Tron: A Ficção Científica Digital dos Anos 80
Do Arcade ao Metaverso: Como Tron Antecipou o Futuro
Antes de conhecermos ou entendermos o conceito de IA e tecnologia digital, um filme trouxe elementos que atualmente são bastante conhecidos.
Paulo Bocca Nunes
Tron é uma franquia de mídia de ficção científica americana que consiste em filmes, uma série de televisão animada, videogames, histórias em quadrinhos, álbuns de música, atrações de parques temáticos e diversas outras mídias.
A história se passa em grande parte dentro do “Grid”, uma série de realidades virtuais digitais onde programas de computador são entidades sencientes que se assemelham aos usuários humanos que os criaram no mundo real. Os programas são frequentemente colocados uns contra os outros em uma série de jogos de gladiadores mortais.
O título faz referência ao programa de medidas de segurança autônomo homônimo do primeiro filme, criado para proteger o sistema do Grid.
A REVOLUÇÃO COMEÇA EM 1982
Em 1982, o mundo ainda vivia uma transição analógica. Computadores pessoais estavam engatinhando, redes digitais eram algo exclusivo de governos e universidades, e a ficção científica buscava novas formas de representar esse admirável mundo tecnológico que despontava no horizonte. Foi nesse cenário que surgiu “Tron”, um projeto ousado da Disney que antecipou debates que só décadas depois se tornariam centrais na sociedade digital.
Apesar de não ter sido um sucesso de bilheteria imediato, “Tron” se tornaria uma obra de culto, reverenciada por sua estética revolucionária, pela abordagem inédita de mundos virtuais e por influenciar inúmeras mídias, de séries de TV a videogames, de videoclipes a carros personalizados. Um ano depois de seu lançamento, a influência de Tron era tamanha que chegou à televisão com a série “Automan”, criada por Glen A. Larson, claramente inspirada pela estética do filme.
OS FILMES DA FRANQUIA
“Tron” — Uma Viagem Dentro da Máquina (1982)
Dirigido por Steven Lisberger, originalmente um animador fascinado por arcades e linguagem digital, Tron conta a história de Kevin Flynn (Jeff Bridges), um programador que acaba sendo digitalizado e transportado para dentro do sistema de um supercomputador. No “Grid”, os programas assumem forma humana e travam batalhas em arenas virtuais controladas pelo autoritário Master Control Program (MCP). Flynn se une a Tron (Bruce Boxleitner), um programa de segurança que representa a resistência dentro do sistema.
A estética visual foi inovadora: os trajes com luzes brilhantes, os cenários digitalizados e os efeitos visuais gerados por computador — algo inédito para a época. A trilha sonora composta por Wendy Carlos, pioneira da música eletrônica e sintetizada, adicionava ainda mais imersão ao universo.
Apesar de sua inovação técnica, “Tron” foi considerado frio e impessoal por parte da crítica. No entanto, a proposta era justamente essa: mostrar um mundo regido por lógicas computacionais, onde as emoções humanas estavam diluídas entre códigos binários.
Disponível na Disney Plus.
Tron: Legado (2010)
A sequência direta do filme original foi dirigida por Joseph Kosinski. A história se passa 27 anos depois do primeiro filme. Traz Sam Flynn (Garrett Hedlund), filho de Kevin Flynn, em busca do pai desaparecido depois de receber uma mensagem enigmática e permanece preso dentro do Grid. Sam é transportado para o Grid, onde ele, Kevin e o guerreiro algorítmico Quorra devem impedir o programa malévolo Clu de invadir o mundo real.
A estética visual foi renovada, mantendo a essência de luzes e contrastes, mas com uma ambientação mais sombria. Destaque para a trilha sonora do Daft Punk, que se tornou uma das mais aclamadas da década e consolidou Legacy como uma obra cult.
Disponível na Disney Plus.
Curta “Tron: The Next Day” (2011)
Incluído nos extras de Tron: Legacy. A história se passa um dia após os eventos de Tron: Legacy. O material foi incluído em todos os lançamentos de mídia doméstica de Legacy. O curta-metragem, além de lidar com as consequências imediatas de Legacy, mostra os eventos que conectam os dois filmes, servindo como ponte narrativa e material promocional. Boxleitner e Hedlund reprisam seus papéis como Alan Bradley e Sam Flynn, assim como Dan Shor retornando como Roy Kleinberg do primeiro filme.
