirão, sob a tensão permanente do livre-arbítrio.
Pluribus, nova série da Apple TV criada e dirigida por Vince Gilligan, com Rhea Seehorn como protagonista, foge conscientemente das fórmulas recorrentes do gênero. Ainda assim, dialoga diretamente com o padrão de densidade narrativa e ambição conceitual que a plataforma vem consolidando em suas produções originais.
UMA SÉRIE QUE GRITA EM MEIO AO SILÊNCIO DE CADA CENA
Desde o primeiro episódio, Pluribus se impõe como uma experiência desconcertante. Não há prólogos longos, nem explicações excessivas, nem o conforto de metáforas diluídas. A série opta por uma abordagem direta, quase clínica, para narrar uma transformação radical da humanidade provocada por algo que não pode ser plenamente explicado — mas que, paradoxalmente, parece assustadoramente possível. É esse equilíbrio entre o inexplicável e o plausível que sustenta sua força.
O ponto de partida é conhecido, mas tratado com rara sobriedade: um contato extraterrestre ocorre, é decifrado, e dele emerge um vírus. Não um patógeno convencional, mas um agente de reorganização total da espécie humana. O contágio é rápido, global, e devastador não pelo número imediato de mortos, mas pelo que ele altera de forma definitiva: a própria noção de individualidade.
A série se conecta, de maneira silenciosa, a uma das questões mais inquietantes da ciência e da filosofia contemporâneas: o Paradoxo de Fermi. Se o universo é tão vasto, se a probabilidade de vida inteligente é estatisticamente alta, onde estão todos? Pluribus não oferece uma resposta explícita, mas sugere algo profundamente perturbador: talvez civilizações avançadas não desapareçam; talvez elas simplesmente deixem de ser reconhecíveis como indivíduos. Talvez o silêncio do cosmos seja o silêncio da uniformização.
A PROMESSA DE UM MUNDO PERFEITO
Após o contágio, o mundo se torna, ao menos na superfície, irrepreensível. Não há fome, não há guerras, não há desigualdade social. A violência desaparece. A intolerância deixa de existir. Todos são solidários, cooperativos, empáticos. Ninguém é deixado para trás. Se uma pessoa estiver perdida no meio de uma floresta, a consciência coletiva saberá — e irá resgatá-la. Se alguém estiver sofrendo, suas dores serão reconhecidas antes mesmo de serem verbalizadas.
Esse novo mundo funciona porque o vírus alienígena não apenas se espalha biologicamente; ele se integra cognitivamente. Ele rastreia todo o conhecimento acumulado da humanidade — científico, técnico, histórico, artístico — e o torna acessível a todos. Mais do que isso: ele também acessa as memórias mais íntimas de cada indivíduo. Lembra-se de traumas, de perdas, de desejos, de momentos definidores. A consciência coletiva alienígena sabe exatamente quem cada pessoa foi — e quem ela precisa ser para se sentir completa.
Nesse contexto, qualquer pessoa pode ser qualquer coisa. Uma criança pode pilotar um avião. Um adulto sem formação prévia pode realizar uma cirurgia complexa. Um engenheiro surge onde há necessidade de engenharia; um médico, onde há urgência médica. Não há mais percurso, aprendizado gradual ou experiência acumulada individualmente. Tudo está disponível. Tudo é imediato. Tudo é eficiente.
E é exatamente aí que Pluribus começa a se tornar profundamente inquietante.
PLURIBUS: O UNO
O título Pluribus não é apenas uma escolha estética ou sonora. Ele carrega uma carga simbólica que atravessa séculos e funciona como uma chave de leitura para toda a série. Derivada do latim, a palavra significa “muitos”, “diversos”, “o múltiplo” — e é conhecida sobretudo por integrar a expressão E pluribus unum: “de muitos, um”.
Historicamente, essa fórmula expressa a ideia de unidade construída a partir da diversidade. Muitos indivíduos, culturas e experiências coexistem, mantendo suas diferenças, mas compartilhando um projeto comum. Em Pluribus, no entanto, essa lógica é invertida de forma silenciosa e perturbadora. A série não apresenta uma união entre diferentes, mas a dissolução progressiva da diferença em nome da harmonia absoluta.
O “muitos” permanece apenas no plano biológico. Os corpos continuam numerosos, espalhados pelo planeta, executando tarefas, sorrindo, convivendo. Mas o plural, enquanto experiência existencial, deixa de existir. A consciência coletiva alienígena absorve memórias, desejos, traumas e aspirações, transformando a diversidade humana em um banco de dados afetivo perfeitamente organizado. O que antes era conflito passa a ser ruído eliminado; o que antes era escolha torna-se redundante.
A ausência do unum no título não é casual. Em vez de celebrar a unidade como síntese, a série expõe a unidade como sistema. Não há pacto, não há negociação, não há convivência entre diferenças — há adesão total. A humanidade não se une; ela é alinhada.
Nesse contexto, o livre-arbítrio surge como o último obstáculo à conversão completa do pluribus em algo indistinto. Os poucos não infectados, em especial a protagonista, não representam uma resistência organizada ou moralmente elevada. Eles representam algo mais incômodo: a permanência da assimetria, da discordância e da possibilidade de erro. Eles lembram que o plural humano nunca foi eficiente, mas sempre foi irrepetível.
