SILO 3 Final: Troy Pode Destruir o Silo Por Dentro?
A terceira temporada de Silo termina respondendo algumas das perguntas mais antigas da série — e criando outras ainda maiores. Daniel é Troy. Charlotte é Susan. Victor é uma das pessoas por trás do sistema. E o Silo 1 não é simplesmente mais um silo. Mas talvez a revelação mais importante seja outra: o sistema conseguiu apagar nomes, memórias e identidades, mas não conseguiu apagar completamente aquilo que fazia Daniel ser Daniel.
Atenção: este artigo contém spoilers completos da terceira temporada.
Paulo Bocca Nunes
A terceira temporada de Silo começou levando o espectador para um passado que parecia, inicialmente, distante demais da história de Juliette. Daniel e Helen pertenciam ao mundo anterior aos silos. A construção daquele enorme projeto ainda estava acontecendo e a catástrofe nuclear parecia cada vez mais próxima.
No episódio 9, esse passado finalmente alcançou o presente. No episódio 10, porém, a série faz algo ainda mais interessante: volta novamente no tempo, mas dessa vez para mostrar o nascimento do sistema a partir de dentro do Silo 1. E é aí que Silo revela o significado do título “Troy”. O homem que acorda no início do episódio não é apresentado como Daniel. É Troy.
Ele pergunta quanto tempo passou desde a última vez que ele foi despertado. A resposta é simples: sete anos. Mas esses sete anos são apenas o começo. Troy será colocado em criogenia e despertado repetidamente durante décadas e séculos, sempre que o sistema precisar de um especialista para resolver uma crise. O que o episódio revela é que Troy é, na verdade, Daniel Keene, submetido a um processo de apagamento e manipulação da memória.
A revelação muda completamente a interpretação de tudo o que vimos durante a temporada. Daniel foi transformado em Troy. O Daniel que conhecemos nos episódios anteriores era inteligente, desconfiado e capaz de questionar o projeto dos silos. Troy é outra coisa.
Ele é frio. Calculista. Objetivo. E, sobretudo, parece agir como alguém que recebeu uma programação e deve simplesmente cumpri-la. Isso fica evidente quando o episódio mostra o destino do Silo 17.
Quando seus habitantes conseguem sair, Troy não demonstra preocupação com as pessoas. Ele quer saber quantas estão fora. Quer que o número seja o maior possível, mas estabelece limites precisos: elas não podem chegar ao topo da colina, onde poderiam ser vistas pelos outros silos, e também não podem enxergar os demais silos.
A operação não é apenas um massacre. É uma operação de controle da informação.
Os habitantes do Silo 17 são executados por drones. Susan — que sabemos ser Charlotte — acompanha a operação e se recusa a participar quando percebe que existem mulheres e crianças entre as pessoas que serão mortas. Troy simplesmente manda que ela deixe a sala. É uma das cenas mais perturbadoras do episódio porque Susan ainda demonstra alguma humanidade. Troy, naquele momento, não.
Os drones executam a população enquanto Troy acompanha a operação com uma frieza quase mecânica. Ele chega a pedir que o sistema térmico seja utilizado para localizar os sobreviventes e que o áudio seja cortado para eliminar os gritos.
É difícil imaginar que aquele homem tenha sido o Daniel que conhecemos. Mas essa é justamente a questão. O sistema não precisava matar Daniel. Precisava transformar Daniel em Troy.
Charlotte também perdeu sua identidade A revelação de que Susan é Charlotte cria uma segunda camada para o episódio. Daniel e sua irmã estão no mesmo ambiente. Mas nenhum dos dois reconhece o outro.
Ela se tornou Susan.
Ele se tornou Troy.
Duas pessoas que pertenciam à mesma família foram transformadas em instrumentos diferentes do mesmo sistema. Charlotte conserva, porém, alguma resistência. Quando percebe o que está acontecendo com o Silo 17, questiona a operação. Troy não.