Tron: A Resistência (Tron: Uprising, 2012–2013)
Série animada produzida pela Disney XD, situada entre os eventos do primeiro e segundo filme. Com visual estilizado e roteiro maduro, Uprising trouxe profundidade à resistência digital, com o protagonista Beck assumindo o manto de Tron. A série foi elogiada, mas infelizmente cancelada após 19 episódios.
Disponível na Disney Plus.
Tron: Ares (2025)
Tron: Ares é o terceiro filme da franquia Tron, sequência direta de Tron: O Legado (2010), com lançamento previsto para 10 de outubro de 2025 pela Walt Disney Studios Motion Pictures. Dirigido por Joachim Rønning e escrito por Jesse Wigutow, o longa marca o retorno de Jeff Bridges como Kevin Flynn e apresenta Jared Leto no papel principal de Ares, um programa superinteligente enviado do mundo digital para o real — o primeiro contato direto da humanidade com seres de inteligência artificial.
O elenco conta ainda com Greta Lee (Eve Kim, CEO da ENCOM), Evan Peters (Julian Dillinger, neto de Ed Dillinger), Jodie Turner-Smith (Athena), Hasan Minhaj, Arturo Castro, Gillian Anderson e Cameron Monaghan.
O filme passou por um longo desenvolvimento desde 2010, com mudanças de direção e adiamentos causados pelas greves de 2023. As filmagens ocorreram entre janeiro e maio de 2024, em Vancouver. A trilha sonora está a cargo da banda Nine Inch Nails, cujos integrantes Trent Reznor e Atticus Ross também atuam como produtores executivos, ao lado de Joseph Kosinski, diretor de Tron: O Legado.
A nova trama promete expandir o universo da franquia, explorando de forma inédita a fronteira entre o digital e o humano — agora sob a ótica da inteligência artificial.
LITERATURA, QUADRINHOS E CULTURA POP
Romances e Novelizações
A novelização do primeiro filme foi lançada em 1982, escrita por Brian Daley, incluindo oito páginas de fotografias coloridas do filme.
Outro livro, intitulado The Art of Tron, escrito pelo publicitário sênior da Disney, Michael Bonifer, cobria aspectos da pré-produção e pós-produção de Tron.
A Disney também publicou vários livros voltados para crianças, incluindo Tron: A Pop-Up Book, Tron: The Storybook e The Story of Tron, uma combinação de livro e áudio como forma de apoiar o lançamento do filme em 1982.
Uma série de novos livros foi lançada em 2010 para coincidir com o lançamento de Tron: O Legado. Isso incluiu série de romances juniores – Tron: O Romance Junior, de Alice Alfonsi; Tron: O Legado – Derezzed de James Gelsey; Tron: O Legado – Fora da Escuridão, de Tennant Redbank; e Tron: O Legado – É Sua Vez: Iniciar Sequência, de Carla Jablonski.
Histórias Em Quadrinhos
Em 2006, a Slave Labor Graphics publicou a minissérie Tron: O Fantasma na Máquina, situada após os eventos do filme original, trazendo novos conflitos dentro do mundo digital. A história explora o conceito de criar uma cópia de segurança de um Usuário dentro de um sistema computacional e como essa inteligência artificial pode ser materializada no mundo real. A obra foi escrita por Landry Walker e Eric Jones, com arte de Louie De Martinis e Mike Shoykhet.
Uma versão mangá de Tron: Legacy foi lançada pela Earth Star Entertainment no Japão em 30 de junho de 2011.
Influência Na Música
Além da trilha composta por Wendy Carlos e depois pelo Daft Punk, a estética de Tron influenciou fortemente videoclipes de artistas pop e eletrônicos. Exemplo disso é o vídeo “Technologic” do próprio Daft Punk, que ecoa o visual “circuitado” da obra.
TRON NOS PARQUES TEMÁTICOS E NA INDÚSTRIA AUTOMOTIVA
Parques Temáticos
De 1982 a 1995, Tron foi destaque na atração PeopleMover da Disneylândia, como parte de “O Mundo de Tron“. Uma sequência de moto de luz do filme era projetada ao redor dos visitantes do parque enquanto seu veículo passava por um túnel no andar superior do Teatro Carrossel, colocando o PeopleMover no papel de uma moto de luz.
