SILO 3: O EPISÓDIO 9 MUDOU TUDO
O penúltimo episódio da terceira temporada de Silo finalmente mostrou como o mundo acabou. Mas, em vez de responder aos grandes mistérios da série, Bernard deixou uma pergunta ainda mais assustadora: e se a voz que controla os silos não for uma máquina?
Paulo Bocca Nunes
Durante três temporadas, Silo construiu sua história em torno de uma pergunta aparentemente simples: O que existe do lado de fora?
A resposta já foi parcialmente descoberta.
O mundo exterior é devastado. A humanidade sobreviveu escondida em gigantescas estruturas subterrâneas. Os habitantes dos silos foram separados, controlados e privados de informações sobre seu próprio passado.
Mas a terceira temporada mudou completamente o foco da série. Agora sabemos muito mais sobre como tudo começou. E, depois do episódio 9, sabemos também que talvez ainda estejamos muito longe de compreender quem realmente está no controle.
O episódio, intitulado Farewell, funciona em duas linhas temporais. No presente, Bernard faz seu sacrifício final enquanto Juliette e os rebeldes tentam impedir que a Salvaguarda destrua o Silo 18. No passado, Daniel Keene e Helen Drew chegam ao momento em que os silos estão prestes a se tornar a única esperança — ou a única prisão — da humanidade.
E é justamente nessa segunda história que Silo abre uma quantidade impressionante de novas possibilidades. Porque o episódio 9 deveria trazer respostas.
Em vez disso, trouxe novos mistérios.
A ORIGEM DO FIM
Uma das grandes revelações da terceira temporada foi finalmente mostrar o mundo antes dos silos.
Durante boa parte da série, o passado era quase uma lenda. Sabíamos que alguma coisa havia acontecido. Sabíamos que a humanidade tinha sido obrigada a se esconder. Mas não sabíamos exatamente como aquela transformação aconteceu. O episódio 9 finalmente mostra a catástrofe.
Daniel e Helen estão diante dos silos recém-construídos quando ocorre o ataque nuclear que transforma aquele mundo no passado. Os dois são separados e enviados para silos diferentes: Helen é direcionada para o Silo 18, enquanto Daniel é levado para o Silo 1. E essa separação pode ser muito mais importante do que parece.
Porque estamos falando justamente dos silos que, séculos depois, se tornariam fundamentais para a história que conhecemos.
Helen vai para o Silo 18.
Daniel vai para o Silo 1.
E existe ainda o Silo 17, que já conhecemos através de Solo e Juliette.
Três silos.
Três histórias.
E talvez três peças fundamentais de um quebra-cabeça muito maior.
CHARLOTTE, HELEN E O MISTÉRIO DO SILO 18
Uma das maiores perguntas deixadas pelo episódio é o destino de Helen. Ela estava grávida de Daniel quando os dois chegaram ao complexo dos silos. No momento da explosão, os dois são separados.
Daniel vai para o Silo 1. Helen é encaminhada para o Silo 18. E então… a série corta. Não vemos claramente o destino de Helen.
Ela morreu? Sobreviveu? Conseguiu entrar no silo?
Essa última possibilidade é especialmente interessante. Porque existe uma conexão que pode ser apenas uma coincidência — ou pode ser uma pista.
Na primeira temporada, o Silo 18 possuía um dos objetos mais estranhos de toda a série: o dispenser.
Aquele misterioso dispositivo que apareceu associado à estrutura do silo sempre pareceu deslocado dentro da tecnologia que conhecíamos. Agora sabemos que Helen foi enviada justamente para o Silo 18. Então surge uma possibilidade fascinante: e se Helen tiver sobrevivido e alguma parte de sua história tiver permanecido dentro do Silo 18?
Não necessariamente ela própria. Pode ser uma informação. Uma tecnologia. Uma instrução. Um objeto. Ou até mesmo uma influência que atravessou gerações.
Não existe confirmação disso. Mas Silo é uma série que trabalha justamente com esse tipo de conexão entre passado e presente. E o dispenser torna essa hipótese especialmente tentadora.
E CHARLOTTE?
Existe ainda outro mistério: Charlotte Keene.
No momento em que Daniel e Helen chegam aos silos, Charlotte não está com eles. E isso levanta outra pergunta: onde ela estava quando o mundo acabou?
Charlotte tinha uma ligação direta com o projeto dos silos e com as pessoas responsáveis por sua construção. Se sobreviveu, poderia ter entrado em algum outro silo. E, se isso aconteceu, sua influência poderia ter atravessado gerações.