A diferença é importante porque mostra que o apagamento de memória não produz necessariamente o mesmo resultado em todas as pessoas. Há alguma coisa da personalidade original que permanece. Susan ainda é capaz de questionar. Troy parece ter sido condicionado muito mais profundamente.
E isso nos leva a Victor.
VICTOR: MÉDICO, FUNDADOR E HOMEM DIVIDIDO
Durante boa parte da temporada, Victor parecia ocupar uma posição secundária. Médico, pesquisador e responsável por Charlotte, ele parecia estar apenas ligado ao tratamento dos traumas provocados pelo fim do mundo.
O episódio 10 revela que isso não era verdade. Victor é um dos fundadores do projeto. E sua história ajuda a explicar por que a manipulação da memória se tornou uma parte tão importante do sistema.
Victor havia sofrido um trauma profundo com a perda da própria família. Ele passou a estudar a memória e os efeitos psicológicos de experiências traumáticas. Mas existe uma ironia terrível em sua trajetória.
Victor trabalha para um sistema que apaga o passado das pessoas enquanto ele próprio permanece ligado ao passado por meio das fotografias de sua família. Ele olha para aquelas imagens repetidamente. A esposa e a filha estão mortas há décadas.
Enquanto isso, Victor continua acordando, trabalhando e tentando convencer a si mesmo de que está “salvando a humanidade”. É uma contradição que o episódio não resolve. Pelo contrário: ele a aprofunda.
Nos momentos em que a salvaguarda está sendo executada no Silo 18, a voz que fala com Camille, e sabemos que é Victor, fala a ela que que o projeto foi criado para impedir que a humanidade repetisse seu ciclo de autodestruição. Mas, quando Camille questiona como matar milhares de pessoas pode representar a salvação da espécie, ele não consegue oferecer uma resposta satisfatória. É nesse momento que o discurso da “proteção da humanidade” começa a ruir.
O VERDADEIRO SIGNIFICADO DA “SALVAGUARDA”
Até então, a salvaguarda podia ser interpretada como uma espécie de mecanismo extremo de segurança. Agora sabemos o que ele realmente representa.
É uma arma contra os próprios habitantes dos silos.
O sistema existe para preservar a humanidade, mas contém mecanismos destinados a eliminar populações inteiras quando elas ameaçam o funcionamento do projeto. Isso produz uma pergunta que atravessa toda a série:
Se é necessário matar milhares de pessoas para salvar a humanidade, o que exatamente está sendo salvo?
Camille percebe essa contradição. Victor, na sua personalidade como a Voz do sistema, não consegue mais justificá-la. E sua reação final é o suicídio. A morte de Victor não representa simplesmente a derrota de um vilão. Representa o colapso moral de alguém que passou décadas ou séculos acreditando que estava fazendo a coisa certa.
A VOZ FINALMENTE TEM UM ROSTO
Outro grande mistério da série também recebe uma resposta. A voz que controlava o sistema não era uma inteligência artificial onipotente.
Era Victor.
Ele estava por trás da comunicação que dava ordens e controlava o Silo 18. O episódio inclusive alterna a voz normal de Victor com a voz utilizada pelo sistema, deixando claro que as duas pertencem à mesma pessoa.
Isso confirma algo que Bernard já havia começado a perceber: a voz pode ser derrotada porque é humana. E isso é extremamente importante.
Durante muito tempo, os habitantes dos silos trataram o sistema como uma espécie de entidade superior. Agora sabemos que por trás dele existem seres humanos. E seres humanos podem errar.
Podem mentir.
Podem sentir culpa.
Podem morrer.
E podem ser derrotados.
TROY COMEÇA A LEMBRAR
Talvez seja aqui que esteja a parte mais importante do episódio. Troy não consegue lembrar quem é. Mas alguma coisa insiste em retornar.
Uma mulher aparece em seus sonhos. Ele não sabe quem ela é. Pergunta a Victor. O médico mente. E, ao longo dos diferentes períodos em que Troy é acordado, a pergunta volta.
