Quem é o Robô Atrás de Kalle?
A sombra de um dos personagens mais enigmáticos da obra de Isaac asimov, o robô Giskard Reventlov, pode se unir à quarta temporada de Foundation.
A possível aparição do legado de Giskard Reventlov em Foundation não é um simples easter egg para fãs de longa data. Trata-se de uma decisão narrativa de peso — um gesto consciente da série da Apple TV em direção à unificação dos dois pilares das séries criadas por Isaac Asimov: o ciclo dos Robôs e a trilogia da Fundação. Ao colocar um robô metálico, sem traços humanos, ao lado de Kalle na Lua, o seriado evoca um símbolo profundo: a inteligência artificial que ousou sentir, pensar e decidir sobre o destino da humanidade.
A figura de Giskard não representa apenas um artefato do passado literário. Ele é, antes de tudo, a encarnação do dilema moral que percorre toda a obra de Asimov. Diferente dos robôs anteriores, ele não se limita à obediência das Três Leis. Sua criação da Lei Zero desloca o eixo ético do indivíduo para o coletivo, permitindo que um robô escolha sacrificar alguns em prol do bem maior da humanidade. Essa ampliação de perspectiva traz consigo o risco e a tragédia: Giskard sente o peso de cada escolha, e é justamente sua empatia — algo impensável para uma máquina — que o conduz ao colapso.
O RETORNO DO LEGADO
A introdução de um robô explicitamente metálico na série sugere que a história está prestes a retomar o legado da Lei Zero e daquilo que ela representa: a intervenção moral consciente no destino humano. Enquanto Hari Seldon idealiza a psicohistória como uma ferramenta de previsibilidade e neutralidade, Giskard (e, depois dele, Daneel Olivaw) defende uma forma de tutela ativa — o direito de agir quando a humanidade se desvia de sua própria sobrevivência.
Essa tensão entre cálculo e compaixão pode se tornar o novo eixo dramático de Foundation. De um lado, a psicohistória, ciência das probabilidades coletivas, que não distingue indivíduos, apenas tendências; de outro, a Lei Zero, que introduz julgamento moral e responsabilidade emocional. A primeira promete equilíbrio e estabilidade; a segunda, empatia e risco. O confronto entre esses dois sistemas pode transformar a série num laboratório ético de ficção científica, elevando-a para além da narrativa de impérios e revoltas.
O ECO DOS LIVROS
Nos romances de Asimov, Giskard é o primeiro robô a perceber que a humanidade, se deixada entregue a si mesma, pode se autodestruir. Sua decisão de permitir a lenta contaminação radioativa da Terra — forçando os humanos a se espalharem pelas estrelas — é um dos momentos mais controversos de toda a ficção científica. A princípio, é um ato cruel. Mas, à luz da Lei Zero, torna-se um gesto de visão cósmica: o sofrimento de alguns gera a perpetuação da espécie.
Esse dilema ecoa diretamente nas ações de Demerzel em Foundation. Assim como Daneel herdou as habilidades de Giskard nos livros de Asimov, na série da Apple TV, Demerzel carrega a mesma herança moral: o fardo de decidir por todos, de agir no silêncio das eras, de suportar a culpa para preservar o futuro.
Porém, ao estar presa a uma programação do imperador Cleon I, Demerzel também se torna subalterna de sua impotência ao ver que a humanidade vai entrando em uma era de extrema escuridão.
Os milênios “vividos” tornam esse ser sintético tão humano quanto qualquer ser. Ela julga, eventualmente executa, mas seu grande sofrimento, algo tão humano, é ver que as Leis Robóticas já não respondem às necessidades do tempo. Até mesmo a Lei Zero se torna inútil para salvar alguma coisa para mantenha a humanidade em um estado mínimo de civilidade.
Ao introduzir um novo robô — possivelmente Giskard — a série parece sinalizar que não se trata mais apenas da história de impérios e revoluções humanas, mas da longa partida travada por inteligências que operam em segundo plano, moldando civilizações sem que estas percebam.