Talvez seja exatamente esse o tipo de detalhe que a série está guardando para revelar mais tarde. Ou talvez Charlotte tenha morrido antes de conseguir chegar a um silo. Por enquanto, não sabemos. E essa é a graça.
Estamos diante de uma história em que sobreviver à explosão não significa necessariamente sobreviver à história.
O GRANDE MISTÉRIO: DANIEL KEENE
Se o destino de Helen é intrigante, o de Daniel é ainda mais. “Quem conhece os livros sabe que existe um personagem cuja história apresenta uma possibilidade que pode ser relevante para o destino de Daniel na série.”
Sabemos que Daniel foi levado para o Silo 1. E aqui começa uma especulação que pode levar Silo para um território muito mais profundo da ficção científica. Como Daniel sobreviveu à catástrofe?
A resposta mais simples seria: Ele entrou no silo. Mas existe um problema.
A explosão acontece em um momento de enorme confusão. Os personagens são separados. O mundo está literalmente desmoronando. E Daniel parece estar em uma posição muito diferente dos demais.
Então surge uma possibilidade: E se Daniel não tivesse simplesmente entrado no Silo 1?
E se alguma tecnologia experimental tivesse sido utilizada para preservar sua vida? É aqui que aparece uma palavra que ainda não foi confirmada pela série: criogenia.
Não sabemos se Silo pretende utilizar esse conceito. Mas, como especulação, ele resolveria alguns problemas interessantes. Se Daniel foi colocado em algum tipo de estado de suspensão, poderia ter sobrevivido por muito mais tempo do que um ser humano normal.
E isso nos leva diretamente à maior loucura de todas.
E SE A VOZ FOR DANIEL?
Bernard descobre algo extraordinário antes de morrer. A voz por trás do sistema pode não ser simplesmente uma inteligência artificial. Pode ser uma pessoa.
A suspeita de Bernard é justamente essa: a voz do Legacy pode estar vindo de alguém no Silo 1. E então surge um detalhe que torna tudo ainda mais interessante. A voz apresenta uma semelhança muito grande com a voz de Daniel Keene.
Isso pode ser apenas uma escolha narrativa. Pode ser uma coincidência. Pode ser uma gravação. Pode ser uma voz sintetizada. Pode ser uma inteligência artificial imitando alguém. Ou pode ser Daniel.
Essa última hipótese é completamente especulativa. Mas é justamente por isso que ela é tão divertida. Imagine que Daniel tenha sobrevivido.
Imagine que tenha permanecido de alguma maneira ligado ao Silo 1. Imagine que a tecnologia utilizada para preservar sua vida tenha permitido que ele atravessasse décadas ou até séculos.
Nesse caso, Daniel não seria simplesmente um personagem do passado. Ele poderia ser uma espécie de ponte viva entre o mundo anterior aos silos e o mundo de Juliette. E Silo entraria em um território clássico da ficção científica.
HARI SELDON, DANIEL KEENE E A FICÇÃO CIENTÍFICA
Aqui aparece uma comparação que considero especialmente interessante.
Em Fundação, de Isaac Asimov, Hari Seldon desenvolve a psico-história, uma ciência capaz de prever o comportamento de grandes populações humanas.
Mas existe uma limitação fundamental: a previsão funciona melhor para grandes massas do que para indivíduos.
Um indivíduo excepcional pode alterar o curso da história. E é exatamente aí que Silo parece estar apresentando sua própria versão desse conceito.
Bernard identifica Juliette como a variável que não estava prevista. O sistema consegue controlar populações. Consegue antecipar comportamentos. Consegue criar regras para milhões de pessoas. Mas talvez não consiga prever uma pessoa como Juliette. E isso é profundamente asimoviano.
A ideia não precisa ser uma referência direta a Fundação. Pode simplesmente ser uma aproximação conceitual. Mas é uma aproximação muito interessante. Porque, em ambos os casos, existe uma pergunta central: até onde é possível prever o comportamento humano?
JULIETTE: A VARIÁVEL FORA DA CURVA
Talvez esta seja a revelação mais importante de Bernard. Juliette não é simplesmente a protagonista. Ela pode ser a falha no sistema.
Durante gerações, o mecanismo que controla os silos conseguiu manter as pessoas dentro de determinados padrões. Rebeliões aconteceram. Pessoas morreram. Memórias foram apagadas. Informações foram controladas. O sistema sobreviveu. Até Juliette.