Victor registra as ocorrências em papéis guardados na pasta de Troy: “Who is she?”. A mesma pergunta aparece repetidamente.
Isso significa que o apagamento da memória nunca foi completamente bem-sucedido. O sistema conseguiu retirar de Daniel seu nome. Conseguiu transformar sua história em outra coisa. Mas não conseguiu eliminar completamente a lembrança emocional de Helen.
E existe ainda outro detalhe.
Em determinado momento da temporada, Daniel machuca a mão e Helen cuida do ferimento. A marca permanece. Portanto, a série parece trabalhar com uma ideia bastante interessante: memórias podem sobreviver fora da memória consciente. Uma pessoa pode esquecer um nome e ainda conservar uma sensação. Pode esquecer uma história e ainda reconhecer um gesto. Pode esquecer alguém e continuar sonhando com essa pessoa.
“HELEN DREW”
Victor finalmente cede. Ao ser despertado novamente para resolver o problema do Silo 18, Troy é chamado por Henry na sala de Victor. Os dois o encontram morto.
Troy procura alguma coisa nos registros de Victor e encontra um vídeo, onde Victor se despede e diz o nome da mulher com quem ele sonha: Helen Drew.
A reação é imediata. Troy se emociona. Os olhos se enchem de lágrimas. E naquele instante temos uma mudança fundamental. Não estamos mais olhando apenas para Troy. Daniel começa a voltar.
É uma espécie de reumanização do personagem. O mesmo homem que havia ordenado a execução de milhares de pessoas agora está diante de uma informação que atravessou décadas de condicionamento.
Helen.
O nome que o sistema não conseguiu apagar.
DANIEL PODE SER O PRÓPRIO CAVALO DE TROIA
É aqui que uma das teorias mais interessantes sobre o título do episódio ganha força.
Troy pode ser lido simplesmente como o nome adotado por Daniel. Mas existe outra possibilidade. Troy pode representar Troia.
Na mitologia, Troia era uma cidade fortificada. Suas muralhas eram sua proteção. O que permitiu sua queda não foi a destruição das muralhas por força externa, mas a entrada de algo que os próprios habitantes aceitaram colocar para dentro.
O CAVALO DE TROIA.
A comparação com Silo é obviamente especulativa, mas agora ela ganhou uma dimensão narrativa bastante clara. O Silo 1 criou Troy para proteger o sistema.
Troy é um especialista. É treinado. É condicionado. É utilizado para executar os protocolos. Mas dentro dele existe Daniel. E Daniel está começando a despertar.
Por isso, o próprio Troy pode se tornar o Cavalo de Troia do Silo 1. O sistema criou seu instrumento de controle perfeito. Talvez tenha criado, sem perceber, o instrumento que poderá destruí-lo por dentro.
E ONDE ENTRA HELEN?
A série fez uma alteração importante em relação à história dos livros. Aqui, Helen não é simplesmente uma lembrança distante. Ela está viva no momento da criação dos silos, grávida de Daniel, e é enviada para o Silo 18.
O episódio 9 mostrou o rapaz de amarelo puxando Helen para dentro do silo no momento da explosão. Isso significa que a separação dos dois não foi o fim da história. E, agora, Troy sabe que ela existiu.
Isso cria uma motivação completamente nova. Daniel pode ter passado séculos sem saber quem era aquela mulher que aparecia em seus sonhos. Agora ele sabe. E, portanto, existe uma razão para desafiar o sistema.
O ENCONTRO ENTRE JULIETTE E TROY
O episódio termina com uma das cenas mais simples e mais importantes da temporada. Juliette chega ao Silo 1. Troy está diante dela. Ela aponta uma arma e pergunta:
“Quem é você?”
A resposta dele é carregada de dúvida:
“Eu não sei.”
É uma resposta muito diferente daquela que esperaríamos de Troy. Ele não diz “sou Troy”. Não diz “sou Daniel”. Ele demonstra desorientação. Quase como alguém que está esperando que outra pessoa lhe diga quem ele é. E então surge um detalhe visual que merece atenção.