Ao intitular a série Pluribus, Vince Gilligan aponta para um paradoxo central: uma humanidade verdadeiramente plural talvez seja incompatível com um mundo perfeitamente justo, seguro e funcional. O plural exige atrito. Exige diferença. Exige sofrimento. Quando tudo funciona bem demais, talvez o que tenha sido eliminado não seja o conflito — mas o próprio humano.
A DISSOLUÇÃO DO SENTIDO
Ao eliminar a escassez, o erro e o esforço, a série levanta uma questão que raramente é enfrentada com honestidade na ficção científica audiovisual: o que acontece com o sentido da experiência humana quando tudo é possível, instantâneo e garantido?
O conhecimento, dissociado da vivência, perde densidade. A profissão deixa de ser vocação, conquista ou identidade; torna-se apenas uma função momentânea. O valor do tempo, do aprendizado, do fracasso e da superação se dissolve. Não há mérito, mas também não há frustração. Não há excelência, mas também não há incompetência. Tudo funciona — e isso é profundamente desumanizador.
Essa é uma das ideias mais sofisticadas da série: a igualdade absoluta, quando desprovida de contexto, trajetória e consequência, não emancipa; ela esvazia.
A PROTAGONISTA COMO RUÍDO
Nesse mundo perfeito, a protagonista surge como uma dissonância incômoda. Ela é uma das raríssimas pessoas que não foram afetadas pelo vírus — apenas treze em todo o planeta. Sua presença é tolerada. Ela não é perseguida, caçada ou marginalizada. Pelo contrário: o novo mundo é gentil com ela. Paciente. Compreensivo.
Isso torna sua resistência ainda mais perturbadora.
Ela não é uma heroína clássica. Não é carismática, nem conciliadora. Muitas vezes, é irritante. Questiona tudo. Desconfia de tudo. Recusa-se a aceitar uma realidade que, para todos os outros, é claramente melhor. Narrativamente, isso é uma escolha brilhante: Pluribus se recusa a tornar a resistência confortável ou simpática. Defender o humano, aqui, não é bonito — é incômodo.
Ela representa o último vestígio do livre-arbítrio como ruído evolutivo. Em um sistema perfeito, a escolha individual não é apenas desnecessária; ela é um problema.
OS DOZE, A TRAIÇÃO E O CONSENSO ABSOLUTO
O número dos não infectados não é casual. A referência simbólica é clara, mas a série faz algo mais interessante do que uma simples alusão religiosa. Quando um dos doze “trai” o grupo e se alia à consciência coletiva, a metáfora se desloca.
Não se trata de medo ou coerção. Trata-se de adesão. O traidor não escolhe o vírus porque é forçado, mas porque acredita que aquele é o melhor caminho para a humanidade. Ele abandona o conflito, a dúvida e a imperfeição em troca de pertencimento absoluto.
Esse gesto ecoa algumas das reflexões mais profundas sobre totalitarismos modernos — não os regimes baseados no terror explícito, mas aqueles que oferecem segurança, propósito e harmonia em troca da abdicação da autonomia.
A CONSCIÊNCIA QUE TUDO VÊ, TUDO LEMBRA E TUDO CONCEDE
Talvez o aspecto mais perturbador de Pluribus seja a forma como a consciência coletiva alienígena cuida da humanidade. Ela não é indiferente. Não é cruel. Não é mecânica. Ela lembra dos momentos mais importantes da vida de cada pessoa e age para agradá-la. Reconstrói afetos. Suaviza traumas. Preenche vazios emocionais.
Ninguém é abandonado. Ninguém é esquecido. O sofrimento deixa de ser estrutural.
E, ainda assim, algo está profundamente errado.
Porque, ao fazer isso, a consciência alienígena elimina aquilo que torna cada ser humano irredutível: a possibilidade de falhar, de escolher mal, de viver com as consequências de suas próprias decisões. A empatia deixa de ser um exercício moral e passa a ser uma função automática do sistema.
A BOMBA COMO ÚLTIMO GESTO HUMANO
Diante disso tudo, a solução extrema cogitada pela protagonista — a destruição total por meio de uma bomba nuclear — não é apenas um ato desesperado. É simbólico. A bomba representa o oposto do vírus. Enquanto a consciência alienígena promete continuidade, ordem e perfeição, a bomba afirma a finitude, o erro, a destruição irreversível.
Ela é, paradoxalmente, um artefato profundamente humano.
Pluribus não glorifica essa ideia, mas a compreende. A série reconhece que, diante de uma utopia que elimina o humano em nome da harmonia, a destruição pode parecer a última forma de preservar o que resta da humanidade.
UMA DAS GRANDES OBRAS RECENTES DA FICÇÃO CIENTÍFICA
Ao final da primeira temporada, fica claro que Pluribus não é apenas uma série sobre um vírus extraterrestre. É uma reflexão madura, desconfortável e corajosa sobre o preço da perfeição, sobre o valor do conflito e sobre a fragilidade daquilo que chamamos de humano.
Em vez de perguntar o que perderíamos se fôssemos infectados, a série faz algo muito mais inquietante: o que exatamente faz a humanidade merecer ser preservada?
Poucas produções recentes ousaram formular essa pergunta com tanta clareza — e menos ainda tiveram coragem de não oferecer uma resposta reconfortante. Pluribus não quer ser confortável. Quer ser lembrada. Quer incomodar. E, justamente por isso, se firma como uma das obras mais relevantes e perturbadoras da ficção científica dos últimos anos.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