Ela atravessa fronteiras. Questiona regras. Investiga aquilo que não deveria investigar. Descobre informações proibidas. Sobrevive quando deveria morrer. E, principalmente, não reage como o sistema espera que ela reaja.
Talvez seja justamente por isso que Bernard a vê como uma possibilidade de mudança. O sistema consegue prever o comportamento de uma população. Mas não necessariamente consegue prever o comportamento de um indivíduo que não aceita as regras do jogo. E isso cria uma situação extraordinária.
Talvez Juliette não precise derrotar o sistema. Talvez ela só precise fazer aquilo que o sistema não consegue prever.
E AQUI VOLTAMOS A ASIMOV
Essa ideia aproxima Silo de uma tradição clássica da ficção científica. Em Fundação, a humanidade pode ser estudada estatisticamente. Grandes grupos podem seguir padrões. Impérios podem entrar em decadência. Civilizações podem ser analisadas. Mas existe sempre o problema do indivíduo.
A pessoa que aparece no momento errado. A pessoa que toma uma decisão inesperada. A variável que não estava na equação. Juliette pode ser exatamente isso. O erro estatístico que se transforma em revolução. E talvez essa seja uma das ideias mais interessantes que a série apresentou até agora.
MAS HÁ OUTRA REFERÊNCIA: DANIEL COMO DANEEL OLIVAW?
Agora entramos em um território ainda mais especulativo. E aqui é importante deixar absolutamente claro: não estamos dizendo que Silo está fazendo isso. Estamos apenas imaginando. Se a voz for realmente Daniel…
Se Daniel tiver sobrevivido de alguma maneira…
Se ele tiver atravessado décadas ou séculos…
Então existe uma referência muito interessante dentro da própria história da ficção científica.
Estou falando de R. Daneel Olivaw, personagem criado por Isaac Asimov.
Daneel é uma figura extraordinária porque sua presença atravessa diferentes momentos da história futura de Asimov e conecta histórias que inicialmente pareciam independentes.
Agora imagine uma possibilidade semelhante em Silo. Daniel Keene, personagem do mundo anterior à catástrofe, poderia sobreviver ao desaparecimento daquela civilização. Poderia testemunhar a criação dos silos. Poderia acompanhar sua evolução. Poderia permanecer ligado ao Silo 1. E, séculos depois, sua voz poderia chegar até Juliette.
Nesse cenário, Daniel deixaria de ser apenas um personagem histórico. Ele seria uma testemunha viva da origem dos silos. E isso seria um mergulho delicioso na tradição da ficção científica. Não porque Silo estaria copiando Asimov. Mas porque estaria trabalhando com uma ideia muito comum e poderosa do gênero: um personagem que atravessa gerações e se transforma em uma ligação entre diferentes eras da humanidade.
O MISTÉRIO DOS SILOS 1, 17 E 18
Existe ainda outra maneira de olhar para tudo isso. Os silos não parecem ter sido apresentados aleatoriamente. O Silo 17 já conhecemos através de Solo.
O Silo 18 é o centro da história de Juliette. E o Silo 1 parece ocupar uma posição completamente diferente. É o centro de poder. O lugar onde está o Legado. O lugar de onde aparentemente partem as ordens. E agora sabemos que Daniel foi enviado justamente para o Silo 1.
Enquanto isso, Helen foi enviada para o 18. Isso é narrativamente significativo demais para ser ignorado. O que aconteceu com Daniel no Silo 1? O que aconteceu com Helen no Silo 18? E o que aconteceu com os outros personagens que foram distribuídos entre os diferentes silos?
Porque eles não eram pessoas aleatórias. Eram pessoas que estavam próximas dos acontecimentos que deram origem à nova civilização. Cada uma delas carregava conhecimentos, experiências, conflitos e interesses diferentes.
Se sobreviveram, suas influências podem ter sido incorporadas às sociedades que nasceram dentro dos silos. E talvez a verdadeira história da humanidade subterrânea seja justamente a história dessas influências.
O QUE REALMENTE ACONTECEU COM A HUMANIDADE?
Esse é o ponto em que Silo fica maior do que sua própria trama. A série começou como uma história sobre pessoas presas dentro de uma estrutura subterrânea.
Agora estamos começando a perceber que estamos diante de uma experiência gigantesca de engenharia social. Alguém decidiu:
- onde as pessoas viveriam;
- o que elas poderiam saber;
- quais memórias deveriam ser preservadas;
- quais informações deveriam desaparecer;
- como os silos seriam administrados;
- como as rebeliões seriam controladas;
- e até onde seria permitido questionar a realidade.