A câmera mostra os olhos de Juliette. Depois, os olhos de Troy. Os dois têm olhos azuis. Isso pode ser uma pista. Pode ser uma associação visual criada pela montagem. Pode ser uma distração deliberada para estimular teorias sobre parentesco. Não há informação suficiente para afirmar que Juliette seja descendente de Daniel e Helen. Mas a cena certamente foi construída para que o espectador perceba a semelhança.
E existe uma possibilidade narrativa interessante: Troy pode ter reconhecido alguma coisa em Juliette que não conseguiu racionalizar. Por enquanto, isso permanece uma pergunta.
As câmaras criogênicas: quem está dormindo NO Silo 1?
Talvez uma das imagens mais intrigantes do episódio seja a das inúmeras câmaras criogênicas.
Agora sabemos que o Silo 1 não funciona como os demais. Enquanto os outros silos são comunidades destinadas a viver continuamente em seu interior, o Silo 1 possui pessoas que passam longos períodos em suspensão e acordam para cumprir determinados turnos. A própria estrutura do episódio mostra que os personagens não permanecem acordados durante todo o período em que acompanhamos a história. Mas isso abre uma pergunta enorme:
Quem são todas aquelas pessoas?
São especialistas?
São fundadores?
São trabalhadores selecionados?
São pessoas que possuem funções específicas?
Quantos existem?
E, sobretudo:
Quantos Daniels existem dentro daquele sistema?
A série ainda não respondeu.
E os fundadores?
Victor é um deles.
Thurman é outro.
Mas isso não significa que conhecemos todos.
Durante três temporadas, os habitantes dos silos falam dos fundadores quase como figuras míticas. Agora sabemos que eram pessoas reais. Pessoas que tomaram decisões. Pessoas que tinham objetivos. Pessoas que construíram um sistema para controlar outras pessoas.
Mas ainda não sabemos exatamente: quem eram todos os fundadores?
Quem decidiu que o sistema deveria funcionar dessa maneira?
Quem determinou os protocolos?
Quem decidiu que o Safeguard deveria existir?
E, principalmente: qual era o verdadeiro objetivo de todo o projeto?
Salvar a humanidade continua sendo uma possibilidade. Mas salvar a humanidade não explica automaticamente a necessidade de tanto controle.
E STENSEN?
Aqui permanece uma das maiores perguntas.
Stensen aparece associado ao projeto desde o período anterior à catástrofe. É uma figura com dinheiro, influência e participação direta na construção dos silos. Mas o episódio não esclarece seu verdadeiro destino.
Isso permite especular sobre uma possibilidade: Stensen pode estar entre as pessoas preservadas em criogenia. E existe ainda a questão do Silo 51.
Se a informação apresentada anteriormente na série por Bernard sobre a existência de 51 silos estiver correta, mas apenas 50 forem conhecidos pelo sistema que acompanhamos, então o 51 continua sendo uma peça potencialmente importante.
Poderia Stensen estar relacionado a ele? Não há confirmação. Mas é uma pergunta que a quarta temporada terá de enfrentar se a série quiser fechar completamente a arquitetura do projeto.
O MUNDO EXTERIOR CONTINUA SENDO UM MISTÉRIO
O episódio 10 também esclarece uma questão importante sobre o Silo 17.
As pessoas que saíram não morreram simplesmente porque entraram em contato com um ar naturalmente radioativo. Elas foram executadas pelos drones. Isso muda a nossa compreensão do mundo exterior.
Ainda não sabemos exatamente qual é a condição do planeta. A explosão de Atlanta mostrou a destruição do mundo anterior, mas não mostrou quanto do planeta foi efetivamente destruído.
Não sabemos se houve dezenas de ataques. Não sabemos se houve uma guerra global. Não sabemos quanto tempo os efeitos da radiação permaneceram. E não sabemos se determinadas regiões do planeta já são habitáveis. Portanto, uma das perguntas fundamentais permanece:
O mundo realmente é inabitável ou os habitantes dos silos foram ensinados a acreditar nisso?