O ElecTRONica foi um evento noturno interativo realizado no parque Disney California Adventure, em Anaheim, inspirado no universo de Tron: Legacy. Com luzes, lasers, música eletrônica e projeções, promovia o filme em um ambiente de festa futurista. Iniciado em outubro de 2010, contou também com um segmento temático de Tron: Legacy no show World of Color, com trilha do Daft Punk. O evento encerrou-se em abril de 2012, sendo substituído pelo Mad T Party.
A montanha-russa TRON Lightcycle Run, inaugurada na Shanghai Disneyland em 2016 e recentemente aberta no Magic Kingdom (EUA) em 2023, oferece uma experiência imersiva inspirada nas Light Cycles do filme, colocando o visitante em uma simulação dentro do Grid.
Carros com estética Tron
Na década de 80, muitos entusiastas automotivos passaram a customizar seus carros com faixas luminosas, LEDs e pinturas com cores fluorescentes, em homenagem direta aos veículos de Tron e também ao carro de Automan. Era comum encontrar luzes azuis ou verdes contornando grades, rodas e interiores — algo que mais tarde influenciaria o tuning moderno e o visual de corridas em jogos como Need for Speed.
Videogames: O Grid nas Telas Interativas
- Tron (1982, arcade) — Desenvolvido pela Bally Midway, o jogo reunia quatro minigames baseados no filme e se tornou um sucesso nos fliperamas.
- Discs of Tron (1983) — Foco no duelo de discos de energia, como no filme.
- Tron 2.0 (2003, PC) — Um shooter em primeira pessoa ambientado anos após o filme original, com estética estilizada e narrativa própria.
- Tron: Evolution (2010, multiplataforma) — Prequel oficial de Legacy, lançado em conjunto com o filme.
Vários outros jogos inspiraram-se na estética de Tron, como Rez, Geometry Wars, LightBike (no estilo Tron Light Cycle) e até fases temáticas em Kingdom Hearts II.
Conceitos Novos em Obras dos anos 80
É curioso observar como obras como Tron e Automan, produzidas no início dos anos 1980, já exploravam conceitos que hoje identificamos facilmente como inteligência artificial — mesmo que esse termo, na época, ainda não fosse amplamente utilizado fora do meio acadêmico. O público da época enxergava esses elementos como “computadores conscientes”, “programas vivos” ou “seres digitais”, sem necessariamente associá-los à ideia de IA como a compreendemos hoje.
Isso revela um interessante fenômeno cultural: ao revisitarmos essas produções com o olhar contemporâneo, relemos os enredos sob a lente da inteligência artificial, pois estamos profundamente imersos nesse conceito nos dias atuais. O que antes era visto como pura fantasia computacional, hoje é percebido como uma antecipação — quase profética — das discussões tecnológicas que nos cercam. Um reflexo direto dos tempos em que vivemos.
“AUTOMAN” — TRON NA TV
No embalo da repercussão de “Tron”, o produtor Glen A. Larson (conhecido por Knight Rider, Battlestar Galactica e Buck Rogers) lançou em 1983 a série “Automan”. A série acompanha Walter Nebicher (Desi Arnaz Jr.), um analista de sistemas da polícia que cria um programa de IA capaz de se materializar no mundo real como Automan (Chuck Wagner) — um herói digital de aparência impecável e capacidades sobre-humanas.
Com forte inspiração visual em Tron, Automan surge com trajes luminosos, conta com o auxílio do Cursor, um pequeno holograma criador de objetos (como um carro esportivo inspirado em uma Lamborghini Countach LP400, que faz curvas em 90°), e atua como um superagente do bem. Apesar do visual chamativo, a série teve curta duração — apenas 13 episódios, devido aos custos elevados e à dificuldade de adaptação do público televisivo àquela estética digital.
O FUTURO ERA AGORA — SÓ NÃO TÍNHAMOS BANDA LARGA AINDA
“Tron” foi mais do que um filme: foi um vislumbre antecipado de um mundo onde o digital e o real se entrelaçam. Hoje, vivemos cercados por realidades virtuais, inteligências artificiais, avatares digitais e redes que conectam tudo. Se Blade Runner questionava o que é ser humano, Tron perguntava: quem somos quando nos tornamos dados?
De filmes e séries a parques temáticos, de quadrinhos a carros iluminados nas ruas, a influência de “Tron” se espalhou por todas as camadas da cultura pop. Um clássico visionário que continua a brilhar — com luz própria — no coração dos apaixonados por ficção científica digital.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