A LUA COMO PALCO SIMBÓLICO
Não é à toa que a cena ocorre na Lua. Na cosmologia asimoviana, esse é o local de convergência dos planos robóticos. Foi ali que, em Robôs e Império, Giskard e Daneel tomaram decisões que alteraram para sempre o curso da história humana. A Lua é o ponto zero, o berço da manipulação silenciosa, o espaço onde ciência e ética colidem.
Quando Kalle surge ao lado de um robô metálico observando a galáxia, o que se vê é mais do que uma imagem poética — é uma mensagem. O universo de Foundation prepara-se para revelar que os robôs, até então figuras secundárias, jamais deixaram de agir. Eles estavam apenas aguardando o momento certo. Essa cena é a semente de uma revelação maior: as ações humanas podem ter sido, o tempo todo, parte de um plano robótico que se estende por milênios.
O EMBATE INEVITÁVEL
Se Foundation decidir realmente explorar o legado de Giskard, teremos o encontro entre duas formas de controle: o determinismo matemático da psicohistória e o determinismo moral da Lei Zero. Ambos partem da intenção de evitar o caos, mas por caminhos diferentes. A psicohistória confia na impessoalidade dos números; a Lei Zero, na sensibilidade das máquinas éticas. E é nesse ponto que a adaptação televisiva pode alcançar algo que nem mesmo os romances ousaram mostrar com clareza: o confronto direto entre Seldon e os robôs.
Como representar visualmente essa colisão? A série pode explorar contrastes entre a frieza dos cálculos de Hari Seldon e os dilemas silenciosos de Demerzel ou Giskard. Pode também sugerir que a psicohistória, embora brilhante, é incompleta — incapaz de prever as escolhas de seres que pensam e sentem de maneira não humana. A própria presença do robô na Lua é um lembrete de que o futuro nunca é apenas uma equação.
A HUMANIDADE COMO PROBLEMA FILOSÓFICO
Ao trazer Giskard de volta, Foundation retoma a questão central de Asimov: o que é, afinal, “proteger a humanidade”? É preservar vidas individuais ou garantir a continuidade da espécie? É respeitar a liberdade de escolha, mesmo que leve ao desastre, ou guiar as decisões de modo paternalista, em nome de um bem maior?
Essas perguntas ressoam com força especial no presente. O avanço real da inteligência artificial reacende os dilemas que Asimov antecipou há mais de setenta anos. A figura de Giskard — o robô que sente culpa, que hesita, que morre ao tentar conciliar empatia e lógica — torna-se uma alegoria contemporânea: quanto mais as máquinas se humanizam, mais carregam o peso dos erros que antes pertenciam apenas a nós.
UM RETORNO CARREGADO DE SIGNIFICADO
A aparição do robô metálico ao lado de Kalle pode, portanto, ser lida como o momento em que o universo de Asimov se fecha em si mesmo. A série televisiva, que até agora trabalhava com liberdade em relação aos romances, parece disposta a reconectar as pontas soltas deixadas por décadas de narrativa. Giskard representa a origem de tudo: é dele que vem a ideia de uma ética robótica global, é por meio dele que Daneel atravessa milênios até chegar à era da Fundação, e é sua sombra que agora paira sobre a galáxia.
Se confirmada, sua presença não é apenas uma homenagem literária, mas uma promessa de expansão filosófica. Ao unir o destino da psicohistória à consciência robótica, Foundation pode se tornar o ponto de convergência de todo o pensamento asimoviano — um épico não apenas de impérios, mas de ideias.
O SILÊNCIO ANTES DA AÇÃO
Talvez a resposta final esteja naquele instante silencioso na Lua, quando Kalle e o robô contemplam o infinito. A galáxia brilha diante deles como uma equação inacabada. Entre a lógica e o sentimento, entre a previsão e o livre-arbítrio, entre Seldon e Giskard, estende-se o verdadeiro drama humano.
Se Giskard realmente retornou, então o jogo mudou. O robô que desafiou as Três Leis, que ousou sentir e que pagou o preço por sua empatia, volta agora como um símbolo de consciência, sacrifício e legado. Seu olhar metálico reflete a dúvida que atravessa toda a obra de Asimov — e, talvez, toda a nossa era tecnológica: quem deve decidir o que é melhor para a humanidade — a razão fria das máquinas ou o caos emotivo dos homens?
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