A série ainda não deu essa resposta definitiva.
AS CENAS PÓS-CRÉDITOS: PASSADO, PRESENTE OU FUTURO?
A produção ainda deixou uma surpresa que pode ter passado despercebida por muitos espectadores: há uma sequência de cenas pós-créditos que acrescenta novas peças ao enorme quebra-cabeça de Silo.
Tudo começa exatamente onde terminou o episódio 9.
Helen está do lado de fora quando vê a explosão. O rapaz de amarelo aparece, segura Helen e a leva para dentro do silo. Ela ainda tenta sair, mas ele a puxa para trás e fecha a porta.
É uma confirmação importante: Helen sobrevive à explosão.
Mas, logo depois, surge uma nova imagem.
Helen aparece dentro do silo, ao lado de outras pessoas, usando um jaleco verde. Pelo aspecto da cena, parece ter passado algum tempo. E existe um detalhe que chama atenção: Helen já não aparenta estar grávida.
Isso abre outra pergunta.
Ela já teria dado à luz? Ou a criança não sobreviveu?
Então começa uma sequência ainda mais intrigante.
Uma tela mostra Paul Billings falando para os habitantes dos silos. As pessoas param para ouvir.
E o discurso é extraordinário:
“Cidadãos do silo. Vocês têm o direito de saber a verdade. Há outros silos por aí como o nosso. Mas um silo controla o resto. É por causa dele que acreditamos que o ar lá fora é irrespirável. É uma mentira que nos contaram. Eles já tentaram bombear veneno para dentro de nossa casa, mas falharam. Estamos aqui seguros hoje por causa de Juliette Nichols.”
A primeira pergunta é inevitável:
Em que momento isso está acontecendo?
Billings pertence à história do Silo 18 e parece estar vivendo muito depois dos acontecimentos envolvendo Helen. Se for assim, aquela transmissão não pode simplesmente estar acontecendo no mesmo momento em que Helen aparece no silo. A montagem foi deliberadamente retirada de sua ordem cronológica.
Essa possibilidade ganha força quando observamos o que aparece enquanto Billings fala. A senadora surge com uma expressão abatida ao lado da filha. Susan aparece preparando um drone. Pessoas caminham por um silo organizado. Stensen aparece em uma enorme sala, diante de uma parede de vidro que revela construções modernas e futuristas. Seu rosto demonstra claramente preocupação ou espanto. Sequências de invasão e luta. E, finalmente, habitantes do Silo 18 correndo por um túnel que começa a ser tomado pela água.
Não parece uma sequência linear. Parece um mosaico de acontecimentos. Certamente, farão parte de acontecimentos atuais com outros de flashback para explicar o passado, como é o caso de Helen.
E talvez essa seja justamente a intenção. A produção pode estar mostrando acontecimentos de diferentes momentos para esconder do espectador quando cada coisa realmente acontece.
Isso também pode explicar uma das imagens mais intrigantes: Stensen. Ele aparece em uma sala ampla, em frente a uma janela que mostra um exterior de uma paisagem futurista. Isso pode significar que existe muito mais por trás do projeto dos silos do que simplesmente preservar cinquenta grupos de sobreviventes.
E há ainda outra possibilidade. A fala de Billings afirma que um silo controla os demais. Se isso estiver correto, o Silo 1 deixa de ser apenas mais um silo. Ele é o centro do sistema. E isso torna ainda mais importante a presença de Troy, as câmaras criogênicas e as pessoas que parecem controlar toda a operação.
Mas existe uma ironia.
Billings afirma que todos estão seguros por causa de Juliette Nichols.
E é justamente Juliette quem, nas cenas finais do décimo episódio, fala sobre levar confronto ao Silo 1. E, principalmente, nas cenas pós-créditos, ela encontra Troy dentro do Silo 1. Ela aponta uma arma para ele e pergunta:
“Quem é você?”