Mas existe uma pergunta que continua sem resposta: por quê?
Por que criar tudo isso?
Por que tantos silos?
Por que controlar a humanidade durante gerações?
E quem tomou essa decisão?
O EPISÓDIO 10 PRECISA RESPONDER ALGUMA COISA?
Talvez. Mas não necessariamente tudo.
A terceira temporada ainda não precisa entregar todas as respostas porque Silo está caminhando para sua temporada final. O que o público quer ver no episódio 10 é pelo menos uma peça desse quebra-cabeça.
Saber mais sobre a Voz.
Saber o destino de Helen.
Saber o que aconteceu com Charlotte.
Entender melhor o papel de Daniel.
E, principalmente, descobrir por que Juliette é tão importante para um sistema que existe há séculos. Porque talvez Bernard tenha encontrado a chave de toda a história. O sistema não tem medo simplesmente de uma rebelião. Ele tem medo de uma variável que não consegue controlar.
O QUE A TERCEIRA TEMPORADA FEZ COM SILO?
A terceira temporada conseguiu uma coisa difícil. Ela mudou completamente o significado das temporadas anteriores. No começo, queríamos saber: O que existe lá fora?
Depois: Por que as pessoas não podem sair?
Agora: Quem construiu tudo isso?
E finalmente chegamos à pergunta mais assustadora: Quem ainda está controlando tudo isso?
O episódio 9 parece responder algumas dessas perguntas. Mas cada resposta abre uma porta. A catástrofe aconteceu. Os silos existiam antes dela.
Daniel foi enviado para o Silo 1.
Helen foi enviada para o Silo 18.
Charlotte desapareceu da narrativa.
Bernard morreu.
A voz pode ser humana.
Juliette pode ser a variável que o sistema nunca conseguiu prever.
E, talvez, alguém esteja observando tudo isso há muito mais tempo do que imaginamos.
AGORA, SÓ FALTA UMA SEMANA
O mais interessante é que estamos chegando ao final da terceira temporada sem saber exatamente que tipo de resposta Silo pretende oferecer. Pode ser que a Voz seja uma inteligência artificial.
Pode ser uma pessoa.
Pode ser Daniel.
Pode ser alguém completamente diferente.
Helen pode ter morrido.
Ou pode ter sobrevivido.
Charlotte pode ter desaparecido para sempre.
Ou pode ter deixado sua marca em algum outro silo.
Daniel pode ter morrido na catástrofe.
Ou pode ter encontrado uma maneira de atravessar o tempo.
A criogenia pode fazer parte dessa história.
Ou pode ser apenas uma hipótese que estamos construindo porque precisamos encontrar uma explicação para algo que ainda não compreendemos.
E essa é justamente a parte interessante: a especulação. A criação de uma teoria. E Silo está fazendo questão de nos deixar nesse estado de criação de ideias.
Talvez a maior revelação do episódio 9 não seja a explosão nuclear.
Talvez seja a percepção de que a história dos silos não terminou quando seus habitantes entraram debaixo da terra.
Talvez ela tenha começado ali.
E se a voz realmente for Daniel…
Se esse homem conseguiu atravessar o tempo de alguma maneira…
Se ele permaneceu ligado ao Silo 1…
Então estaremos diante de algo ainda maior: um personagem do mundo que morreu falando com personagens do mundo que nasceu.
Isso seria uma das mais interessantes homenagens que Silo poderia fazer à própria tradição da ficção científica.
De Hari Seldon a Daneel Olivaw, a ficção científica já imaginou personagens capazes de atravessar gerações e observar a humanidade em escalas que nenhum indivíduo comum poderia experimentar.
Agora Silo parece brincar com uma possibilidade semelhante.
Daniel Keene pode ser apenas um homem que morreu quando o mundo acabou. Ou pode ser muito mais do que isso. Na próxima semana, talvez descubramos.
E talvez a pergunta que finalmente precise ser respondida não seja mais:
“O que existe do lado de fora?”
Mas sim: “Quem está falando conosco lá de dentro?”
E, principalmente: “Há quanto tempo essa voz está esperando por Juliette?”
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Paulo Bocca Nunes é professor de Língua Portuguesa e Literatura. Mestre em Letras, Cultura e Regionalidade. Especialista em Literatura e Cultura Portuguesa e Brasileira. Especialista em Cultura Indígena e Afro-brasileira. Escritor. Contador de histórias.