Troy responde, fragilizado e desorientado:
“Eu não sei.”
A terceira temporada termina assim.
Com Juliette diante de Daniel.
Daniel sem saber que é Daniel.
E um sistema que aparentemente começa a perder o controle sobre aquilo que ele próprio criou.
Talvez as respostas da quarta temporada estejam justamente nessa contradição: o sistema criou Troy para proteger os silos, mas pode ter criado também o homem que finalmente ajudará a destruí-los.
Isso também combina com a estrutura narrativa que Silo adotou nesta temporada: passado e futuro são constantemente colocados lado a lado para que o espectador perceba relações que os próprios personagens desconhecem.
O RAPAZ DE AMARELO AINDA NÃO TERMINOU SUA HISTÓRIA
E há uma personagem secundária que merece atenção. Ou melhor, um personagem. O rapaz de amarelo.
No episódio 9, ele demonstrou uma preocupação incomum com Helen.
Sabia que ela estava grávida. Sabia quem ela era. Ajudou-a. E, no momento da explosão, estava atento ao seu comportamento. Depois, a cena pós-créditos confirma que ele conseguiu puxá-la para dentro do silo.
Isso dificilmente precisa significar que ele conhece todos os segredos do projeto. Mas sua função pode ter sido justamente garantir que Helen chegasse viva ao Silo 18. Se for assim, permanece uma pergunta:
Quem determinou que Helen precisava ser protegida?
Essa pode ser uma das questões que a quarta temporada responderá por meio de flashbacks.
O VERDADEIRO CONFLITO DA QUARTA TEMPORADA
Depois de três temporadas, Silo mudou completamente de pergunta. No começo, queríamos saber: O que existe lá fora?
Depois:
Por que não podemos sair?
Agora sabemos que precisamos perguntar:
Quem construiu tudo isso e por quê?
Mas o episódio 10 acrescenta uma quarta pergunta:
O que acontece quando o sistema que controla a memória não consegue controlar completamente a identidade de uma pessoa?
Juliette passou boa parte da série tentando descobrir quem era. Daniel passou séculos sendo impedido de lembrar quem era. Charlotte perdeu seu nome e se tornou Susan. Victor tentou controlar o trauma apagando memórias. E, no fim, a memória voltou.
Não através de uma máquina.
Não através de uma ordem.
Não através de um protocolo.
Mas através de uma pessoa.
Helen.
O COMEÇO DO FIM?
A terceira temporada termina com uma situação extraordinariamente diferente daquela apresentada no início da série.
Juliette não está mais simplesmente tentando descobrir a verdade.
Ela quer chegar ao Silo 1.
O Silo 18 conseguiu impedir o salvaguarda.
Troy começou a recuperar Daniel.
Charlotte/Susan continua ligada ao sistema.
Victor está morto.
E o homem que passou séculos executando as ordens do projeto agora encontra Juliette e sequer sabe responder quem é. Talvez essa seja a maior ironia do episódio. O sistema passou séculos tentando controlar pessoas por meio de memória, medo e informação. Mas o próprio sistema criou as condições para sua derrota.
Juliette está chegando por fora. Daniel pode estar despertando por dentro.
E entre os dois existe uma história que o sistema tentou apagar. Uma história chamada Helen. Por isso, talvez “Troy” seja muito mais do que o nome de um personagem.
Pode ser o nome de uma identidade fabricada. Pode ser uma referência à antiga Troia. Pode ser uma pista sobre o papel que Daniel terá na destruição do Silo 1. Ou pode ser simplesmente mais uma das armadilhas narrativas de Silo. Mas uma coisa parece cada vez mais clara: o sistema conseguiu fazer Daniel esquecer seu nome.
Não conseguiu fazê-lo esquecer completamente quem ele era. E agora a quarta temporada terá de descobrir o que acontece quando Troy começa a lembrar de Daniel.
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
